OPINIÃO

Para fazer espanhóis

07/02/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Livro do escritor Valter Hugo Mãe, "Máquina de fazer espanhóis" é um romance e tanto. Conta a história de Antônio Jorge da Silva, barbeiro na faixa dos 80 anos de idade, que perde a mulher. Casado com Laura, Antônio era apaixonado pela esposa, com quem viveu mais de cinquenta anos, até que a morte os separou. A história começa com a ida de Laura ao hospital e a trágica notícia de seu fim. Em seguida, Antônio é internado pela filha num asilo chique. De recém-chegado casmurro e intransigente, avesso a qualquer interação, Antônio vai aos poucos se adaptando ao novo ambiente. Cria laços. Como aquele com Américo, o enfermeiro solícito e zeloso. Conhece o senhor Pereira, o Silva da Europa (para distinguir do narrador e protagonista homônimo), o historiador Anísio e o inacreditável Esteves, citado por Fernando Pessoa em seu célebre poema "Tabacaria" ("Não sou nada/Nunca serei nada./Não posso querer ser nada(...)"). Perto de completar cem anos, Esteves é uma celebridade do lugar. Nos versos do famoso poeta, ele aparece no finzinho, é o "Esteves sem metafísica". Mas no asilo, o que se vê é um Esteves lúcido e irrequieto, questionador dos sentidos da existência. Forma-se um grupo de amigos, em alguns momentos, molecotes como qualquer turma do sexto ano do ensino fundamental: "como se o esteves fosse nosso, e nós, eu e o silva da europa, e o senhor pereira e mais o anísio dos olhos de luz, fôssemos uma família, uma outra família pela qual eu não poderia ter esperado. unida sem parecenças no sangue, apenas no destino de distribuirmos a solidão uns pelos outros. distribuída assim, a solidão de um entregue ao outro, era tanto quanto família. Era uma irmandade de coração, uma capacidade de se ser leal como nenhuma outra (...)".

Não estranhe o leitor as minúsculas no início dos períodos e nos nomes próprios. O autor escreve assim, sem utilizar maiúsculas nem pontos de exclamação ou interrogação, nem aspas ou travessão para marcar a fala dos personagens. O estilo lembra o de José Saramago, o único Nobel de literatura em língua portuguesa. Saramago era, por sinal, fã declarado do colega. A fluência da escrita de Valter Hugo exige atenção do leitor, a quem o escritor oferece muitas gotas de lirismo insuspeitado: "a partir de então não pude descer. As pernas apressaram-se a desmobilizar o sentido, como não sabendo nada do que sempre souberam, sem caminho, sem ida nem regresso, e os pulmões já não percebiam nada do ar, de como devia entrar e como devia sair (...)". Com pouco tempo restando a sua frente, Antônio Jorge volta-se para o seu passado, sua rotina na barbearia e a devoção à família (além da mulher e da filha, há um filho, com quem o protagonista não se dá, e que trabalha como professor na Grécia). Analisa sua vida sob a ditadura salazarista, período obscurantista de mais de quatro décadas a paralisar portugueses e Portugal: "nós éramos gente exclusivamente por generosidade do ditador. portei-me como tal. um mendigo de reconhecimento e paz. fui, como tantos, um porco".

O prefácio da edição brasileira é assinado por Caetano Veloso.

Fernando Bandini é professor de literatura (fpbandini@terra.com.br)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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