OPINIÃO

A casa jundiaiense

31/01/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Entrar em uma casa vazia é olhar uma tela em branco. Trata-se de uma visão única: sentir, perceber todo o espaço. Imaginar quem passou por ali ou quem vai ainda conhecer aqueles cômodos. Quantas conversas, quantos momentos, quantas decisões, alegrias, tristezas. Há uma certa cumplicidade numa casa vazia.

E, aos poucos, conhecer seus detalhes mais imperceptíveis, aqueles que passam de soslaio por conta da agitação do cotidiano.

Ao olhar para uma janela, por exemplo, me recordo de Mário Quintana:

"Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto

É como se abrisse o mesmo livro

Numa página nova..."

As portas me remetem ao "poetinha" Vinícius de Moraes:

"Eu sou feita de madeira

Madeira, matéria morta

Mas não há coisa no mundo

Mais viva do que uma porta

(...)

Eu sou muito inteligente!

Eu fecho a frente da casa

Fecho a frente do quartel

Fecho tudo nesse mundo

Só vivo aberta no céu!"

As paredes, então... testemunhas de muitas coisas. Amália Rodrigues cantava que nem às paredes confessava.

Essas e muitas outras reflexões sentimos ao ver uma casa vazia. Qualquer casa. Mas que tal imaginar essa experiência em uma casa que é sua, minha, de todo mundo ao mesmo tempo? Uma casa que está no imaginário de toda uma cidade.

Não há quem passe indiferente pela Rua do Rosário e pelo Solar do Barão. Um dos poucos resquícios da Jundiahy de ontem. Uma casa que sempre esteve ali. Quer dizer, sempre é uma força de expressão: desde 1862 com aquela fachada.

Construída em taipa de pilão (terra e pedras compactadas entre uma armação de madeira), ricamente decorada com afrescos em algumas paredes, escada de mármore na entrada. Salões, janelas enormes. Algumas ainda guardam o monograma dos Queiroz Telles. Tocheiros, assoalhos...

Sabemos que Dom Pedro II passou duas vezes por lá e foi bem rápido: deu tempo apenas para que se criasse a lenda de que ele havia dormido lá e a famosa anedota em que o então Imperador tomava um café, olhou para o céu cheio de nuvens cinzentas e disse à mucama que o servia:

- A atmosfera está carregada, não?

Ao que a pobre senhora, sem ter ideia ao que ele se referia, achou que se tratava do pé de jabuticaba cheio, "carregado", e respondeu sem pestanejar

- Isso não é nada, Majestade. O senhor precisa ver em fevereiro! Dá cada "atmosferão"...

Se non è vero, è ben trovato, como dizem os italianos.

Em 1932, foi o epicentro da tal Revolução Constitucionalista. Lá morreu a última filha do barão lá pela década de 1960, levando para o túmulo muitas histórias e a bandeira do Brasil Império que tremulou no Solar quando o soberano aqui esteve e que o agraciou com o título de barão.

Desde 1982 sedia o Museu Histórico e Cultural de nossa cidade. E daí muitas lembranças afetivas (ao menos para mim) afloraram quando, a convite do Paulo Vicentini, diretor do Departamento de Museus, pude ir visitar a nova exposição do Solar. Trata-se de ver aquele solar... vazio. E conhecê-lo de verdade. Sem nada. Saber mais sobre a história do terreno, da construção, dos moradores, das gentes. Conhecer um pouco desse lugar que, desde o ano passado, é efetivamente da cidade. É nosso.

E nada melhor do que ver nossa casa vazia, como uma tela em branco, e ir acompanhando o que vai se desenhar por lá depois. A partir de 08 de março todos poderão acompanhar o processo de montagem da exposição "Jundiaí colonial e imperial" que por fim vai ocupar todo o espaço da casa.

Vale a pena conferir e fazer parte de mais essa história de uma casa que é de todos nós.

Samuel Vidilli é cientista social (svidilli@gmail.com)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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