OPINIÃO

O autocuidar-se


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Estamos finalizando o Outubro Rosa, mês de alerta sobre a prevenção ao câncer de mama, com dados surpreendentes - já que o mal tem acometido cada vez mais mulheres jovens. Eu mesma conheci - só neste ano - duas moças de 30 e 31 anos, respectivamente, que passaram por cirurgia e tratamento, dolorosos, mas eficazes.

Como o câncer de mama impacta, sobremaneira, a autoestima feminina, talvez seja ele o mais estigmatizado. Ouvimos bobagens, como a falta de hábitos saudáveis, alimentação correta, eventual tabagismo ou até mesmo tristezas e depressões como se fossem responsáveis por esta doença. Mais uma vez, sem nenhum resquício de Ciência, culpamos as mulheres.

Ninguém tem culpa em ser diagnosticada com câncer de mama. Nossos hábitos têm pouquíssimo impacto nessa roleta-russa da doença. Não há autocontrole suficiente para que não tenhamos, juntas, causas e consequências para desenvolvermos o câncer. Não é culpa de ninguém, mas de combinações genéticas e quiçá fatores externos, como poluição e contaminações, ainda a averiguar.

O que me chama a atenção, entretanto, é que, apesar das inúmeras campanhas governamentais, mulheres deixam de fazer sua mamografia anual - que é a única garantia de um diagnóstico precoce, menos letal. Os exames, em nossa cidade, estão disponíveis e é preciso exigir também  - no sistema público - que um médico ginecologista veja as imagens e se atente às pequenas modificações.

O autoexame é importante, mas quando se dá a verificação de algo impróprio, já estará em estágio mais avançado da doença. A mamografia e o ultrassom são eficazes em detectar pequenas alterações.

Outro fator preponderante é que as mulheres - tão atarefadas em suas múltiplas funções - deixam para depois seus exames e autocuidado. Sempre colocam trabalho, filhos e marido à frente, principalmente aquelas mais pobres, periféricas e pretas. Para elas, é mais difícil perder um dia de serviço para o exame rotineiro.   E isso não pode ser assim.

Apesar de a NR-1 entrar em vigor em março, cabe às mulheres exigirem, cada vez mais, espaço para que se cuidem e façam seus exames. Falar de alimentação adequada, exercícios físicos e cuidado mental para quem tá na luta de sobrevivência é uma crueldade.

Nesta minha vida de sentinela e acompanhante, perdi muitas vezes para o câncer. As mulheres que mais amava na vida. O câncer me deu a imediata e decisiva noção de que não temos controle sobre nossa jornada terrena, mas podemos dar o melhor de nós mesmas para nos salvar.

Eu sou atenta. Cada mulher da minha vida que desconfia de algo estranho, eu já ligo para meu médico, Dr. Juan Melgar, e acho um horário na sua agenda. Ele, como espírito maravilhoso, disse a minha parente outro dia, que já apresenta dois nódulos nos seios. “Seja feliz, ria mais, agradeça a vida que tem. Se nosso acompanhamento der certo, isto não será nada. Se virar uma doença, vamos tratar.”

E o tratamento tem sido cada vez melhor e mais rápido, com menos enjoos e efeitos colaterais. Coragem é o que precisamos ter sempre. Nos apoiar mutuamente. Um dia, venceremos  o câncer de mama.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ

   
   
 

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