Há quem continue a acreditar que a Humanidade é um projeto fracassado. Se Deus fosse dado a arrependimentos, estaria repensando a conveniência de ter criado um ser tão complicado.
Prestamos atenção nas grandes tragédias e nos esquecemos das pequenas. A dimensão da desgraça é muito relativa. Nosso egoísmo sempre haverá de concluir que um arranhão no dedo mindinho é mais dolorido do que a amputação da perna alheia. Chegamos a nos emocionar quando vemos um cãozinho lutando para se salvar da enxurrada, mas nos esquecemos logo de que um grupo de trinta refugiados da Líbia se afogou no Mediterrâneo.
Somos ou vamos nos tornando insensíveis, impermeáveis, empedernidos?
Ando refletindo sobre algo que me entristece e me angustia. Estamos em tempos de sequentes desfazimentos de laços matrimoniais. A juventude é menos propensa a perdoar. A facilidade com que surgem as separações já fez com que nem surpresa mais exista. Não se pergunta se a família vai bem, porque de certo ela não vai. Soube que os fotógrafos que filmam a cerimônia do casamento e a festa já não fazem crediário. Antes de saldar todas as prestações, o par já se desfez.
Mas não consigo compreender porque é que a família toda deve se estranhar quando o casal – saiba-se lá qual foi o motivo – resolve por fim à convivência. Amizades longevas, afeições consolidadas, estima superior à da família de sangue, tudo se desfaz porque marido e mulher já não permanecem sob o jugo do matrimônio.
O que justifica deixar de frequentar uma casa à qual se ia quase que automaticamente, sentir que já não se pode cumprimentar com efusão, menos ainda o beijo fraterno habitual, porque o filho de um se separou da filha do outro? Porque o mal-estar quando as pessoas se encontram no mesmo espaço e nota-se a fuga daqueles que não querem sequer dizer um “bom dia”, uma “boa tarde”, um “como vai” a quem, até há pouco, era praticamente da família?
A humanidade é muito egoísta e muito ignorante. A vida é muito rápida. Sem perdão, sem compreensão, sem a capacidade de se colocar no lugar do outro. Nenhum pai quer que seu filho se separe. Nem consegue deixar de gostar da ex-nora ou do ex-genro, porque o laço se desfez. Fugir desse contato equivale à típica ocorrência daquilo que em direito se abomina: uma pena aplicada a quem não delinquiu.
José Renato NaliniReitor da Uniregistral, docente, conferencista e autor de Ética Ambiental
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