Dizem que Daniel Vorcaro é o "Jeffrey Epstein brasileiro". Se a comparação for real, Brasília tem motivos para não dormir. O banqueiro preso em 17 de novembro de 2025 no Aeroporto de Guarulhos não acumulou apenas bilhões em ativos podres. Acumulou o ativo mais valioso da República: o rabo preso das autoridades.
O que o TCU tentou ocultar
Quando o Banco Central, sob Gabriel Galípolo, decretou a liquidação extrajudicial do Master em 18 de novembro de 2025, a máquina de salvamento acionou simultaneamente. No Tribunal de Contas da União, Jhonatan de Jesus — ex-deputado de Roraima, indicado por Arthur Lira — assumiu a relatoria do caso. Sua função era clara: ganhar tempo. Reverter, se possível. Ao menos atrasar o colapso contábil da instituição.
Jhonatan não era um técnico aleatório. Era o representante de uma fração política específica, em um arranjo onde estados periféricos capturavam recursos federais e órgãos centralistas através de aliados como Arthur Lira no Centrão. Jhonatan foi a engrenagem colocada no TCU para fazer esse mecanismo funcionar no nível institucional mais sensível.
Quando a Polícia Federal documentou as fraudes sistêmicas — créditos fictícios gerados pela Tirreno Consultoria, alavancagem de 10x, carteiras fabricadas para transferências internas — Jhonatan convocou o Banco Central para "apresentar documentação adicional". Argumentava que a decisão de liquidação parecia "precipitada". Ordenou inspeção. O efeito prático era congelamento: quanto mais procedimentos burocráticos, mais tempo para negociação, mais tempo para que o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) pagasse indenizações aos sócios do banco antes de qualquer vexame maior.
Porém, na semana passada o presidente do TCU, Vital do Rêgo, indicou que a Corte não iria reverter a liquidação. Esperava-se que Jhonatan suspendesse a inspeção que havia ordenado. A máquina de salvamento não funcionou como planejado.
A Captura da Esplanada
Vorcaro não podia deixar tudo na mão do TCU. Precisava da blindagem jurídica no STF, da cobertura política na Câmara, da discrição no Planalto. Fez o que qualquer empreendedor corrupto faz: colocou toda a elite na folha de pagamento.
Contratou Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, para o Comitê Consultivo. Cem mil reais mensais. Seu trabalho era bater na porta de Lula e explicar por que o banco não podia quebrar — porque quebraria uma série de relacionamentos políticos que o governo Lula depende para governar. Mantega era o tradutor dessa realidade incômoda. Conforme reportou a revista Piauí, "Mantega não demorou a bater à porta do presidente Lula para pedir que ajudasse a evitar a bancarrota do banco."
Contratou Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Economia do governo Temer, para o mesmo comitê com o mesmo valor.
A peça mais ousada: contratou o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes do STF. O contrato era de R$ 129 milhões em três anos — R$ 3,6 milhões mensais de 2024 a 2027. Não era consultoria. Era hipoteca. Representação jurídica contra investigações do Banco Central, da Receita Federal, da Polícia Federal, do Congresso Nacional, do MPF. Qualquer que fosse o órgão que atacasse, Viviane Barci ocuparia a defesa. E Alexandre de Moraes conheceria os detalhes da estratégia pelo cafezinho com a esposa.
Havia também Augusto Arruda Botelho. Ex-secretário de Justiça do governo Lula, ícone da "defesa da democracia" nos jornais, agora advogado de um dos diretores do banco (Luiz Antonio Bull, director de compliance). Botelho viajava em jatos particulares com o ministro Dias Toffoli, justamente o relator de processos do Master no STF. Em 28 e 30 de novembro de 2025, ambos embarcaram no jato do empresário Luiz Osvaldo Pastore (ex-senador) para assistir a final da Copa Libertadores. Botelho declararia em redes sociais que eram "apenas torcedores" do Palmeiras. O ministro Toffoli não se manifestaria publicamente, mas teria alegado a interlocutores que é amigo de Pastore há anos. A companhia fortuita de um ministro relator com o advogado de um dos investigados em uma viagem de lazer parecia ser, para ambos, coincidência suficiente para dormir bem. Dois dias após a viagem, Toffoli decretou sigilo da ação envolvendo o Master.
Ciro Nogueira, senador pelo PP de Piauí e operador máster do Centrão, bloqueou tentativas de CPI no Congresso e patrocinou emendas que tentavam aumentar o limite do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão — inundando o sistema de dinheiro público em favor do Master. Nogueira transitava entre governos. Tanto financia Lula quanto Bolsonaro. O Master era seu. Do Centrão. Da "República" que atravessa ideologias.
O BRB e o Seguro da Impossibilidade
Quando o Banco Central recusou a pressão política e exigiu mais 2 bilhões de reais de capital até março de 2025, Vorcaro não apelou para investidores privados. Apelou para o Estado. Especificamente, para o Banco de Brasília (BRB), sob controle de Ibaneis Rocha (MDB) do Distrito Federal.
Em 28 de março de 2025, o BRB anunciou a compra de 58% do capital do Master por R$ 1,5 bilhão. O que o BRB fez foi absorver créditos fictícios vendidos pelo Master como se fossem ativos reais. A Tirreno Consultoria (empresa paulista) havia "originado" uma carteira de R$ 6,7 bilhões em créditos inexistentes. O Master comprava parte desses créditos falsos, depois os revendia ao BRB como se fossem operações legais. O BRB transferia dinheiro, e o dinheiro voltava para o Master travestido de "capital novo". Era limpeza contábil financiada com dinheiro público estadual do Distrito Federal.
Quando o BC descobriu — porque qualquer analista competente descobriria — a operação foi barrada em setembro de 2025. O BC comunicou ao TCU que havia "cessão de créditos inexistentes ao BRB, adquiridos pelo Banco Master S.A. de empresa terceira".
O ponto aqui não é a fraude em si. É que um banco privado conseguiu convencer uma instituição estatal a participar de sua "salvação" através de um esquema contábil elementar. O BRB não era inocente. Era convocado.
O Parque de Diversões da Influência
O Master não apenas comprava pessoas. Comprava eventos. Patrocinou, de forma ostensiva ou discreta, um fórum jurídico luxuoso realizado em Londres de 24 a 27 de abril de 2025, onde compareceram ministros do STF, do STJ e outras autoridades. Daniel Vorcaro custeou a palestra do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair — um dos eventos privados de maior prestígio internacional com magistrados brasileiros.
Participaram do evento em Londres:
Do STF: Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Dias Toffoli.
Do STJ: Luis Felipe Salomão, Antonio Saldanha Palheiro, Benedito Gonçalves, Mauro Campbell Marques, Raul Araújo.
Do Executivo: Ricardo Lewandowski (ex-ministro da Justiça), Jorge Messias (ministro-chefe da AGU), Paulo Gonet (procurador-geral da República).
Legislativo: Ciro Nogueira (senador).
Esses magistrados julgavam processos do Master. Decidiam sobre recursos extraordinários do banco. Ao mesmo tempo, suas viagens de luxo para fóruns internacionais tinham patrocínio da mesma instituição que queriam investigar.
Gilmar Mendes era relator de um recurso do Master sobre recolhimento de CSLL. Raul Araújo do STJ era relator de 3 ações entre 27 que o banco tinha naquela corte. Luis Felipe Salomão, vice-presidente eleito do STJ, depois votaria contra uma norma do CNJ que questionava conflito de interesses em eventos privados patrocinados por empresas com ações em tramitação na Justiça.
Ninguém viola lei explicitamente aqui. Ninguém assina contrato dizendo "em troca de voto favorável". É mais sofisticado que isso. É a criação de uma atmosfera onde a decisão "correta" é aquela que não desagrada o patrocinador. É sutil. Efetivo. Desnecessariamente criminal quando funciona tão bem como negócio.
A Conexão com o Crime
A Polícia Federal, ao investigar os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) do Master, descobriu movimentação suspeita de capital com potencial ligação ao PCC. O BC, em relatório técnico enviado ao TCU em 29 de dezembro de 2025, apontou "operações de lavagem de dinheiro" por parte da administração do Master. Os recursos foram "reciclados por meio de uma 'cadeia de fundos e sociedades interpostas' para simular formalidade, embora mantivessem 'a mesma origem e o mesmo beneficiário econômico final'".
O BC indicou que Vorcaro havia "desviado R$ 11,5 bilhões para fundos". As investigações sugerem que recursos de origem criminosa entravam no Master e saíam limpos.
Isso fecha o ciclo. O Banco Master não era apenas um esquema Ponzi com blindagem política. Era o ponto de intersecção entre o crime organizado e a elite política-jurídica. Dinheiro sujo entrava através de operações fabricadas. Saia limpo através da rede de influência que o banco havia construído — ministros em eventos, contrato com esposa de magistrado, aliados no TCU.
Para um criminoso, ter um banco que lava dinheiro e cujas operações são cobertas por ministros do STF, ex-ministros de Lula, senadores do Centrão e relatores de tribunais de contas — tudo isso é ouro. É imunidade. É o acesso que nenhuma quadrilha de tráfico consegue comprar em outro lugar.
Por Que Ninguém Investiga de Verdade
A pergunta óbvia: por que a oposição não grita sobre isso? Por que a imprensa recua nos momentos críticos? Por que influenciadores que deveriam expor esquemas financeiros passam a defender o banco com truques retóricos?
Porque a oposição está comprometida. O ex-mensaleiro Valdemar da Costa Neto não quer sua turma mexendo nesse vespeiro. Ciro Nogueira financia ambos os lados. Arthur Lira, ex-presidente da Câmara, tinha sua marca em tudo — desde a nomeação de Jhonatan de Jesus até as emendas que beneficiavam o Master.
Porque o governo Lula sabia. Mantega fazia o trabalho sujo de explicar por que era necessário "salvar" o banco. Quando o BC finalmente agiu sob Gabriel Galípolo — que não estava disposto a ser pressionado — o governo Lula conversou com a instituição sobre "soluções de mercado" que tivessem "considerado a situação dos depositantes".
Porque o Judiciário tinha contratos milionários na folha de pagamento do banco. Porque Moraes tinha a esposa embolsando milhões. Porque ministros viajavam de graça para o exterior.
Ninguém investiga de verdade porque todos têm algo a perder se a investigação for fundo. A Operação Compliance Zero da PF foi um gesto. A prisão de Vorcaro em Guarulhos — a defesa alegou que seguia para Emirados Árabes Unidos para assinar contrato de venda; a PF investigava fuga para Malta — foi uma movimentação de peças. Jhonatan de Jesus teve sua inspeção suspensa. A máquina segue funcionando.
O que Acontece Agora
Daniel Vorcaro está sob tornozeleira eletrônica. O Banco Central liquidou o Master. O Fundo Garantidor de Crédito começará a pagar indenizações aos depositantes (até o limite de R$ 250 mil por conta) que colocaram dinheiro em um banco que oferecia entre 140% e 150% do CDI e fingiria ser estável.
Mas a estrutura segue intacta. Jhonatan de Jesus continua no TCU. Ciro Nogueira continua no Senado. Lewandowski (até essa semana) continuava na Justiça. Mantega, aposentado, segue fazendo "consultoria". Viviane Barci continua recebendo pelos serviços de "representação jurídica" até 2027.
A Polícia Federal investigará lavagem de dinheiro ligada ao PCC. Provavelmente prenderá alguns nomes menores — operacionais, executores. A investigação esfriará quando chegar perto dos nomes que importam. É assim que funciona. A PGR (Procurador-Geral da República) já havia arquivado, em 28 de dezembro de 2025, investigação sobre possíveis irregularidades de Alexandre de Moraes e sua esposa no caso.
O que o Banco Master revela — e é por isso que o caso incomoda tanto — é que a República deixou de ser um arranjo de instituições públicas. Virou uma corporação onde o preço de entrada é relativamente baixo (R$ 129 milhões para Viviane Barci, cem mil mensais para Mantega) e o retorno é garantido. Porque todos os players sabem que, se alguém falar muito, o sistema inteiro desaba.
Vorcaro entendeu cedo que no Brasil não precisa de inovação ou talento. Precisa de proximidade. De festas onde os compromissos são fechados sem papel. De jatos privados onde ministros viajam com seus advogados. De contratos com as esposas de magistrados. De aliados plantados nos tribunais. De ex-ministros de ambos os lados na folha de pagamento. De dinheiro do crime passando por debaixo dos olhos do Estado...
A prisão em Guarulhos (revertida em tempo recorde) é apenas o começo de um espetáculo. Os arquivos — se existem — seguem como a verdadeira segurança do banqueiro. Enquanto você briga com parentes e faz torcida em relação a calçados de praia nas redes sociais, o dinheiro público segue sendo transferido para cofres privados com eficiência, discrição e o aval de um sistema que aprendeu a se proteger.
O Banco Master não foi um acidente. Foi um modelo de negócio. E o modelo segue funcionando.
Miguel Francisco é coordenador do Movimento Brasil Livre, estudante de Direito na UNESP de Franca e Colunista no portal GCN.
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