OPINIÃO

Não sejamos como Giges, na moral

28/05/2024 | Tempo de leitura: 4 min

Se você for até o Google e digitar "o Anel de Giges", irá encontrar uma história pertencente ao livro "A República" de Platão que conta uma anedota bem interessante para entendermos a relação entre moral e fiscalização.

Para resumir (pois sugiro a leitura da história na íntegra), Giges era um cara gente boa. Sabe o boa praça? Aquele sujeito longe de qualquer suspeita que sempre anda na linha e nunca faz mal pra ninguém? Giges era assim. Um dia ele encontrou um anel e percebeu que quando ele o colocava, ninguém conseguia mais vê-lo. Giges se tornava invisível. Percebendo sua invisibilidade, Giges começou a cometer todo o tipo de atrocidade que ele viesse a desejar, deixando para trás aquele cara gente fina. Com o anel, fazia tudo que queria. Sem o anel, voltava a andar na linha.

A história nos ensina algo muito interessante: a boa conduta só é praticada a medida que sou fiscalizado. Sem fiscalização, eu só pratico a boa conduta se eu quiser. Bom, chegamos aqui ao núcleo duro do que podemos entender como "moral".

Moral é fazer o certo (e não estamos aqui discutindo o que é certo ou não) sem que forças externas te obriguem a fazer isso. O que isso quer dizer: que a ação correta é uma atitude que você escolhe tomar independente do que está fora de você. Trocando em miúdos: é fazer o certo mesmo quando não tem ninguém olhando.

Você está no supermercado e com um desejo incontrolável de comer um chocolate. O problema é que você não tem dinheiro suficiente para comprá-lo. Mas, tomado pelo desejo e fiel as suas inclinações, você decide subtrair o doce do estabelecimento. Na frente da gôndola, você avista o objeto de desejo. Olha para os lados e não vê ninguém. Olha para cima e não vê câmeras. Você está sozinho. Só você e você mesmo. Não há nada além de você que possa te impedir de roubar o chocolate. É nesse exato instante que você poderá agir com moral. Mesmo com nenhum tipo de fiscalização, você tem a chance de deliberar consigo mesmo e decidir, na moral, qual valor irá predominar: o desejo ou a honestidade.

Imagine agora se ao invés de estar sozinho na gôndola, existisse seguranças te observando, câmeras te vigiando e outros compradores por perto. Não precisa ser muito inteligente para constatar que você não roubaria o chocolate. Mas o pulo do gato vem aqui: você não roubaria o chocolate devido a uma decisão sua com você mesmo (na moral) ou por causa da fiscalização que você estava sendo submetido?

Espero que você tenha percebido o óbvio: quando mais fiscalização, menos chance eu tenho de agir com moral. Quando somos vigiados, nossas escolhas e condutas não são feitas na moral, são feitas por causa da vigilância que estamos submetidos. Quando Giges percebe que ninguém mais pode vigiá-lo, o valor do desejo se torna mais forte do que o valor da honestidade. Já enquanto ele era vigiado, o valor da honestidade era mais forte do que o valor do desejo. Isso significa que Giges jamais foi honeste, pois a sua honestidade era forçada pela vigilância alheia e só durou enquanto ele estava sob o olhar do outro.

E os exemplos poderiam seguir pela infinitude. Mas quero destacar apenas mais um. Veja: você só respeita os limites de velocidade quando há um radar. Estou certo? Não minta para você mesmo. Você sabe que eu estou certo. A placa da Rodovia Anhanguera diz 100 km/h, mas você está mais rápido, afinal, você sabe quais são os pontos de fiscalização. Ou seja, você não respeita a determinação de trânsito porque você é um exímio respeitador das leis de trânsito. Você obedece porque você está sendo fiscalizado e tem medo da represália (em forma de multa) que sofrerá se for pego. Se não houvesse radar, é possível que você não andaria abaixo dos 100 km/h permitidos.

Isso nos mostra que você não está preocupado com o que é certo a se fazer. Você está preocupado com o seu bem estar (não pilotar o carro lentamente). Para saciar o desejo de abusar da velocidade por que você não quer "perder" tempo, você invoca o Anel de Giges em forma de CNH, liga o dane-se e ponto. Como Giges, você só faz o certo quando é fiscalizado.

Mas por que agimos assim? Porque nunca fomos ensinados a agir com moral. Pelo contrário. Fomos ensinados a obedecer na base do castigo e da fiscalização: "É melhor parar se não vou contar para sua mãe!"; "Fica quieto! Ele tá olhando!"; "Não faça isso porque se ele te pegar fazendo, você tá perdido!"; e o meu favorito "Deus está vendo!".

Se o ensino de filosofia e o tema "moral" não for levado a sério nas escolas por todas as camadas (ministério, secretarias, escolas, direção, coordenação, professores e alunos), infelizmente seremos como Giges.

Conhecimento é conquista.

Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação (felipeschadt@gmail.com)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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