Imagine um candidato a governador do Estado mais rico da nação que não sonha ganhar as eleições. Imagine que este mesmo candidato pretende acabar com a Polícia Militar e substitui-la por milícias eleitas pela população, além de eliminar o ensino privado, liberar todas as drogas e promover uma revolução, se preciso à força, para destituir os patrões e colocar os trabalhadores no poder.
Pois, bem, este candidato existe e veio a Franca participar da sabatina do GCN ontem. Raimundo Sena é o seu nome. Ele é filiado ao PCO (Partido da Causa Operária) e um dos nove concorrentes à cadeira hoje ocupada por Geraldo Alckmin (PSDB) no Palácio dos Bandeirantes.
Mas, não há muitos motivos para se preocupar. O voto para ele é apenas um detalhe. “Não tenho ilusão nenhuma de me eleger”, tranquilizou no começo da entrevista.
Sena mora na periferia de São Paulo, entrou para o PCO em 2011 e disputa a sua primeira eleição. Disputa é força de expressão. “Participamos da campanha com o objetivo de elevar algumas bandeiras de reivindicação e denúncias a favor da classe operária. Eleição para nós é mais uma tribuna usada para continuar nosso trabalho no sentido de organizar os trabalhadores e fazer as mudanças necessárias.”
Sena defende o aumento do salário mínimo para R$ 3,5 mil, a dissolução da PM e a construção de um novo modelo de segurança controlado pela população organizada. “Essas mudanças nunca vão acontecer por meio do voto. As mudanças vão acontecer por meio de uma revolução. A gente fala da população operária usufruir daquilo que ela produz. Isso implica em diminuir o lucro dos patrões ou até mesmo acabar com o patrão para que os trabalhadores assumam as fábricas e as coordenem.” “Como a revolução será feita?”, questionaram os jornalistas. “Isso não se dá com um ‘com licença’ ou ‘por favor’. Vai ser feito através da força, infelizmente. A menos que a classe dominante recue sem reação e permita essas mudanças sem maior resistência.”
Lembrado que os regimes comunistas não deram certo no mundo, o candidato admitiu que as mudanças como propõe não foram concretizadas em nenhum lugar.
Ele não soube explicar como a distribuição de riquezas e a estatização de empresas e serviços, que passariam a ser controlado pelos trabalhadores organizados, funcionariam na prática. “Se tudo fosse pronto, como receita de bolo, que vai pegando e aplicando, seria muito fácil.”
FINANCIAMENTO DE CAMPANHA
Raimundo Sena afirmou defender o financiamento público e de pessoas físicas para as campanhas políticas. “Só com essa mudança é que vamos mudar um pouco a realidade das campanhas. O atual momento eleitoral não é democrático, pois os espaços e oportunidades de cada candidato não são iguais. Ou quando são democráticos são raros, como é o caso dessa sabatina promovida pelo GCN.”
SAÚDE
“O governo tem que parar de repassar recursos públicos para a iniciativa privada. Temos que colocar o sistema de saúde completamente sobre o controle do Estado e colocar trabalhadores da saúde para gerenciar esse sistema. Pois os recursos da saúde tem que ser voltados somente para o bem-estar dos trabalhadores e não para financiar a iniciativa privada”, disse Sena.
SALÁRIO MÍNIMO
O plano de governo de Raimundo Sena apresenta proposta de aumento do salário mínimo para R$ 3.500. “O trabalhador tem que estar isento de imposto sobre seu salário, pois salário não é renda. Renda é aquilo que é aplicado para gerar lucros. Somos a favor de um imposto único sobre as grandes fortunas, pois somos a favor de que os grandes capitalistas paguem essa conta”, disse o candidato.
FIM DA PM
Outra proposta do candidato do PCO ao governo do Estado de São Paulo é acabar com a Polícia Militar, que seria substituída por “milícias eleitas pela população”. “Hoje é impossível combater o crime da forma como é feito. Precisamos é melhorar as condições de vida da população. Também propomos a substituição da PM por milícias com membros treinados pelo Estado e que cada bairro tenha sua própria polícia.” Ainda sobre segurança pública, Raimundo Sena disse ser a favor de uma maior liberdade na comercialização e porte de armas. “A população deveria ter direito a ter uma arma, como é feito nos Estados Unidos”, defendeu.
COTAS
“Sou a favor das cotas, pois isso é o mínimo que se deve fazer para dar chances aos trabalhadores de ingressarem nas faculdades”, disse Raimundo Sena sobre o sistema de cotas para a seleção dos universitários.
EDUCAÇÃO
Raimundo Sena disse que, caso eleito, pretende estatizar escolas e universidades particulares. “A maioria dos alunos que estudam hoje na USP, por exemplo, estudaram desde cedo em escola particular. Temos que dar oportunidade para que todos tenham acesso igual ao ensino e só vamos conseguir isso mudando o atual sistema”, afirmou o candidato que criticou as instituições particulares de ensino. “O problema das instituições privadas é que elas visam o lucro.”
PROGRESSÃO CONTINUADA
Sena disse ser contrário ao atual sistema de progressão continuada na Rede Estadual de Ensino. “O modelo de progressão continuada é usado para esconder a má qualidade do ensino em São Paulo.”
MANIFESTAÇÕES
Sobre os movimentos de rua, Sena acusou a polícia de oferecer tratamento agressivo apenas a manifestantes de classes sociais baixas. “As polícias trabalham para reprimir a população pobre, reprimir os manifestantes de classe baixa.”
DROGAS
“Nosso partido é a favor da legalização de todos os tipos de drogas, para que elas possam ser estudadas, e para que os indivíduos esclarecidos sejam livres para usar”, disse Sena, que declarou ainda ser favorável à internação compulsória de viciados. “Somos a favor do Estado tomar providências em relação ao tratamento dos dependentes, inclusive, se necessário, fazer a internação compulsória.”
INDÚSTRIA CALÇADISTA
Questionado sobre medidas para ajudar a indústria calçadista de Franca, que se encontra em crise atualmente, Sena disse ser contrário à demissão em massa. “Se a empresa está indo à falência, não é culpa do trabalhador. Propomos que os trabalhadores tomem as fábricas e assumam a administração.”
ELEIÇÕES
O candidato afirmou que as eleições são uma farsa, um jogo de cartas marcadas. Ele convocou os trabalhadores a se organizarem para assumir o governo e reforçou que não espera surpresas nas urnas. “Não estou preocupado em administrar o Estado. Não temos a ilusão de que vamos chegar ao governo no atual sistema”, finalizou Raimundo Sena.
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