OPINIÃO

O transporte público vai mal 


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O Brasil enfrenta um grande desafio em relação ao transporte público, não somente para deter a queda vertiginosa de usuários, mas também para realizar a transição para energia limpa, seja eletrificando seus veículos ou buscando alternativas de combustíveis, como o gás biometano. Cidades como Jundiaí terão nos próximos dez anos uma série de desafios que exigem visão estratégica, investimentos robustos e mudanças culturais profundas.

No cenário nacional, a primeira grande dificuldade é a queda no número de passageiros. Dados recentes mostram que, entre 2013 e 2023, o transporte coletivo por ônibus perdeu mais de 40% dos usuários, resultado de fatores como a pandemia, o crescimento do trabalho remoto e a forte expansão da frota de carros e motos. Isso cria um círculo vicioso: menos passageiros significam menos receita, o que compromete a qualidade do serviço e torna o transporte público ainda menos atrativo. Em Jundiaí, também houve queda de passageiros de ônibus. 

Esse ponto se conecta a outro desafio central: o modelo de financiamento. Baseado quase exclusivamente na tarifa paga pelo usuário, o sistema tornou-se obsoleto. Gestores de mobilidade e prefeitos reconhecem que é preciso criar novas fontes de custeio, compartilhando responsabilidades entre governos, empresas e sociedade. Estima-se que o país precise de aproximadamente R$ 500 bilhões até 2054 para modernizar a infraestrutura de transporte coletivo, o que inclui dobrar a extensão das redes de metrô e quadruplicar corredores de BRT e VLT.

Outro entrave está na falta de integração e regulamentação nacional. O Brasil carece de um marco regulatório que defina padrões de qualidade, estimule a interoperabilidade entre municípios e regiões metropolitanas e garanta previsibilidade de investimentos. 

Quando o olhar se volta para Jundiaí, os desafios se manifestam em escala local, mas com semelhanças estruturais. A cidade aprovou em 2022 o Plano Municipal de Mobilidade Urbana (PMJ), que orienta ações para ampliar a eficiência do transporte coletivo, estimular o uso da bicicleta e melhorar a integração entre diferentes modais. Desde então, houve avanços importantes, como a renovação de 168 ônibus até 2024, tornando a frota mais acessível e moderna. Hoje, cerca de 100 mil passageiros utilizam diariamente as 97 linhas municipais.

Apesar disso, o município ainda convive com forte dependência do automóvel. Jundiaí tem uma das maiores taxas de motorização do Estado de São Paulo — aproximadamente 1,3 veículo por habitante —, o que se traduz em congestionamentos e perda de qualidade de vida. O transporte coletivo, para competir com essa realidade, precisa ganhar mais velocidade, confiabilidade e conforto.

Outro ponto é a infraestrutura cicloviária, que embora esteja em expansão (de 9 km em 2022 para quase 20 km em 2024), ainda está muito distante da meta de 167 km prevista na PMJ. Ampliar essas conexões será essencial para oferecer alternativas sustentáveis e seguras para deslocamentos de curta distância.  Estimular o cidadão a deixar o carro em casa e optar pelo coletivo ou pela bicicleta é um desafio que envolve comunicação, educação, planejamento urbano e qualidade constante nos serviços.

O futuro de Jundiaí também passa por projetos estruturantes, como a construção de um novo terminal urbano no Vetor Oeste, prevista para começar em 2027, com capacidade para atender até 30 mil passageiros por dia. Entretanto, às vésperas de uma nova concessão de transporte público não podemos repetir o mesmo modelo de sempre: ônibus imundos, lotados, tempo em excesso para as conexões entre terminais e motoristas mal preparados e em escassez como mão de obra. 

Se quisermos preparar nossa cidade para o futuro, não será nos moldes contratuais de hoje. Precisamos repensar a forma de financiar, planejar e expandir seus sistemas, avançando na integração modal, reduzindo a dependência do automóvel e investindo em soluções inovadoras. O desafio é grande, mas é também uma oportunidade: colocar a mobilidade no centro das políticas públicas significa construir cidades mais inclusivas, sustentáveis e eficientes para todos.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ.  

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