OPINIÃO

Quando a infância é roubada


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Caro leitor, após os últimos acontecimentos, achei que esta coluna deveria falar a respeito deste tema tão importante para a sociedade: a adultização infantil. Bem, a infância deveria ser um período marcado por descobertas lúdicas, aprendizados graduais e pela construção segura da identidade. No entanto, em nossa sociedade, cresce um fenômeno preocupante: a adultização infantil. Trata-se de quando crianças são expostas a responsabilidades, comportamentos, pressões estéticas ou conteúdos emocionais que não correspondem à sua idade e maturidade.

A adultização pode acontecer de forma sutil ou explícita. Muitas vezes, começa com pequenas atitudes socialmente aceitas: roupas e maquiagens que imitam padrões adultos, incentivo para agir “como gente grande” e participação em conversas ou decisões próprias do universo adulto. Em outros casos, envolve responsabilidades exageradas, como cuidar de irmãos, lidar com questões financeiras ou presenciar conflitos conjugais. Há também a exposição precoce a conteúdos sexualizados, seja pela internet, seja pela mídia, que molda comportamentos e percepções distorcidas sobre si mesmas e sobre o mundo.

Querido leitor, o impacto dessa aceleração forçada é profundo. Crianças adultizadas perdem a oportunidade de vivenciar plenamente as fases do desenvolvimento, o que pode gerar consequências emocionais, cognitivas e sociais. É comum que apresentem ansiedade, baixa autoestima, dificuldade de estabelecer limites e até sintomas depressivos. Em termos de desenvolvimento cerebral, a pressão para desempenhar papéis adultos pode sobrecarregar áreas ligadas à tomada de decisão e ao controle emocional, que ainda estão em formação.

A adultização também reflete desigualdades e pressões culturais. Em alguns contextos, ela é consequência de vulnerabilidade social: famílias em situação de pobreza, por exemplo, podem depender do trabalho infantil ou do auxílio doméstico das crianças. Já em camadas mais favorecidas, a pressão por desempenho escolar, atividades extracurriculares e aparência física ideal também impõe um ritmo adulto precoce.

Para combater esse fenômeno, é necessário promover uma cultura que valorize a infância como um tempo de experimentação segura e respeito ao ritmo de cada criança. Isso passa por educação familiar, regulação de conteúdos midiáticos, investimento em políticas públicas de proteção à infância e capacitação de professores e cuidadores para identificar sinais de adultização.

Preservar a infância não é “manter a criança infantilizada” de forma negativa, mas sim garantir que ela viva cada etapa no tempo certo, acumulando experiências que formarão a base sólida para a vida adulta. O brincar, a curiosidade, a fantasia e o direito de errar são tão importantes quanto a educação formal e a disciplina.
 
A sociedade precisa compreender que pular etapas não significa amadurecer mais rápido — significa perder partes essenciais da construção de quem somos. Proteger a infância é investir em adultos mais equilibrados, seguros e empáticos. Afinal, toda criança tem o direito de ser, antes de tudo, criança. Pense nisso!

Micéia Lima Izidoro é professora (miceialimaizidoro@gmail.com)

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