OPINIÃO

Um país que não preserva sua história


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Acabei de voltar das cidades históricas, neste mini recesso de réveillon. Estive por ali várias vezes porque meu pai, jornalista e historiador, queria que os filhos conhecessem a história in loco. Aos 15 anos, ao me deparar com Ouro Preto, caí aos prantos pela morte de nossos inconfidentes e pelo amor interrompido entre Marília e Dirceu.

Vários fatos me chocaram nesta viagem atual - o primeiro deles foi a pobreza da Região, com inúmeras comunidades tomadas pelo tráfico - péssimas estradas e um total descaso ao patrimônio histórico e cultural deste nosso país.

Foi um absurdo e chocante ao me deparar com os 12 profetas de Aleijadinho, em Congonhas, totalmente corroídos pela ação do tempo. Em um dos profetas, até a mão faltava. Os profetas ficam no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, e é um dos maiores exemplares do barroco colonial no Brasil. Toda a obra começou em 1757, idealizada pelo pedreiro Feliciano Mendes e desenvolvida ao longo de várias décadas, com participação de diversos artistas, entre eles Aleijadinho e o pintor Mestre Ataíde.  O conjunto de 12 esculturas dos Profetas foi esculpido aproximadamente entre 1800 e 1805 por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, já em idade avançada e debilitado por doença, que o deixou com grande dificuldade física.
Imaginem vocês que até hoje há milhares de visitantes ao local, de impressionante representação arquitetônica, mas, entretanto, apesar de ser tombado pelo IPHAN desde 1939, e reconhecido como patrimônio mundial pela Unesco, as estátuas estão à beira da ruína.

Em Ouro Preto, a situação não é diferente. As igrejas estão sem conservação e poucas podem receber a visitação do público. Entre as décadas que separam minha primeira visita a esta, o clima é de desolação.

Mariana é um caso à parte. Após o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, com 19 mortos e centenas de vítimas, que perderam suas casas e memória, a cidade passa por um empobrecimento a olhos vistos.  Com vívida dependência dos empregos mal remunerados da mineração, pouco espaço sobra para a preservação histórica e muito menos ainda para a construção de uma identidade mineira própria. A cidade perde, pouco a pouco, sua capacidade de conexão com o artesanato local, gastronomia e cultura. Uma pena não aproveitar sua história, suas cachoeiras lindíssimas,  para atrair mais turistas.

Minas Gerais realmente precisa de um recall. O lindíssimo museu a céu aberto de Inhotim destoa completamente da paisagem. Para chegar até lá, os 33 km de distância da capital, Belo Horizonte, levam mais de uma hora, em estradas perigosas, mal sinalizadas e com pouca segurança.

Somos um povo realmente que não conhece e dignifica sua história. Se os ideais dos inconfidentes fossem mais divulgados, não estaríamos nessa decadência como povo, economia e tradição. Não estaríamos sempre mendigando por liberdade nem à mercê da economia globalizada. 
Só se reconhece um povo pela sua cultura. O resto é balela.    

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ

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