OPINIÃO

É preciso trabalhar menos


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Para começar nossa conversa de hoje, eu vou dizer que eu acho que o brasileiro é um povo que trabalha muito. As pessoas que me rodeiam dedicam-se de 12 a 14h de seu tempo ao trabalho e eu não estou contabilizando tráfego e tempo perdido em deslocamentos, almoços etc. Quanto à eficiência do nosso trabalho, aí é outra conversa, já que somos um dos países menos competitivos do mundo. Sobram horas, mas faltam eficiência e processo.

Entendo perfeitamente que é difícil também se atentar aos processos de gestão, pois muitas decisões dependem das plataformas governamentais que, vamos dizer, não ajudam o empresário e o trabalhador. São lentas, os processos são demorados, o que leva incerteza a qualquer investimento que queremos fazer no Brasil. Sem contar naquilo que depende de aprovações públicas. Nossos fornecedores - principalmente na construção civil - também deixam a desejar, muitos deles afeitos a um processo do século retrasado e salários pouco dignos de atrair uma mão de obra especializada. (Aqui em Jundiaí mesmo, sobram vagas, mas vamos combinar que sobram vagas mal remuneradas.)

Dito isto - e também não vou entrar na polêmica e escravagista escala de 6 x 1 -  um antigo colaborador meu, ao telefone (este instrumento antepassado), me disse que se recorda de mim, quase aos gritos pela redação. “Vão embora para casa, a vida de verdade acontece fora daqui.” E é uma verdade. Meu filho, excelente profissional, de apenas 27 anos, me falou que quer se dedicar a outros temas, além de trabalho, neste ano. Achei justo. Mas a verdade é que a vida acontece fora do trabalho mesmo.

E não sou eu quem estou falando isso. Domenico de Masi, escritor italiano, já nos alertava sobre a necessidade do ócio criativo. A meditação está aí para que as pausas sejam realizadas, tentando dar um off na mente, o que é cada vez mais difícil. Neste mundo acelerado pela IA, fica cada vez mais raro conseguir ler um livro inteiro, com poucas interrupções. Imagine dedicar-se a um instrumento musical, a aulas de artes, dança ou qualquer outro elemento que nos faça bem à alma? Ou ainda dedicar-se à criação dos filhos pequenos?

Na idade que me encontro, mais de 50, olho para trás e vejo que, apesar de amar o meu trabalho e continuar no meu ofício de escriba e jornalista, a maior satisfação que encontro foi em educar os meninos de forma adequada, meninos bons, respeitosos, alegres, trabalhadores e inteligentes. Não haverá satisfação maior que isso para uma mãe. E isso me demandou tempo, trabalhos de meio período, frilas na madrugada e adequações. Mas foi tudo legal.

Gosto de cuidar do meu jardim - mais de 200 vasos! Ouvir música clássica e jazz e conversar de arte com o Edu Pereira. Gosto mais ainda de viajar e conhecer lugares, como Madri, em que as pessoas almoçam de verdade e dão pausa do trabalho às 19h para jantar e frequentar os bares noturnos.

Está na hora de a gente enfrentar a realidade, com mais cuidado pela saúde mental. E, para cuidar da saúde mental, é preciso relaxar, praticar esportes e dominar a mente, não ser dominado por ela. Trabalhar é legal, mas nem tanto. Faça pausas programadas, saia mais cedo para a natação, frequente uma aula de yoga, aprenda a meditar, ore. Quem cuida da nossa saúde é a gente mesmo.

E, só para variar, nunca fiz isso aqui, vou indicar um livro maravilhoso: “Oração para Desaparecer”, da brasileira e cearense Socorro Aciolli. Um descanso místico e alinhado com nossas raízes brasileiras. Lindo domingo!
     
Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ

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