OPINIÃO

O poder do descanso


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Vivemos em uma cultura que glorifica a produtividade constante. Estamos sempre ocupados e descansar, muitas vezes, ainda é visto como fraqueza ou preguiça. Mas essa lógica está adoecendo as pessoas. Depois de um ano intenso, o corpo e a mente não pedem mais estímulos. Eles pedem pausa, segurança e silêncio. As festas de fim de ano exigem muito e nossos corpos estão cansados da correria de dezembro. O ano acaba de começar e trago uma reflexão simples sobre descansar.

Descansar não é perder tempo, pelo contrário. Descansar é aliviar a pressão. É diminuir o peso das expectativas, das cobranças externas e, principalmente, daquelas que nós mesmos colocamos sobre os nossos ombros. O descanso não é ausência de ação, é uma ação profunda de cuidado. Quando o corpo pede cama, quietude, recolhimento, ele não está falhando. Ele está tentando se recuperar de algo.

O sistema nervoso humano não foi feito para viver em estado permanente de alerta. É isso que adoece. A todo momento somos exigidos a produzir, responder, resolver, decidir. Esse modo contínuo de funcionamento ativa mecanismos de estresse que, mantidos por longos períodos, geram exaustão física, mental e emocional. O descanso surge então como uma necessidade biológica, não como um luxo.

Na quietude, o corpo se reorganiza, a pressão interna diminui, os tecidos se recuperam, a respiração se aprofunda, o ritmo cardíaco desacelera. A mente, quando permitimos a pausa, se reinicia. Muitas respostas que não aparecem na correria surgem naturalmente no silêncio. O simples ato de ficar em casa, deitado, respirando com calma, sem estímulos excessivos, já é um poderoso remédio. Só que isso não significa ficar na tela, entendam: sem estímulos excessivos!

No entanto, quem realmente se permite fazer isso? Para muitas pessoas, especialmente mulheres e mães, o descanso quase não existe. Sempre há algo para cuidar, organizar, limpar, resolver. O corpo até deita, mas a mente continua em estado de vigília. Não há pausa real. O resultado aparece como cansaço profundo, sensação de peso no corpo, irritabilidade, falta de energia e, muitas vezes, culpa por se sentir assim.

É importante dizer com clareza: isso não é fraqueza, é exaustão. É o corpo pedindo para ser respeitado. Ignorar esses sinais não nos torna mais fortes, apenas mais desconectados de nós mesmos. Normalizar a paz é uma escolha consciente em um mundo que insiste no desempenho constante.

Precisamos rever a ideia de que o descanso precisa ser merecido. Nosso valor nunca esteve ligado apenas àquilo que produzimos. Existimos antes de fazer. Descansar não diminui ninguém, ao contrário, devolve saúde, vitalidade, clareza e presença.

Talvez este seja o momento ideal para incluir o descanso na rotina com a mesma seriedade com que incluímos compromissos e tarefas. Não como prêmio, mas como uma necessidade fisiológica. O corpo agradece demais. O sistema nervoso agradece ainda mais. E a vida, aos poucos, encontra um ritmo mais humano nessa loucura de rotina moderna.

Feliz ano novo e desejo de coração: muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil

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