A nossa relação com a água é equivocada. Nós não a respeitamos. Enquanto em países civilizados o rio é uma bênção, suas margens disputadas, aqui nós procuramos segregá-lo. Deixamos os fundos das casas margeando os cursos d’água. Quantas vezes, cercados de muros. Sobre os quais lançamos nossas imundícies para que o rio as recolha.
Quando tive o privilégio de conhecer o arquiteto e paisagista Kongjian Yu, criador do conceito de “Cidade Esponja”, no dia 16 de setembro, aquilatei o quão adiantada está a China. Ele conseguiu implementar mais de mil projetos em todo o seu país, mas também na Tailândia e Polinésia. Respeitar as águas. Tratá-las com respeito e consideração. Em vez de enterrar rios e córregos, de construir barragens com essa imensidão de concreto que polui e emite gases venenosos do efeito estufa, manter área drenante em torno às águas.
Foi exatamente o que se não fez em São Paulo, onde o Tietê e suas várzeas foram estrangulados por concreto e as enchentes não significam senão a tomada, pelo Tietê, daquilo que lhe pertence.
Aqui também, em lugar de se respeitar a faixa contígua ao leito dos rios Jundiaí e Guapeva, também do Córrego do rio do mato, nós sufocamos o curso natural cercando-o com imensa quantidade de concreto. Dispêndio, maus-tratos àquilo que é próprio à natureza e persistência dos problemas das inundações.
Kongjian Yu visitou São Paulo e forneceu preciosas informações de como seria importante devolver à natureza o que dela se subtraiu. Não mais essas dispendiosas obras de engenharia que só pioram aquilo que já seria ruim, por nossa própria ignorância. Em vez de piscinões, de barragens, reserva de áreas para que, em momentos de cheia, a água tivesse por onde escoar. Nos momentos de seca, lugares de entretenimento. Jardins, pequenas florestas, passeios para a caminhada a pé e para conviver com os recursos naturais, tão desprezados por uma visão ignorante do que é o ambiente.
Infelizmente, os projetos de Kongjian Yu foram brutalmente interrompidos, porque ele foi carbonizado no acidente em visita ao Pantanal, no dia 23 de setembro. Antes disso, fizera o discurso inaugural da 14ª Bienal de Arquitetura de São Paulo. E, em outubro, tive a oportunidade de visitar uma das “Cidades Esponja” na China, impressionante exemplo de bom relacionamento com a natureza, da qual fazemos parte e com a qual precisamos conviver.
Uma cidade inteira recuperou um lugar em que havia atividade industrial, da qual alguns grandes equipamentos foram preservados, mas cercados de vegetação. Aquela que sobrevive às inundações. Mas, quando não há enchentes, um lugar turístico, aprazível, belo e aconchegante.
Será que um dia teremos a coragem de fazer as alterações que as cidades estão merecendo? Reflorestar, substituir asfalto por piso drenante, permitir que a vegetação ocupe as proximidades dos cursos d’água e valorizá-los como eles merecem?
Quem terá a coragem de desenterrar os córregos que subtraímos da terra para fazer pista de veículos automotores? Nossas cidades são mais amigáveis aos automóveis do que aos humanos. E por isso pagamos um preço. O preço da poluição atmosférica, dos gases venenosos que nos matam mais cedo, da fuligem que respiramos e do ambiente hostil que, paradoxalmente, criamos para nós mesmos, a pretexto de procurarmos o “progresso”.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo