OPINIÃO

Coisa de rico!


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Ano novo com padrões de riqueza desmesurados, com necessidades caríssimas, que mantêm o mundo lá fora, e exclusivíssimos os de dentro: os endinheirados.

Identificam-se ‘ricos’ por uma série de signos e estratégias. Quando questionados se se veem como ricos, a resposta é sempre negativa. Mas os produtos que consomem estão garantindo o que não vão dizer, sempre separados por estratégias para garantir se identificarem como parte dos 100 mil super ricos brasileiros, com fortunas acima de 50 milhões de reais.

Signos que identificam essa categoria: seguranças, até 6 ou 7 por pessoa da família, apartamento em Miami, mordomias nos apartamentos em cidades do mundo para os quais podem, a qualquer momento, se deslocar. Quem é rico tem que ter casa na Baleia, em Trancoso, em Paris, Miami, na Grama ou na Baronesa. É claro que se perdem em listas de amenidades e as tais necessidades, que variam desde escolas únicas e exclusivas para os filhos, sapatos e bolsas com nomes nem sempre tão comuns e marcas que não são visíveis, mas identificáveis pela forma e feitio. Esses são símbolos de riqueza sem mostrar riqueza. Jatos particulares em aeroportos particulares, como o de (Catarina) Ribeirão Preto; o de Jundiaí, que é um dos que recebe mais jatos de executivos, exatamente desses super ricos. Também empresas de sucesso oferecem helicópteros que saem toda sexta-feira da Faria Lima para a Baronesa, um serviço regular de mobilidade para esses super ricos - o valor é de cerca de 5 mil reais o ticket - longe de congestionamentos!

Longe de congestionamentos e das ruas! Já circula nas redes sociais aquela que será a nova mania nos próximos anos, o lançamento de um iate de 300 metros com residências super luxuosas a partir de 10 milhões de dólares os menores, com 7 restaurantes, todo tipo de amenidades, hospital, 2 helicópteros e até um submarino para lazer durante a viagem.

Por aqui o loteamento da Grama, em Itupeva, com a primeira praia artificial com ondas para surfar, um dos melhores campos de golfe do país, condomínio de 8 mil reais e terrenos a 7 milhões é lugar só para quem pode e só para aqueles que estão dentro, fechados e protegidos dos de fora, mas que não esconde a proximidade do aeroporto de Viracopos, a poucos quiloômetros dali. A sensação é de estar no interior do aeroporto. Para aqueles que estão dentro, há o inconveniente do ruído dos jatos comerciais que passam sobre as cabeças.

Michel Alcoforado, antropólogo do luxo, que fez sua tese sobre esses super milionários, descreve em seu livro “Coisa de Rico“ a vida dos endinheirados brasileiros, seus hábitos e como eles se escondem, vivem e como não trabalham (nao precisam). Divididos entre ricos tradicionais e os emergentes, descreve detalhadamente os esforços desses últimos para se tornarem ‘dentro’. Conta histórias, as dificuldades para fazer a pesquisa e os terríveis tratamentos que recebeu inicialmente para apresentar, sem nomear, a vida dos super ricos no Brasil.  Confirmando o exagero, exemplifica com valores os gastos mensais com “necessidades’ como o relato de uma esposa ao advogado em um processo de separação com pedido de 170 mil reais mensais para sua manutenção e a dos filhos. Coleções de arte contemporânea em amplos espaços, arquiteturas cada vez mais elaboradas complexas, caras, atendendo necessidades de exclusividade e com valores astronômicos para garantir a vizinhança desses super ricos, que dizem que não o são!

Eduardo Carlos Pereira é arquiteto e urbanista (de fora) com conhecimento desses produtos e artes que super ricos precisam

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