OPINIÃO

Sentimentos obscuros - Parte III

08/02/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Parte III

Na quarta, Regina saiu cedo pra entrevista que Paula sua cunhada havia arranjado. Mas os pensamentos de que Juliana não entendia sua vida não saiam da sua cabeça. Ela percebeu o quanto aquilo lhe incomodava e não sabia como lidar com isso. Não queria que essas coisas pudessem atrapalhar uma amizade de anos.

Ela sabia que Juliana tinha terminado um casamento complicado, descoberto várias traições de Alberto em todos esses anos. Sabia que a amiga tentou perdoar até descobrir que as promessas do marido eram todas mentiras e assim resolver por um ponto final de vez naquele martírio. Ela viveu de perto o sofrimento da amiga, mas ainda assim o sentimento de que Juliana recebia todas as coisas de mão beijada da vida era um sentimento que ficava remoendo seus pensamentos.

Enquanto voltava da entrevista, na torcida de que a vaga de assistente administrativa fosse sua viu um desses café de esquina. Bem arrumadinho, todo instagramável.

Se sentou e enquanto aguardava seu pedido sentiu uma mão tocar seu ombro, lhe chamando pelo nome.

"Regina?"

Aquela voz era conhecida, quando ela se virou era Alberto. Elegante como sempre em um terno azul marinho.

"Alberto, nossa que surpresa!" Disse ela desconcertada.

"O que faz por aqui?" Pergunta ele, já se sentando a mesa.

"Estava em uma entrevista na RLA Assessoria."

"Sério? Eu estou trabalhando lá, comecei na semana passada."

"Que coincidência!"

"Quem lhe entrevistou?"

"Foi a Carla. Uma moça loira, baixinha."

"A sim, sei quem é. Estudamos juntos. Ela quem me indicou. Se quiser posso falar bem de você pra ela." Enquanto falava, Alberto foi se aproximando e passando as mãos sobre as pernas de Regina. Naquele momento, ela se deu conta das intenções de Alberto. Afinal de contas não era uma novidade que ele era um cafajeste.

"O que você está fazendo, Alberto?"

"Olha Regina, primeiro quero te ajudar, lhe recomendando. Agora se fala das minhas mãos, não vou negar que sempre olhei pra você. Sempre te achei muito atraente, mas como era amiga da Juliana eu não podia fazer nada."

"E agora, pode né?"

"Bem, isso depende de você." Disse ele se aproximando do rosto de Regina.

O primeiro pensamento dela foi reprimir o ex-marido da amiga, mas depois os pensamentos de que aquela era a chance que ela tinha de estar ao menos um pouco próxima da vida de sua amiga e quem sabe ainda poderia conseguir o emprego que iria resolver seus problemas recentes.

Ela cede e beijou Alberto. Ele a apertou entre os braços em um beijo apressado. Foi quando a garçonete chegou.

"Senhora o seu café está aqui." Disse a atendente e saiu desconcertada com o beijo do casal.

"Acho melhor sairmos daqui, o que acha?" Disse Alberto quase que sussurrando.

"Promete que isso ficará entre nós?"

"Será o nosso segredo."

"Ok, então vamos."

O segredo dos dois virou mais um segredo na semana seguinte e outro assim que ela começou na empresa, numa sexta depois do Happy Hour. Depois disso combinaram de nunca mais se ver. Regina sofria. Se afastou de Juliana e percebeu que seu casamento já não era mais o mesmo.

Ela nunca contou para Ronaldo, pois sabia que ele sofreria demais. E com isso acumulava em seu peito uma culpa muito grande por ter se deixado cair no papo de Alberto.

Regina até conseguiu o emprego, mas sua vida nunca mais foi a mesma.

Alguns sentimentos nos matam por dentro.

Jefferson Ribeiro é autor e cronista (jeffribeiroescritor@gmail.com)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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