No início da carreira jurídica, é comum acreditar que networking depende de eventos, cartões de visita, palestras e técnicas persuasivas. Há até quem busque cursos prometendo “métodos infalíveis” de captação de clientes. Mas, para quem já circula no meio profissional, é evidente: relacionamentos reais não nascem de fórmulas prontas. O networking jurídico é menos sobre performance e mais sobre postura.
A primeira chave é simples “comece por você”. Antes de tentar ser visto, entenda como você se apresenta ao mundo. Jovens advogados muitas vezes focam em autoridade, mas esquecem de humanidade. Autoconhecimento não é autoajuda: é saber como você trata pessoas, reage a pressões, lida com frustrações e conduz conversas. Uma boa reputação começa no comportamento, não no currículo.
Em seguida, vem o fundamento mais negligenciado do networking: competência técnica. No Direito, simpatia atrai olhares, mas conhecimento mantém relações. Ter domínio do ofício, especialmente com foco em uma área específica, inspira confiança, gera credibilidade e abre portas que nenhuma estratégia de marketing conseguiria sozinha. Quem precisa de um especialista não procura o mais amistoso, mas o mais preparado.
Por isso, especializar-se é mais do que diferenciar-se: é existir com clareza no mercado. Jovens advogados generalistas se diluem. Já aqueles que estudam profundamente um ramo, acompanham jurisprudência, escrevem, pesquisam, produzem conteúdo e constroem identidade profissional tornam-se naturalmente referência. E referências são lembradas, inclusive quando oportunidades surgem.
Mas conhecimento técnico, por si só, não sustenta redes. Networking é sustentado por virtudes básicas: pontualidade, responsabilidade, ética, respeito por todos — não apenas pelos “estrategicamente interessantes”. Quem trata o estagiário com a mesma dignidade que o desembargador demonstra caráter, e o mercado jurídico reconhece isso. Relações sólidas nascem da coerência.
Outro pilar é saber ouvir. Jovens advogados querem ser notados, mas esquecem de notar os outros. Conversas não são arenas para demonstrar erudição, mas espaços para compreender necessidades, histórias e contextos. Quem ouve, aprende. Quem aprende, se conecta. E quem se conecta, cresce. Networking é menos sobre falar bem e mais sobre perceber bem.
No fim, networking não é sorte, curso, evento ou marketing. É sabedoria: estudar, especializar-se, entregar o que promete, tratar bem, ouvir com atenção e estar presente com constância. Jovens advogados que entendem isso cedo não precisam correr atrás de oportunidades — elas passam a procurá-los.
Marcelo Silva Souza é advogado e consultor jurídico, especialista em Direito Público