Trago comigo, de 2025, uma conversa informal que me impressionou. São três irmãs de idade mais ou menos próximas numa família grande de meninas e meninos da década de 70. Conversávamos sobre a escola. Eram diversas as despesas na casa pelo número de filhos, contudo havia o essencial.
Na escola não conseguiam pagar a “caixa”. No meu tempo de professora, chamava-se APM. A “caixa” ajudava em material, onde estudavam, apenas quem contribuía com um pouco. Os pais compravam, no início do ano, o material relativo a uma das filhas e dividiam em três. Contaram-me, em meio a outros fatos, que cada uma ficava com quatro da caixa de doze lápis de cor. Às vezes, pintavam, por exemplo, uma árvore com tronco amarelo ou azul e as professoras as consideravam com problemas mentais. Para as provas, era necessário levar papel almaço. Uma delas não levou por falta de condições. Uma amiga da mesma sala lhe emprestou uma folha. A professora viu e não deixou. Ordenou que fizesse a prova na carteira. Terminada a atividade, corrigiu e depois disse à aluna que fosse buscar detergente e um pano para limpar a carteira.
Fiquei pasma. No antigo curso de magistério bem como nas faculdades ligadas à educação, havia matérias relacionadas a como tratar os alunos. Seja criança, adolescente, adulto, idoso, cada um carrega a sua história. Como pode ser professor(a) quem não se importa com a realidade do(a) aluno(a)? Como transformar em relapso ou com problemas mentais alguém que não possui condições de comprar o material escolar?
A família das meninas, que são um amor, era bem estruturada e os filhos cuidados. Imagino o que aconteceu com aqueles que passaram por professores como alguns delas...
Nossa mãe foi da última turma da Escola Normal Livre de Jundiaí. Estagiavam até no hospital de Franco da Rocha e na Casa de Detenção de São Paulo, com o propósito de conhecerem histórias diferenciadas que poderiam influir na reação de crianças e adolescentes.
Do início deste ano, trago comigo o filme “O Filho de Mil Homens”, por indicação de nosso Bispo Diocesano, Dom Arnaldo Carvalheiro Neto.
É um filme brasileiro de 2025, dirigido por Daniel Rezende, baseado no livro de Valter Hugo Mãe, que conta, de maneira poética e emocionante, a história de Crisóstomo, um pescador que cresceu isolado da sociedade e que desejava ser pai. Criou uma família com pessoas à margem da sociedade, com temas como afeto, solidão, pertencimento e construção de laços.
No site da 49ª Mostra de Filmes, há uma análise interessante sobre a obra: “Com simplicidade e ternura, Crisóstomo desconstrói nossa visão de masculinidade ao reunir personagens que sofreram e foram rejeitados pela pequena vila litorânea fictícia, em uma ode àqueles que resistem e conseguem se conectar verdadeiramente por não se prenderem às convenções sociais nem às crenças limitantes da sociedade”.
O fotograma e a trilha sonora também são incríveis.
Da Missa do último domingo, cujo Evangelho falava do Batismo de João Batista, trago comigo o que disse o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, que Jesus entrou nas águas do rio Jordão, ou seja, Ele que não tinha pecados se juntou aos pecadores. Eles viram o Céu aberto e ouviram o Espírito de Deus, porque Deus não se esconde de ninguém.
Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista