Assim como as parreiras, que para produzir seus cachos de uvas são sustentadas pela terra, famílias com tradição na produção rural mantêm os pés firmes no solo, mas olhos no futuro e nas melhorias que podem ser implementadas para alavancar a cultura que ganhou escala pelas mãos dos imigrantes italianos. A uva Niagara Rosada de Jundiahy recebeu reconhecimento geográfico há dois anos, tem espaço no cultivo e amplos horizontes para aqueles que investem em modernização no manejo.
A família Lourençon está estabelecida na região do Traviú há um século, mesmo tempo em que cultivam uvas de mesa. O que antes era feito de maneira rústica, sem apoio de equipamentos e mecanização, hoje tem manejo diferenciado, otimização da área plantada, irrigação e cobertura para a proteção contra as intempéries climáticas, cada vez mais constantes.
Odair Lourencon, 64 anos, cultiva pouco mais de 17 mil pés de uvas Niagara Rosada de Jundiahy na propriedade de Jundiaí e mais 15 mil em outro sítio, em Indaiatuba. “A uva é uma cultura que está na nossa família há gerações. Ao longo do tempo, foram feitas melhorias para produzir mais. A novidade que estamos implantando é a cultura em Y, porém, reduzindo o espaçamento entre as plantas e ruas”, conta o produtor rural.
No Traviú, tradição passa de geração em geração, com novas técnicas de cultivo
A técnica está sendo usada na propriedade há dois anos, e este é o primeiro ano de produção com o sistema, que reduziu o espaçamento entre as plantas de 1,5 m para 1,2, e o espaçamento entre ruas de 3 metros para 2,5m. Outra economia que o modelo adensado traz é na estrutura necessária para a sustentação das parreiras. Enquanto o Y convencional demandava 4 fios de arame para servir de apoio aos ramos para cada um dos lados, nesse modelo, o consumo cai pela metade.
“A economia no espaçamento ou na estrutura não interferiu na produção. A planta continua a produzir o mesmo volume que no sistema anterior, cerca de sete quilos por pé”, explica. A alteração no sistema de cultivo, que está sendo implantada em toda a área de cultivo, exigirá adequação no formato de proteção antigranizo e antipássaro (cobertura), que também é uma melhoria implementada que amplia a segurança do produtor para a colheita de frutos. “Temos 90% da produção coberta. Com a reforma das demais quadras, estamos estudando como será feita a cobertura 100%. É uma proteção, que teve aporte de programa da prefeitura”, lembra.
Do outro lado da cidade, no bairro Champirra, no Sítio Santa Bárbara, a uva está nas terras da família Oliveira desde 1922. Por lá são 30 mil pés cultivados em Y que, além da cobertura, têm recebido inovação no manejo contra as pragas. “Alteramos a forma de adubar as plantas. Reduzimos a utilização de adubos nitrogenados. Essa modificação foi adotada tanto para a adubação de solo quanto foliar. Outra novidade foi a introdução de agro fármacos biológicos”, conta Adalberto José de Oliveira, 59 anos, que ainda mantém a produção livre de qualquer resto de cultura do ano anterior, para evitar a transmissão de patógenos.
A cultura também tem irrigação, que proporciona grande diferença em relação ao que era feito em anos anteriores. Por lá, a maior safra da fruta rendeu 60 toneladas de uvas Niagara Rosada de Jundiahy. Neste ano, o volume colhido foi de 49 toneladas. Apesar da redução, não há queixa, pois, a qualidade e a antecipação das vendas garantiram bom preço.
Novas gerações
Se no solo as plantas recebem novos tratamentos, nas famílias a inovação também está presente. Na família Oliveira, a cultura da uva faz parte do dia a dia do patriarca e dos filhos Jonatas, Gabriel e Mateus que seguem o caminho trilhado pelo bisavô de seu pai quando chegou à cidade, vindo de Portugal.
“As novas gerações estão com olhos atentos para o que pode ser modificado, melhorado, inovando. Usar a tecnologia, melhorar a qualidade e produzir mais com menos é fundamental. A tradição não se mantém sem a inovação ou sem a fé”, explica Oliveira.
Jonatas Oliveira, 32 anos, é um dos filhos de Adalberto que vive a vida dedicada à cultura da terra. “A uva é uma fruta que une a família. Existem muitos desafios que precisam ser superados, e, somente com o apoio e parceria são superados. Nada melhor do que isso ser feito em família”, explica.