Gilberto Garcia: um ourives apaixonado e dedicado ao rádio


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SEMPRE SINTONIZADO - Mesmo quando está trabalhando nas joias, Gilberto Garcia não desgruda do radinho: ‘O rádio é mais que uma paixão; é minha doença’
SEMPRE SINTONIZADO - Mesmo quando está trabalhando nas joias, Gilberto Garcia não desgruda do radinho: ‘O rádio é mais que uma paixão; é minha doença’

Era final da década de 1930. A data exata ele não se lembra muito bem. Tinha lá seus oito ou nove anos. Na casinha simples em que morava com seus pais, na mineira cidade de Uberaba, ele fazia das latas vazias de massa de tomate o microfone dos seus sonhos. Com precisão, furava lata e a prendia em um longo cabo de madeira. Fincava o pau na terra de chão batida e, de repente, estava pronta a obra-prima.

No microfone improvisado, Gilberto Garcia ensaiava suas primeiras locuções, tentando imitar as que ouvia com as orelhas grudadas na casa do vizinho, já que a de seus pais não tinha energia elétrica.

“Minha tia via aquilo e dizia que um dia eu seria locutor. Apesar de ter sempre trabalhado apenas um dia por semana no rádio, acho que ela acertou”, lembra Gilberto.

Mas em função do que o tempo foi aos poucos descortinando, ali não nascia simplesmente um locutor. Talvez fosse mais correto dizer que ali nascia uma paixão, daquelas intensas e inexplicáveis, indiferente às técnicas, ao glamour da profissão e até mesmo ao dinheiro que ela poderia lhe trazer. Uma paixão que nem o tempo conseguiu apagar.

Cerca de 60 anos depois, Gilberto Garcia já não brinca mais com latas de tomate. Hoje ele tem seu microfone, garantido por 42 anos de dedicação quase voluntária a um único programa, conhecido e ouvido por várias gerações de francanos. O seu Saudade Não Tem Idade talvez seja um dos programas mais antigos do rádio brasileiro atual. E com certeza de Franca também.

Por 42 anos seguidos, sem nenhuma interrupção, em uma única rádio, A Difusora AM, antigamente conhecida como rádio Piratininga, sempre nas noites de domingo, Gilberto Garcia vem embalando a cidade com seus sucessos dos tempos passados e os “alôs” que envia semanalmente aos seus ouvintes, todos devidamente anotados nas folhas de papel que sempre utilizou nessas mais de quatro décadas de programas, indiferente ao computador e as suas facilidades. Folhas de papel que ela ainda guarda aos montes em sua casa, para desespero de sua mulher, Maria das Graças.

Tudo começou em 1964, quando o funcionário de uma ourivesaria de Uberaba veio para Franca se arriscar no time de futebol dos calçados Terra. “Boleiro” amador, Gilberto aceitou o convite para jogar e também para trabalhar na fábrica.

Sapateiro, porém, não era sua profissão. Não que a desprezasse, mas é que não tinha jeito para aquilo, nem gosto. Poucos meses depois de iniciada sua jornada, largou o time e a fábrica e tentou novamente a sorte como ourives.

Ainda em 1964, começou a trabalhar com os irmãos Olivieri, em uma joalheria e ourivesaria que ficava na rua do Comércio. E por lá ficou até se aposentar, em 1985, quando abriu sua própria oficina, consertando e produzindo jóias e bijuterias.

Logo, porém, o futebol voltou a influenciar seus caminhos. Em 1969, começou a jogar futebol de salão e futebol de chácara para a Rádio Piratininga. Em um desses jogos, lembra Gilberto, Jovaci Correia Neves, então diretor da rádio, o chamou para tomar uma cerveja.

“O Jovaci disse que eu tinha uma voz boa. Ele me pediu para treinar um pouco de dicção que eu poderia fazer alguma coisa na rádio.”

Gilberto não pensou duas vezes. Começou a treinar até mesmo com as velhas latas de massa de tomate no quintal de sua casa.

“Ele ficava falando sozinho no quintal com uma lata de massa de tomate na boca. Eu achava estranho, mas sabia desse amor dele pelo rádio”, lembra Maria das Graças.

O sonho do microfone nunca estivera tão perto, a não ser pelo ano que havia passado em Santos, morando com um tio e trabalhando com carro de som, divulgando ofertas e produtos da antiga Casas Buri.

A ESTREIA
Em pouco tempo, Jovaci colocou Gilberto para fazer o plantão da rodada esportiva. Naquela época, como tudo era mais improvisado, Gilberto foi aprendendo os macetes da profissão na prática semanal de seu programa. Para se ter uma idéia de como eram as coisas, o atual diretor artístico da Difusora AM, Everton Lima, então com 11 anos de idade, era o auxiliar técnico de Gilberto.

“O Everton hoje é meu diretor, mas naquela época precisava subir em um caixote para poder alcançar os equipamentos”, brinca Gilberto.

Como responsável pelo plantão esportivo, ele era responsável por informar o que se passava no mundo dos esportes durante o final de semana, principalmente trazendo à população francana e da região os resultados do futebol, num tempo em que o rádio ainda era o principal meio de comunicação com o mundo.

Depois de finalizadas as transmissões esportivas, Gilberto logo começou a fazer um programa musical. Primeiramente, tinha o nome de Comando da Noite. Porém, ao encontrar um disco com o título de Saudade Não Tem Idade, teve a idéia de trocar o nome do programa. Pediu autorização ao diretor, anunciou o novo programa e começou a colocar músicas antigas na programação, o que parece ter sido bem aceito pelos ouvintes.

“De repente, percebi que a saudade é realmente um sentimento de todos, da criança, do adulto e do idoso.”

Com o tempo, o programa foi se consolidando. Ganhou audiência cativa e aos poucos foi passando de pai para filho. Junto com o programa, aquela paixão de criança foi se intensificando cada vez mais, em vez de se desgastar, como acontece com quase todas as paixões.

Mesmo hoje em dia, aos 68 anos, Gilberto não consegue ficar sem o rádio. Não consegue ficar sem ouvir rádio e sem fazer seu programa. Em seu trabalho cotidiano, ele vive sintonizado em “sua Difusora”. Quando sai, leva sempre seu radinho de pilha, que, segundo sua mulher, fica embaixo de seu travesseiro quando ele dorme.

“O Gilberto gosta tanto de rádio que é mais fácil ele se separar de mim do que largar o rádio”, diz Maria das Graças, ao lado de um sorridente Gilberto, como a confirmar a ironia da mulher. A filha ainda vai mais longe, dizendo que, se o pai ficar sem o programa um dia, com certeza lhe faltarão também as pernas... “E, talvez, lhe falhe também o coração”, diz Maria.

Quando a Difusora foi comprada pelo Comércio da Franca, Gilberto passou horas difíceis. Não sabia o que iria acontecer com seu programa. Mas, depois de uma conversa com os novos proprietários, tranqüilizou-se.

“Eu me reuni com o Júnior [Corrêa Neves Jr.) e ele me disse que o programa iria continuar, que eu iria ganhar o correspondente às horas trabalhadas, teria seguro saúde e ainda seria registrado. Melhor que isso, impossível”, lembra.

Mas a prova maior desse amor pelo rádio pode ser encontrada no desapego de Gilberto pelo princípio de troca que rege as relações de trabalho no sistema capitalista. Em boa parte desses 42 anos que passou produzindo e irradiando seu programa, recebeu apenas um salário simbólico.

Mas ele nunca se importou muito com essas coisas, exceto com o registro de radialista que ganhou quando o jornal Comércio da Franca adquiriu a rádio Difusora.

“Hoje eu posso dizer que sou radialista, o que me honra muito. Se alguém entrar no site da rádio Difusora, vai ver meu nome lá na programação.”

Na verdade, o que Gilberto sempre buscou no rádio foi uma realização pessoal. A realização de um sonho. Algo que não se explica facilmente, que talvez muitos não entendam, mas que ele sente de forma excessiva.

“O rádio, para mim, é mais que uma paixão. O rádio é minha doença”, finaliza Gilberto.

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