Reverberação


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Quinze? Dezesseis? Impossível precisar. Certeza, era adolescente e, ligeiramente pior que as outras, complicada, insegura, questionadora com incipiente e doloroso complexo de inferioridade, desenvolvido e resolvido  mais tarde, por causa de conversas entreouvidas entre mamãe e amigas que, indelicadamente, comentavam e comparavam a proverbial beleza da minha irmã, à comum e nada chamativa aparência física que eu apresentava. Reconheciam que eu era “muito, muito mais inteligente, muito mais brilhante” mas, coitadinha, quase feinha. Houve o tempo de sofrer muito por causa dessas conversas em voz baixa que o ouvido adolescente é perito em ouvir, mesmo se feitas em baixos decibéis. Ainda mais sobre seu aspecto exterior. 
 
Mamãe ia sempre a São Paulo e, luxo dos luxos, numa época em que as finanças domésticas começaram a permitir,  trazia-nos presentes comprados na Sear’s ou no Mappin, lojas de departamentos de classe média alta, ambas avós dos shoppings modernos. Numa daquelas viagens, trouxe-me saia de lãzinha plissada rose nude, conjunto de blusas de tricô de lã bege clarinho, com listrinhas rose, verde, azul. Sapatos com ligeiro salto e o lançamento em lingerie, meias com calcinhas acopladas. Deixei o traje para usar em momento especial de gala, que chegou com o convite de galante rapaz para acompanhá-lo na sessão de cinema das seis, no domingo. Tomei banho, vesti-me, driblei a vigilância, saí de casa rumo à esquina onde o Romeu me esperava a pé, como era costume. Ambos muito sem graça, subimos a rua devagar, andamos quarteirão inteiro lado a lado até que, ao descer da calçada, pisar na pavimentação da rua para atravessá-la, fui enganada por simples e aparentemente rasa poça de água formada pela chuva que recém caíra. Pisei sem prospectar sua profundidade, torci o tornozelo, levei um tombo daqueles de cair de frente, sujar a roupa, sentir o sangue subir pelo rosto acima forçar a calota craniana, quase fazê-la explodir feito vulcão. Não sei como voltei para casa. 
 
Nunca mais encarei o rapaz, que talvez nunca tenha entendido o tamanho da minha vergonha e muito menos da minha reação. Nunca tive coragem ou oportunidade de tocar no assunto com ele e nem sei se ele ainda se lembra disso, o que seria provável, porque adolescentes têm memória de elefante, nunca se esquecem de nada, principalmente quando se trata de seu orgulho. Hoje entendo que tentei, com a negação, apagar o momento de dor e de humilhação da minha memória e, sobretudo, que constrangimento usa mil faces e diferentes e contraditórias configurações.  Mesmo recuperada, nunca mais usei aquela roupa. 
 
Grandes lições. Não adianta, o passado volta. Pode ficar latente e escondido durante toda a vida, mas algum dia, de forma consciente ou inconsciente,  volta. Se eu o encarar, explicará o formato da minha personalidade,  idiossincrasias explícitas e implícitas nos atos, atitudes, preferências e  rejeições que demonstrei e demonstrarei ao longo da vida pois, simples ou complicadas, coisas do passado reverberam no presente. Mas que sim, lugar do passado ... é no passado.  Melhor viver o presente. Com todas suas limitações, ainda se mostra formatável.
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora
luciahelena@comerciodafranca.com.br

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