OPINIÃO

Escassez hídrica e matriarcado 


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Obviamente, todos nós percebemos que as chuvas se escassearam neste último ano. Cidades de nossa região tiveram de enfrentar rodízio de abastecimento de água, nossa DAE, patrimônio municipal, teve de emprestar água para municípios vizinhos, já que Jundiaí, no passado, fez seu dever de casa e cuidou da reservação.

Ano que vem vai ser pior. Influenciado por fenômenos climáticos, como El Niño, a tendência é que 2026 seja um ano mais seco ainda. E, como disse o diretor-presidente da DAE, José Roberto Del Gelmo, Jundiaí fez seu dever de casa há 30 anos, porém agora há uma nova emergência em curso e precisamos reservar mais água nos próximos anos. Como perdemos o bonde, como sempre, a solução agora será a criação de reservatórios menores em toda a cidade. Fico pensando e vou perguntar para o atual secretário de Meio Ambiente, por que já não exigimos nos novos edifícios cisternas - para reúso da água da chuva e placas solares para autossuficiência energética. Não sou catastrófica, sou realista. Semana passada estive no Sistema Cantareira - desolação total - por isso, o governo estadual está correndo contra o tempo para aumentar a reservação da região de Francisco Morato.

Já escrevi aqui que sou fã da série “Duna”, com seis volumes, dois deles já filmografados. Porém, em “Duna” não há água. Escrita em 1965, por Frank Hebert, os moradores daquele lugar têm de usar equipamentos que transformam o próprio suor em hidratação. O mundo é árido e as flores só nascem em estufas climatizadas. Quando olho para meu jardim, que sofreu neste último inverno, fico pensando se já não caminhamos para a Duna terrestre.

O que poucos sabem e isso só vai se desenrolar nos próximos filmes, é que todo o sistema planetário ao redor de Duna será comandado por mulheres. Herbert também previu o matriarcado, no comando estelar, sem antes ter passado milhares de anos na teocracia. Mesmo com sua versão mística e ardilosa das mulheres, fiquei sem saber se a presença feminina no comando vai nos salvar.

Toda vez que vejo uma floresta, percebo que o meio ambiente, pessoas e animais estão completamente conectados. E aqui vale a pena o leitor se informar sobre as comunicações entre florestas, feitas através de raízes, a rede micorrízica, um sistema semelhante a uma “internet das árvores”. As plantas dependem uma das outras para viver. Nós também, mas não tomamos consciência disso.

E, nessa rede integrada, quem falha mesmo é o ser humano, que incendeia, consome energia demais, mata, destrói, sem perceber que as consequências não virão mais para as gerações futuras, mas já estão caindo aos seus pés.

E estamos falando de um mundo comandado pelo patriarcado, onde cada vez mais as mulheres assumem o protagonismo. Donas de si, bem educadas, formadas nas melhores universidades, essas meninas darão o tom daqui pra frente. Duvido que mulheres entrem em guerras. Duvido também que elas não queiram que os filhos de todas tenham comida, alimentação, vestuário, educação. Que não se preocupem com vagas em creches, saúde feminina e maior preservação ambiental, já que dependemos do meio ambiente para viver bem.

Não somos desintegrados do Todo. Ao se redescobrir participante do Universo, o ser humano há de acordar para seu protagonismo. E virá através de uma mulher. Pelo menos, é o que Duna previa.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ

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