A telenovela é o principal produto de exportação cultural do Brasil. Títulos como A Escrava Isaura, Gabriela, Selva de Pedra, Roque Santeiro, Vale Tudo e Avenida Brasil foram vendidos para mais de 100 países, provando que, embora as narrativas sejam profundamente locais, os arquétipos e as emoções exploradas são universais. Enredo construído com começo, meio e fim, sob o ponto de vista da estrutura fechada, ela tem se mantido próxima do folhetim do século XIX do qual se originou; mas com o advento da tecnologia moderna e seu alcance massivo, vem buscando mais força nas reinvenções, seja através do realismo fantástico, da revisitação da vida rural que manteve por séculos o país em bases agrícolas, do resgate histórico com suas releituras, do naturalismo urbano que busca retratar as classes que compõem a sociedade brasileira.
Por construírem, quase sempre, histórias que geram identificação, nossos autores têm alcançado êxito singular. As tramas nacionais possuem a capacidade única de pautar a conversa pública, o que não acontece, por exemplo, com as agora incensadas novelas turcas, que angariam a atenção de milhões de telespectadores ao redor do mundo por conta do formato de séries exibidas pelas plataformas de streaming.
Temas como trabalho escravo, reforma agrária, tráfico de bebês, assédios diversos, consumo de drogas, clonagem humana, transplante de órgãos, direitos LGBTQIA+ e dezenas de outros também inquietantes têm sido levados via telas à casa de milhões de brasileiros, muitas vezes antes mesmo de se tornarem pauta no legislativo. Essa "função social" é uma característica distintiva do produto. Sem a telenovela, a cultura pop perderia sua principal ferramenta de coesão nacional; ela permanece como o grande espelho onde o Brasil se olha, se critica e, acima de tudo, se reconhece. Especialmente por isso, gosto de ver novelas quando tenho tempo. No momento, só consigo acompanhar, com alguma assiduidade, as do horário das nove. A última delas, com final exibido nesta sexta, foi Três Graças.
Escrita por Aguinaldo Silva, marcou o retorno de um dos maiores nomes da nossa teledramaturgia ao horário nobre. A trama procurou mergulhar fundo na realidade de uma comunidade, no caso a ficcional "Chacrinha", mantendo o tempero melodramático que é a assinatura do autor. A história girou em torno de três gerações de mulheres — avó, mãe e neta — interpretadas por atrizes que sustentaram com competência o arco dramático central. O título fazia alusão às figuras da mitologia grega, retomadas por vários artistas que ao longo dos séculos esculpiram ou pintaram as deusas Aglaia, Eufrosina e Tália, respectivamente modelos de Elegância, Alegria e Fartura na Antiguidade. No enredo, a ‘graça’ foi substituída pela dura necessidade de sobreviver a qualquer preço.
O conflito principal estava na repetição de um destino comum: as três mulheres engravidaram precocemente e pelo menos as duas mais velhas criaram suas filhas sozinhas, sem a presença dos pais das filhas. Esse ciclo de maternidade solo foi o motor que impulsionou a narrativa, transformando tragédias pessoais em estudo sobre resiliência feminina. Mostrou também que a força das protagonistas não nascia de um hiper heroísmo, mas de falhas e contradições, pois elas se mostravam humanas, em seus erros misturados a acertos, situação que sempre acaba gerando identificação imediata com o público. Sob esse aspecto, o autor acertou em cheio, pois no Brasil o número de mães solo chega a 11 milhões, o que corresponde a 15% dos lares, aproximadamente. É situação que desvela grande vulnerabilidade social, como mostrado na ficção de Aguinaldo Silva.
Apesar de algumas tramas mirabolantes, Três Graças foi uma novela de personagens; também um exercício de dramaturgia que celebrou a sobrevivência. A química entre as atrizes principais foi o que realmente vendeu a novela. Sem essa conexão orgânica, o roteiro poderia parecer apenas mais uma história sobre desventura familiar, pois a ideia de "maldição hereditária" ou de ciclos familiares marcados pela infelicidade não é nova na teledramaturgia.
Como é comum nas obras de Aguinaldo Silva, o núcleo cômico e os vilões periféricos buscaram garantir o fôlego da audiência. No entanto, em muitos momentos o humor beirou o caricato, contrastando de forma ruidosa com o drama pesado das protagonistas. Foi o caso da overdose de cenas de Murilo Benício e Grazi Massafera, cujos desempenhos acusaram o ponto fora da curva de suas carreiras. Conhecidos por papéis icônicos que perfilaram gerações, ambos não vestiram a contento a pele de seus personagens, o que gerou estranhamento no público e na crítica.
Murilo Benício sempre foi celebrado por seu naturalismo e pela capacidade de criar tipos distintos, como o inesquecível Tufão de Avenida Brasil ou os clones de O Clone. No entanto, em Três Graças, o ator pareceu ter caído na armadilha do automatismo. A economia de recursos que destinou para compor seu personagem, Santiago Ferette, empresário de ética duvidosa, acusou certo desinteresse pelo papel. E talvez por conta disso a falta de nuances nas cenas de maior tensão dramática fez com que o personagem aparentasse uma linearidade monótona. Onde deveria haver ambiguidade perigosa, o público enxergou apenas tédio e cansaço cênico. Essa falta de energia comprometeu o peso das vilanias da trama, deixando o espectador órfão de um antagonista que realmente impusesse respeito ou magnetismo.
Já Grazi Massafera, que atingiu o ápice de sua carreira em Verdades Secretas, parecia estar lutando contra um texto que não a favorecia. Sua Arminda exigia uma carga de dramaticidade clássica que, em suas mãos, soou artificial e exagerada, a anos luz de distância de uma Beatriz Segall ou Débora Bloch na interpretação da vilã-mor Odete Roitman, por exemplo. Existiu um descompasso visível entre a intenção da cena e a entrega emocional. Em diversos momentos, a expressividade de Grazi parecia desconectada da realidade da sequência, resultando em uma atuação artificial para a linguagem televisiva moderna. A química com seus parceiros de cena também foi um ponto fraco; a falta de fluidez nos diálogos impediu que o público criasse empatia por suas dores; momentos que deveriam ser emocionantes foram transformados em situações puramente técnicas e frias.
Enfim, a dupla Benício/Massafera não convenceu e o problema também pode ter residido na ausência de química entre eles. A direção, pelo que se noticiou, bem que tentou, mas não conseguiu ajustar o tom dos atores ao universo proposto pelo autor. Quando dois pilares do elenco não conseguem sustentar a verossimilhança de seus papéis, toda a estrutura da novela balança e pode desmoronar.
Mas Três Graças balançou e não caiu. Por algum tempo o público ainda pensará nas três mulheres centrais da trama: Lígia (Dira Paes, sempre excelente), Gerluce (Sophie Charlotte, entregando-se com garra ao papel) e Joélly ( Alana Cabral em boa estreia). Quanto aos personagens masculinos, nada de muito relevante porque os papéis não lhes ensejaram grandes performances. Esta foi mesmo uma história onde a feminilidade mostrou sua força o tempo todo e se impôs como a maior protagonista da história.
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