OPINIÃO

O Espelho Narcísico: O Egoísmo na Era do 'Eu'


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Caro leitor, vivemos um tempo de hiperconectividade, mas, paradoxalmente, nunca estivemos tão voltados para o próprio umbigo. O egoísmo, outrora visto como um pecado capital ou uma falha grave de caráter, parece ter sido rebatizado na contemporaneidade sob termos mais palatáveis, como "autocuidado" ou "foco nos resultados". No entanto, por trás da semântica moderna, a essência permanece a mesma: a priorização cega dos próprios interesses em detrimento do bem comum.

Para compreender o egoísmo, é preciso separar o instinto de preservação da patologia social. É natural que o ser humano busque sua segurança e bem-estar; o problema surge quando essa busca se transforma em um jogo de soma zero, onde, para eu ganhar, o outro necessariamente precisa perder. O egoísta não é apenas aquele que se ama, mas aquele que é incapaz de enxergar a humanidade alheia além da utilidade que ela pode lhe oferecer.

As redes sociais potencializaram essa característica. Criamos vitrines de vidas perfeitas onde o "outro" é apenas um espectador ou um validador da nossa suposta felicidade. Nessa dinâmica, a empatia definha. Quando transformamos a existência em um monólogo, perdemos a capacidade de escuta e sem escuta, não há democracia, não há comunidade e não há amor verdadeiro. O egoísta é, acima de tudo, um solitário cercado de gente. Ele habita um castelo de espelhos onde todas as imagens refletem apenas seus desejos e frustrações.

Caro leitor, o grande perigo do egoísmo coletivo é a erosão do tecido social. Quando as decisões políticas, econômicas e ambientais são pautadas apenas pelo "o que eu ganho com isso agora?", hipotecamos o futuro das próximas gerações. A crise climática e as desigualdades abismais são os sintomas mais agudos de uma humanidade que se esqueceu de que o oxigênio que respiramos e o chão que pisamos são patrimônios compartilhados. Não existe "salve-se quem puder" em um planeta que é, no fim das contas, uma balsa limitada no espaço.

Superar o egoísmo não significa anular-se. O oposto do egoísmo não é o sacrifício cego, mas o altruísmo inteligente. É a compreensão de que o meu bem-estar é indissociável do bem-estar do grupo. Ser menos egoísta exige um esforço consciente de "descentramento" — a capacidade de sair da própria pele e tentar enxergar o mundo sob a ótica alheia.

Precisamos resgatar o valor da alteridade. Em um mundo que nos incentiva a sermos marcas individuais em busca de curtidas, o ato mais revolucionário que se pode praticar é o da generosidade desinteressada. Olhar para o lado, estender a mão e reconhecer que o "nós" é sempre mais forte, mais resiliente e mais humano do que o isolado e frágil "eu". No fim do dia, a pergunta que define o valor de uma vida não é quanto acumulamos para nós mesmos, mas quanto fomos capazes de oferecer ao mundo. Pense nisso!

Micéia Lima Izidoro, Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga 

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