Depois que algo nos chama a atenção, o olhar vai reconhecê-lo em outros lugares. Foi assim que percebi como é generalizado o uso da espada-de-são-jorge pelos brasileiros. As que têm bordas amarelas são as preferidas. Mas há outras espécies. Umas são retas e finas como punhais. Outras, mais largas, lembram gravatas e têm listras sutis rajadas de verde, ton sur ton. Tudo na planta conflui para ser o que é. Não tem flores nem galhos e pede pouca coisa à natureza- um tantinho de água de vez em quando. Não solicita adubação. Fica bem ao ar livre e também dentro de casa. Sua rusticidade não elide a beleza. Acho que está nisso seu valor como planta ornamental. Mas há outro nível de interpretação.
Uma rica mitologia a envolve nas culturas africanas. Nas religiões afro-brasileiras também é conhecida por espada-de-ogum, quando tem coloração verde; espada-de-iansã, quando as bordas são amarelas. Ogum é um orixá associado à guerra e ao fogo. Em terras brasileiras, acabou facilmente associado à história dos vários santos guerreiros que integram o cristianismo. Nessa situação sincrética, foi relacionado à imagem de São Jorge. Iansã tem fortes relações com ele. Também forte e guerreira, ajuda Ogum a fabricar espadas, soprando o fogo que as forja. Dentro desse mito, a espada é folha “cún”, ou seja, excitante, quente. Está sempre presente nos rituais de “sasanha” e “abô”, um tipo de bênção de folhas imersas em água.
O professor Adão Souza Borges, em artigo sobre a relação da biodiversidade com os sujeitos que resistem na região amazônica, pinça a espada-de-são-jorge enquanto linguagem e símbolo que transitam pelo campo do sagrado. Ele explicita usos, significados e formas de conservação dessa planta pelos quilombolas de uma comunidade do Pará. O autor debruça-se sobre narrativas de moradores e descobre a dimensão que o símbolo revela nos níveis da linguagem, da imaginação poética, da compreensão da existência.
Não vou me estender aqui pelo estudo acadêmico, aliás, de excelente qualidade. Quero apenas destacar o fato de que, sendo associada à arma de um santo, a planta em destaque representou para os africanos escravizados no Brasil a continuação de sua religiosidadde. E que outra planta representaria melhor a guerra silenciosa travada pelo povo negro nas terras onde este era consumido no trabalho exaustivo? Ela sobrevivia com poucas terra e água, tinha resistência incomum, ainda era capaz de ser transformada em fibras que permitiam a elaboração de utilitários. Para um povo que nunca tinha direito a um lugar, que podia ser negociado a qualquer momento e arrancado de seus familiares (e que necessitou de várias gerações até que pudesse conseguir uma autonomia que até hoje não se concretizou de fato), a espada-de-são-jorge era uma arma botânica. Por isso a plantavam fora de casa, para que pelo menos dentro delas o mal não os alcançasse, já que era capaz de conter e aniquilar toda a ruindade que ao redor circulasse.
Por muito tempo a espada-de-são-jorge se circunscreveu às camadas pobres da população, plantada geralmente em latas de vinte litros que haviam contido banha. E como o preconceito permeia tudo, inclusive a escolha das plantas a serem cultivadas nos jardins, a espécie ficou restrita à periferia e bairros pobres. Até que no começo do século passado um botânico e artista iluminado de nome Burle Marx, paulistano que ainda jovem já exibia currículo invejável, foi tocado pelos ventos modernistas que sopravam no Brasil e ele já havia respirado na Europa, onde vivera e estudara por algum tempo. Burle Marx, que amava as plantas tropicais, e fazia incursões pelo nosso país buscando espécies desconhecidas, apaixonou-se pela “ sansevieria zeylanka” e começou a levá-la para os jardins públicos pelos quais se reponsabilizava. Saíam as rosas românticas, as camélias realistas, os lírios paranasianos. Entravam exuberantes as plantas tropicais. Entre elas, a espada-de-são- jorge em suas muitas espécies. Então, tendo mudado de status, a planta pulou rapidamente para outros jardins, onde continua até hoje.
Sobre esse relacionamento humano com as plantas, posso dizer que é misterioso.Trago aqui dois testemunhos. Ou melhor, experiências. Uma é de amiga que tinha rara trepadeira cobrindo parte da fachada de sua casa. De folhas delicadas mas densas na formação de ramos, verdinhas na primavera/verão, róseas no outono/inverno, era algo lindo de se ver. Contou-me ela que, um dia, pessoa que passava pela rua lhe pediu uma muda. E ela disse: “não!”. Nem sei por que ela negou um galho, pois tem alma generosa. Aconteceu então o impensável: no dia seguinte a trepadeira parecia menos exuberante; e nos outros foi murchando até morrer. Quanto a mim, cultivava um maravilhoso vaso de avencas, planta que traz incrível frescor para dentro de casa e impressiona pela fragilidade. Certa ocasião, recebi visita de uma senhora que ficou andando ao redor dele e repetindo: “que beleza, que beleza...” Com o passar dos dias, minha avenca foi minguando, minguando e morreu uma semana depois.
Aviso aos navegantes. Não vai aqui nenhuma superstição ou transcencência. Depois de ler o livro “A trama da vida”, do biólogo Merlin Sheldrake,doutor em ecologia tropical pela universidade de Cambridge e prêmio Wainwrigth, estou achando que o reino vegetal tem muito a nos dizer, e nós muito a aprender. Para encerrar, uma pesquisa da NASA sobre ar puro, publicada há cinco anos, mostrou que a espada-de-são-jorge tem potencial para remover do ar, durante o dia, substâncias nocivas aos humanos como o benzeno, o metanol, o xileno e o tolueno. Mais uma vez a ciência confirma a sabedoria popular, venha de qual cultura vier.
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