Há uma questão que precisa ser encarada com seriedade no debate sobre a implantação da Tarifa Zero no transporte público. Como ficam as cidades que possuem diferentes modais, caso apenas parte do sistema adote a gratuidade? Vale um exemplo concreto: a Cidade de São Paulo opera uma rede complexa, articulada por ônibus, trem, metrô, trólebus etc. Em muitos percursos, essas linhas se sobrepõem, oferecendo ao usuário diversas maneiras de chegar ao mesmo destino.
Se a Tarifa Zero for aplicada exclusivamente aos ônibus, o resultado previsível é uma migração significativa de passageiros que hoje utilizam o trem e o metrô. A consequência imediata seria um desequilíbrio no sistema: sobrecarga nos ônibus e subutilização das linhas sobre trilhos. Como trens e metrô dependem da receita tarifária para manter a operação, essa fuga de usuários reduziria a arrecadação, colocando em risco a sustentabilidade financeira e operacional desses modais no longo prazo.
Apesar do cenário difícil, não acredito que isso inviabilize a implantação da Tarifa Zero no transporte público da Cidade de São Paulo ou de qualquer outro município que também possua uma rede composta por diferentes modais e linhas sobrepostas. Prova disso é a implantação do Bilhete Único em São Paulo. Quando a novidade foi apresentada, com a redução tarifária para passageiros que utilizam mais de uma linha para fazer um único trajeto, não houve adesão imediata do transporte sobre trilhos ao projeto.
O metrô tem sua administração ligada ao Governo do Estado, então sob o comando do PSDB. Já a Prefeitura de São Paulo, criadora do Bilhete Único, era gerida pelo PT. Acredito que a polarização política tenha criado um impasse artificial, porque pouco depois, diante do sucesso do Bilhete Único, o metrô finalmente aderiu ao novo modelo. Agora, frente a possibilidade de avançarmos para a Tarifa Zero, o risco é ver esse filme se repetir, desta vez sob possível resistência do governo Tarcísio de Freitas.
O presidente Lula já expressou o desejo de fazer da Tarifa Zero um projeto nacional, consolidando a proposta como uma das grandes marcas do seu terceiro mandato, ao lado do Imposto de Renda Zero para pessoas que recebem até R$ 5 mil por mês e o fim da escala 6x1 para os trabalhadores. Para além de disputas partidárias, são bons projetos, que melhoram a vida das pessoas, fortalecem direitos e constroem um país mais justo. Bloqueá-las por disputas políticas seria desperdiçar oportunidades históricas.
A Tarifa Zero é a chance de mudarmos nosso olhar sobre a mobilidade urbana, de construirmos uma cidade acessível a todos, independentemente da condição financeira de cada um, de repensarmos os trajetos e as conexões entre os diferentes modais, buscando uma rede de transporte mais eficiente e com menos impacto sobre o meio ambiente. É a nossa chance de colocar as pessoas como prioridade, ao invés do lucro das empresas.
Reuni as minhas reflexões sobre os desafios da mobilidade urbana em um livro, chamado Mobilidade e qualidade de vida nas metrópoles, no qual eu falo sobre Tarifa Zero, integração de modais e autoridade metropolitana. Convido todos à leitura, porque precisamos estar preparados para o debate que se aproxima e que definirá a cidade onde viveremos nas próximas décadas.
Mário Maurici de Lima Morais é jornalista e deputado estadual