Era o terceiro dia de 2026 e as notícias que pipocaram nos feeds das redes sociais
eram sobre um ataque dos EUA contra a Venezuela. O motivo era a captura de Nicolás Maduro, presidente do país sulamericano. Olhei a primeira notícia, não liguei. Olhei a segunda e continuei não ligando. Até que não aparecia outra coisa nas redes sociais a não
ser essa notícia. Mas, mais do que a notícia em si, eu me espantei com a minha capacidade de me acostumar com o absurdo. E de absurdo em absurdo, eu e você (perdoe-me a intromissão), vamos nos acostumando e seguindo como se tudo estivesse normal.
Só nessa história dos EUA e Venezuela há tantos absurdos que, ou a gente não fazia
ideia ou a gente já se acostumou mesmo. Quer ver?
Nicolás Maduro é um ditador. Não há dúvidas em relação a isso. Herdeiro do chavismo,
o presidente venezuelano (ou ex-presidente nessa altura do campeonato), Maduro era motorista de ônibus e líder sindical, virou deputado, ministro das Relações Exteriores e, finalmente, vice-presidente em 2012, quando Chávez, com câncer, o escolheu como sucessor.
Todas as eleições que venceu foram contestadas. Em 2018, após um ano intenso de
protestos em 2017 (com mortes de 120 pessoas e prisão de milhares outras), Maduro não foi reconhecido vencedor por pelo menos 50 países. Já em 2024, após as eleições, a Justiça Eleitoral do país declarou Maduro vitorioso, mas não tornou públicas as atas eleitorais, que registram os votos e resultados em cada local de votação. Nem mesmo o Brasil reconheceu a legitimidade da reeleição.
Durante o seu período no poder, Nicolás Maduro substituiu 13 juízes do Tribunal Supremo de Justiça e anulou os poderes do Parlamento depois que os deputados da oposição conquistaram a maioria da Casa. Graças ao volume de manifestações, uma investigação contra Maduro - que se arrasta até hoje no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade - foi aberta. A ONU também investigou relatos de torturas, execuções e desaparecimentos forçados.
Sem contar que a Venezuela vive um horror econômico. O PIB do país saiu de US$
258,93, em 2013, para US$ 97,12 bi, em 2023, em queda de 62,5% em dez anos. A crise é tão grande que, de 2017 a 2022, só o Brasil recebeu cerca de 199,1 mil venezuelanos, o principal fluxo migratório para o nosso país no período.
Tudo isso sendo o país que possui a maior reserva comprovada de petróleo do planeta.
Mesmo assim, seu potencial supera em muito sua produção atual: a Venezuela produz apenas cerca de 1 milhão de barris de petróleo por dia - aproximadamente 0,8% da produção mundial de petróleo bruto -, uma vez que já chegou a produzir 3 milhões de barris diariamente.
Tudo isso é um absurdo no ponto de vista político, humanitário e econômico. Absurdos
que viraram costume. Mas tão absurdo do que isso é achar que a ação dos EUA foi normal.
Do ponto de vista político, o retorno de Trump à Casa Branca sacudiu o mundo todo,
principalmente com suas declarações e ações tarifárias. O Trump é um excelente exemplo da normalização do absurdo. É o modus operandi do presidente americano soltar uma declaração absurda, parar em todas as capas de jornais e, se o absurdo não for normalizado, recuar e tentar outra vez depois.
Desde seu primeiro mandato (2017-2021), Trump já falava sobre a Venezuela e uma
possível intervenção. Desde o ano passado, uma série de jogadas militares no Caribe já davam sinais de que uma invasão norte-americana aconteceria no país sulamericano. Um absurdo do ponto de vista geopolítico. Mas aí está, aconteceu e tudo parece normal.
O motivo oficial é o combate ao narcoterrorismo. Maduro é acusado de chefiar um
cartel de drogas na Venezuela. Mas o motivo real é que todos nós sabemos: petróleo. E sabe qual é o absurdo? Foi o próprio Trump quem falou em declaração oficial após confirmar a prisão do ditador venezuelano.
“Vamos levar para lá nossas grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos,
as maiores em qualquer lugar do mundo, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura gravemente danificada, a infraestrutura petrolífera, e começar a gerar dinheiro para o país”, disse Trump.
Quer mais absurdos? Mesmo atropelando o próprio congresso americano, Trump já
declarou que o sucesso da operação que prendeu Maduro pode motivar a Casa Branca a novas intervenções na América Latina, em países como Cuba e Colômbia. Estamos falando de imperialismo sustentado pela barbárie bélica em pleno 2026. E tem gente comemorando
isso como se fosse normal. Bom, para os EUA que já fizeram isso com o Iraque e com o Afeganistão, até parece que é normal mesmo.
O absurdo deve ser tratado como tal. Se acostumar com o absurdo é dar para os
que se beneficiam dele poder para continuar ditando as regras. E o absurdo nunca fica satisfeito.
Conhecimento é conquista.
Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação