Desesperança?


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O título supratranscrito pode até parecer, para uns piegas, para outros blasé, para outros até midiático, mas para mim trata-se da personificação de um coadjuvante de peso, como o shakespeariano Iago de Otelo ou Lisavieta para o Rodka de Dostoiévski. A desesperança, para todos nós, flutua entre o lúdico e o tangível; ministrá-la é que decifrará tudo que virá pela frente.
 
Amanhã (03/09) completo mais um ano de vida, de muitas atuações intensas desse tal coadjuvante de peso (desesperança); entretanto, assim como em todos os bons contos, no final de cada etapa o bem sempre vence; partindo da premissa que nossa existência é um ciclo que se recicla e que não só precisamos, como devemos reinventar soluções para continuarmos na iminência da busca pelos nossos sonhos, faz-se necessário ver por outro viés as negativas que recebemos do universo e convertê-las para o bem.
 
Em se tratando de reveses, me considerado legitimado para o tema, oriundo de periféricos ‘brasis‘ como Machado de Assis; minha trajetória existencial inicia-se em um humilde casebre na querida Vila Santa Cruz, com uma criação não menos humilde, mas extremamente digna conduzida pela minha Mãe, Vó, Tia e Vovô; aprendia ali princípios basilares de retidão moral lecionado pelo meu saudoso vovô Arestides, homem de uma simplicidade e sabedoria salomônica que mesmo com as dificuldades que a vida lhe trazia detinha sempre consigo a certeza de um novo e melhor amanhã.
 
Em sendo assim, a tal desesperança flertava e sorria pra mim, mas não por isso deixei de ministrá-la, alimentando meu grande sonho de me tornar um jogador de futebol. Num belo dia surge a desesperança ardilosa como nunca antes, avisando que meu Vovô falecera com um infarto fulminante. As mudanças vieram e acompanhadas de novidades; numa nova residência, ainda sonhador, encontro em uma quadra um jovem que afirmava conhecer o Ronaldinho e que sua mãe morava em Barcelona; era o universo dando o seu empurrãozinho quântico?
 
Na crença cega de lutar pelo sonho, sem pestanejar, perguntei ao mais novo amigo se sua mãe poderia me oportunizar um teste em Barcelona e ele disse que a mesma estaria no Brasil, em Franca, no próximo final de semana. Mais que depressa me preparei e fui falar com a mãe dele e seu padrasto espanhol, que por sua vez disse ser muito difícil ir para Espanha, mas se eu quisesse fazer um vídeo jogando futebol, poderia haver uma chance e foi nela que me apeguei, através de uma câmera digital, esperançosamente, produzi meu (próprio) vídeo que, inacreditavelmente, fora um sucesso, a ponto de me propiciar uma passagem e um teste de futebol na icônica Barcelona.
 
Adolescente e corajoso fui parar em Barcelona, mas aquela tal desesperança não cansara; ao chegar à Europa me deparo com a surpresa de ter minha bagagem extraviada, pra piorar, depois de uma bateria intensa de avaliações, no último jogo de pré-temporada, coincidentemente, dia do meu aniversário, estirei um musculo da coxa direita (reto femoral); consequentemente, o clube avisara que assim que estivesse apto a jogar me daria nova oportunidade. Sem dinheiro (e escolhas) voltei ao Brasil, querendo uma nova chance na Europa, procurava alguém para me ajudar na volta à Barcelona, essa busca mudaria totalmente minhas rotas, pois esse auxilio fora personificado por um grande homem chamado Gilson de Souza.
 
Assim como o pastor de ovelhas de ‘O Alquimista‘ que buscava pelo seu sonho em todo mundo e ao voltar para seu vilarejo descobrira que tal sonho estava em ‘suas raízes‘, fui apresentado a outro caminho, pelo visionário Gilson, pessoa simples de coração enorme e grande sabedoria, que ao conhecer minha história, me convencera a ficar no Brasil e construir novos sonhos através dos estudos. Mais que depressa me identifiquei com o Direito, prestei vestibular na querida FDF, passei, me formei com muito esforço e com o mesmo esforço também fui aprovado no exame de ordem, além do meu curso de licenciatura plena em história e pós em Direito.
 
Perdi contas do quanto já percorri pra chegar até aqui, portanto seria impossível detalhar minucias de uma dramática odisseia em um só artigo, mas o intuito é deixar a fé percorrer pelas minhas palavras mantendo transparência na mente, dignidade no coração, retidão como guia e esperança como religião; corroborando que mesmo com reveses assolados pela desesperança, podemos superar obstáculos e assim como uma lagarta, depois de uma grande jornada, se transforma numa bela borboleta; podemos sim transformar nossa desesperança na bela esperança de uma vida, um mundo e um dia melhor.
 
Alexander Graham Bell asseverava que não se deve andar pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde outros já foram. Que possamos contemplar novos ciclos e ousar novos caminhos tendo a convicção que a mudança de rota pode nos levar para nossa verdadeira missão.
 
Adriel Cunha
Advogado, Secretário Municipal de Assuntos Estratégicos

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