OPINIÃO

Nada de novo sob o sol; tudo (de) novo na tela


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Todos os dias, ao abrir as redes sociais ou ligar a televisão, somos bombardeados por imagens de crimes, tragédias e guerras. A sensação imediata é a de que o mundo nunca foi tão violento, de que a maldade humana chegou ao limite. São muitas histórias absurdas, muita impunidade, muita dor.

Mas será mesmo que vivemos em um mundo que está cada dia mais cruel, ou apenas em uma era onde há mais exposição desse mal?

A história mostra que a violência sempre esteve presente no mundo e na sociedade. No Império Romano, gladiadores se enfrentavam até a morte diante de multidões ensandecidas. Hoje, viralizam vídeos de brigas em escolas ou de torcidas em estádios. Na Idade Média, aldeias eram incendiadas e saqueadas por exércitos inteiros, deixando rastros de morte. Hoje, acompanhamos ao vivo as imagens de cidades destruídas em Gaza ou na Ucrânia. O padrão é o mesmo; a diferença é a lente que nos mostra.

Até os crimes “modernos” têm ecos antigos. Piratas digitais, que sequestram dados e invadem contas bancárias, não são diferentes dos corsários que, séculos atrás, saqueavam navios e espalhavam terror nos mares. Sequestros de empresários e motoristas hoje lembram os raptos de nobres e princesas usados como moeda de troca política. A corrupção que hoje indigna a sociedade é parente direta dos venenos servidos nos banquetes do Renascimento para garantir poder e trono.

E quanto à violência doméstica, que hoje ganha espaço em hashtags e campanhas? Ela já estava nos diários antigos, nos relatos abafados e nos silêncios forçados de gerações passadas. Apenas era escondida. O smartphone transformou em denúncia aquilo que sempre existiu.

O que a tecnologia trouxe não foi mais maldade, mas mais visibilidade. Um crime que antes se restringia ao conhecimento de um vilarejo hoje pode se tornar notícia nacional em minutos. A câmera de um celular é testemunha implacável.

A sociologia ajuda a decifrar essa sensação de “mundo em colapso”. Zygmunt Bauman descreveu a modernidade líquida como um tempo em que tudo é instantâneo e exposto, ainda que frágil. A violência, assim, não necessariamente aumentou, mas ganhou proximidade: está ao alcance da tela. Ulrich Beck, em sua teoria da sociedade de risco, mostrou como vivemos sob ameaças que são amplificadas pela mídia, dando a impressão de um planeta mais perigoso do que realmente é. Já Norbert Elias, em O Processo Civilizador, lembra que, historicamente, o ser humano se tornou mais controlado em suas práticas violentas, mas também mais sensível a cada ato de brutalidade. Em outras palavras: não vivemos em um mundo mais cruel, mas em um mundo que tolera menos a crueldade.

No fundo, a guerra continua sendo guerra, o crime continua sendo crime, a ambição continua gerando violência. O ser humano não mudou. O que mudou foi a velocidade da informação, a transparência quase total que não permite mais esconder ou silenciar.

O velho livro do Eclesiastes já advertia: “não há nada de novo sob o sol”. A diferença é que hoje esse sol brilha também nas telas frias de nossos smartphones, revelando em segundos a face da humanidade.

A mesma de sempre.
Apenas mais visível.

Samuel Vidilli é cientista social (svidilli@gmail.com)

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