Uma sessão derrubada por falta de quórum pode ser circunstância. Duas acendem o sinal de alerta. Três no mesmo mês começam a parecer rotina. A Câmara de Campinas chegou nesta quarta-feira (30) ao terceiro episódio de setembro em que não conseguiu sequer reunir o número mínimo de vereadores necessário para iniciar as votações. Quando chegou a hora da Ordem do Dia, apenas 13 dos 33 parlamentares estavam no plenário. Eram necessários pelo menos 17. Resultado: nenhum projeto foi votado, toda a pauta foi adiada e a reunião terminou antecipadamente.
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É difícil separar essa sequência do calendário eleitoral. Faltam poucos dias para a eleição e a Câmara possui atualmente dez vereadores candidatos a outros cargos. E aqui está o dado mais incômodo desta quarta-feira: nenhum dos dez estava presente quando seria iniciada a votação dos projetos.
A lista merece ser registrada. Disputam uma cadeira na Assembleia Legislativa Mariana Conti (PSOL), Fernanda Souto (PSOL), Ailton da Farmácia (PSB), Gustavo Petta (PCdoB), Débora Palermo (PL), Higor Diego (Republicanos), Luiz Cirilo (Podemos) e Nelson Hossri (PSD). Já Guida Calixto (PT) e Marcelo Silva (PP) concorrem à Câmara dos Deputados. Quando a campanha começou, em agosto, eram 11 vereadores candidatos; Vini Oliveira também disputava a Alesp, mas perdeu o mandato após a cassação e foi posteriormente substituído por Tak Wu.

Reprodução/TV Câmara
Não se trata de apontar responsabilidade exclusiva desses dez parlamentares pela derrubada da sessão. Há dez vereadores candidatos e outros 23 que não são candidatos. Para uma Câmara de 33 integrantes chegar à Ordem do Dia com somente 13 presentes, obviamente houve ausências também entre aqueles que não estão pedindo votos nesta eleição. Essa distinção é necessária.
Mas também não vamos fingir que a coincidência eleitoral não existe.
O problema é que a ausência deixou de ser excepcional. Na quarta-feira anterior, dia 23, a Câmara também não conseguiu votar porque apenas 16 vereadores estavam presentes — um a menos do que o necessário. Setembro termina, portanto, com três reuniões comprometidas por falta de quórum. Quando a ausência se repete a ponto de interferir sistematicamente no funcionamento do Legislativo, deixa de ser apenas uma questão individual de agenda e passa a ser um problema institucional.
E existe um paradoxo particularmente desconfortável nisso tudo.
Os candidatos passam as últimas semanas aparecendo em vídeos, santinhos, redes sociais, programas eleitorais e reuniões pedindo ao cidadão uma oportunidade para “representar Campinas” em São Paulo ou Brasília. É absolutamente legítimo que façam isso. Um vereador pode disputar outro cargo e não existe qualquer problema em desejar ampliar sua atuação política.
Só que eles já representam Campinas.
Foram escolhidos pelo eleitor há menos de dois anos exatamente para isso. Recebem salário para exercer esse mandato, possuem gabinete, assessores, estrutura administrativa e todas as condições proporcionadas pela Câmara para desempenhar a função. Buscar um novo cargo não suspende o atual.
Talvez essa seja a parte mais difícil de explicar ao eleitor. Como convencer alguém de que você precisa de seu voto para representá-lo na Assembleia Legislativa ou na Câmara dos Deputados quando, justamente na reta final da campanha, o posto para o qual esse mesmo cidadão já o elegeu fica em segundo plano?
Campanha eleitoral dá trabalho. Especialmente uma disputa estadual. São viagens, reuniões, gravações, agendas em bairros, encontros partidários e quilômetros percorridos tentando ampliar uma votação que, para muitos vereadores, até agora esteve concentrada essencialmente em Campinas. Tudo compreensível.
Mas existe uma solução bastante simples para quem não consegue conciliar as duas coisas: priorizar o mandato que já possui.
Afinal, o cidadão comum também possui compromissos particulares importantes e nem por isso ganha autorização para transformar o trabalho em atividade facultativa.
E a consequência das cadeiras vazias não é apenas simbólica. Nesta quarta-feira, por exemplo, ficou sem votação o PLC 42/2026, enviado pelo Executivo para alterar pontos importantes da Lei de Parcelamento, Ocupação e Uso do Solo. O projeto mexe no coeficiente de aproveitamento dos imóveis e na metodologia da outorga onerosa do direito de construir, instrumento diretamente relacionado ao desenvolvimento urbano e à expansão imobiliária da cidade. Independentemente do mérito da proposta, estamos falando de uma matéria relevante que deveria ser debatida e decidida pelo Legislativo.
Não foi.
E aqui entra outra questão que torna a situação ainda mais incômoda. A Câmara de Campinas custa caro. O contribuinte financia salários de vereadores, assessorias, servidores, estrutura administrativa, comunicação, segurança, prédio, equipamentos e toda a engrenagem necessária para que o Poder Legislativo funcione. É dinheiro público destinado justamente para que vereadores discutam, fiscalizem e votem.
Ao mesmo tempo, as campanhas eleitorais também movimentam volumes expressivos de recursos públicos por meio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do Fundo Partidário. Nem todo gasto eleitoral vem dessas fontes, naturalmente, mas parcela relevante da estrutura de financiamento das eleições brasileiras sai direta ou indiretamente do bolso do contribuinte.
O cidadão não deveria financiar uma Câmara que não consegue votar porque seus integrantes estão ocupados demais tentando convencê-lo a financiá-los politicamente em outro cargo.
E isso vale independentemente do partido.
Não é um problema de esquerda, direita, governo ou oposição. A lista de candidatos da Câmara atravessa praticamente todo o espectro político: PSOL, PT, PCdoB, PSB, Republicanos, PL, Podemos, PSD e PP. A cadeira vazia não possui ideologia.
Aliás, algumas campanhas desta eleição oferecem um contraste quase involuntariamente irônico. Há candidatos apresentando propostas ambiciosas para São Paulo e Brasília, prometendo transformar políticas estaduais, fiscalizar governos, defender Campinas, buscar recursos e mudar legislações. Tudo legítimo. Mas antes de mudar o Estado ou o país, seria recomendável garantir presença suficiente para que a Câmara onde já possuem mandato consiga abrir uma votação.
Não se trata de exigir que um vereador permaneça fisicamente no plenário durante todas as horas de todas as sessões. Existem agendas externas, compromissos institucionais, problemas pessoais e inúmeras razões legítimas para uma ausência eventual. O problema é a repetição coletiva capaz de paralisar o Legislativo.
E setembro produziu exatamente isso.
Campinas já vive uma relação suficientemente desgastada entre sociedade e Câmara. Nos últimos meses, o Legislativo atravessou Comissões Processantes, cassação inédita, confrontos públicos, acusações entre vereadores e episódios que contribuíram para aumentar a desconfiança sobre a instituição. Uma Casa politicamente combalida deveria estar especialmente preocupada em demonstrar respeito pelo próprio mandato.
Derrubar três sessões em um mês por falta de gente produz justamente a mensagem contrária.
Daqui a poucos dias, os dez vereadores candidatos descobrirão nas urnas se o eleitor decidiu promovê-los para São Paulo ou Brasília. Alguns poderão conquistar novos mandatos. Outros continuarão na Câmara e terão mais dois anos pela frente no Legislativo municipal.
Essa decisão pertence exclusivamente ao eleitor. Até lá, porém, existe uma obrigação que não depende das urnas de domingo. Eles continuam vereadores de Campinas. E talvez não exista propaganda eleitoral melhor do que cumprir bem o cargo para o qual o cidadão já lhe deu um voto.
Quem pede uma promoção política não deveria tratar como opcional o emprego político que já possui.
Terminal Central virou ringue

Reprodução/Redes Sociais
Se a reta final da eleição já produziu cenas questionáveis em Campinas, o que aconteceu na manhã desta quarta-feira na entrada do Terminal Central merece lugar especial na coleção de vexames. Militantes e integrantes de equipes de campanha entraram em confronto em plena passagem dos usuários, com troca de socos, chutes, empurrões e xingamentos. As imagens rapidamente chegaram às redes sociais.
As informações colhidas pela coluna e os registros disponíveis apontam a participação de militantes ligados a grupos e partidos de esquerda. Há versões circulando sobre o que teria provocado o confronto e sobre quem iniciou as agressões, mas não foi possível esclarecer de maneira independente a origem da confusão. O que as imagens permitem constatar é suficientemente constrangedor: pessoas que deveriam estar fazendo campanha política resolveram suas diferenças na base da agressão física.
E aí aparece a maior ironia da história. Enquanto grupos que dizem defender trabalhadores trocavam pancadas, eram justamente os trabalhadores que precisavam esperar, desviar da confusão ou simplesmente tentar passar sem levar de sobra um soco ou um pontapé para conseguir entrar no Terminal Central e seguir para seus empregos.
É uma cena que dispensa grandes análises ideológicas.
Não importa qual grupo começou, quem provocou primeiro ou qual candidato aparecia no material distribuído. Campanha eleitoral não é vale-tudo, militância não é torcida organizada e divergência política não se resolve no soco. Quando integrantes de campos políticos próximos chegam ao ponto de transformar a entrada de um terminal de ônibus em ringue, alguma coisa já deu muito errado.
Segundo informações da Guarda Municipal, quando as equipes chegaram ao local, os envolvidos na confusão já haviam deixado a região. Não houve, portanto, intervenção da corporação durante o confronto.
O Terminal Central já é suficientemente complicado no horário de movimento sem precisar incorporar pancadaria eleitoral à rotina de quem depende do transporte coletivo.
Foi ridículo.
Governo comprou o que não precisava

Divulgação/CMC
Às vezes, na política, é preciso saber responder. Em outras, é preciso saber ignorar. O caso envolvendo Edison Ribeiro (União Brasil), Aderval Fernandes Júnior e o Republicanos começa a parecer um exemplo de como uma declaração praticamente esquecida pode ganhar uma sobrevida enorme quando alguém resolve reagir a ela. Uma semana depois de o vereador fazer críticas pesadas ao secretário-chefe de Gabinete e ao deputado federal Marcos Pereira, o assunto que praticamente não havia produzido repercussão pública virou representação na Corregedoria, mobilizou a bancada do partido do prefeito e criou uma crise desnecessária dentro da própria base de Dário Saadi.
Antes de qualquer coisa, é preciso separar as questões. Edison Ribeiro não é exatamente conhecido pela delicadeza de suas manifestações. Seu estilo é simples, direto e, muitas vezes, grosseiro. Os arroubos na tribuna não começaram agora. No discurso de 21 de setembro, porém, ele elevou bastante o tom: chamou Aderval de “um dos piores chefes de gabinete que Campinas já teve”, afirmou que ele “não vale nada naquela prefeitura”, questionou “quem é Marcos Pereira na fila do pão?” e utilizou outras expressões ofensivas. Marcos Pereira e Aderval entenderam que as manifestações poderiam ter ultrapassado os limites da crítica política e acionaram a Corregedoria, que agora terá de fazer essa análise. A própria representação reconhece a existência da imunidade parlamentar e não pede cassação.
A questão política é outra: valia a pena transformar aquilo numa guerra pública? Edison fez o primeiro discurso no dia 21. As palavras foram duras, mas a repercussão morreu ali. Não houve crise pública e o episódio caminhava para se tornar mais um daqueles pronunciamentos explosivos que entram para a extensa coleção do vereador na tribuna. Até que veio a representação.
Na segunda-feira (28), Edison voltou à tribuna, afirmou que não pediria desculpas, chamou o procedimento de “ditadura”, retomou os ataques a Aderval e ainda abriu uma nova frente ao acusar o secretário de estimular a atuação de outro personagem político em sua principal área eleitoral, o Campo Grande. “Você está cutucando a caixa de marimbondo”, disse. Depois completou a metáfora: “Então tem que levar ferroada”. Uma iniciativa destinada a reagir às palavras de Edison terminou oferecendo ao próprio Edison um novo palco para repeti-las e ampliá-las.
A reação produziu desconforto inclusive dentro da Câmara. Segundo apuração da coluna, vereadores receberam com estranhamento a dimensão assumida pelo episódio. Um detalhe ajuda a ilustrar o ambiente: a carta lida por Luis Yabiku e subscrita pelos cinco vereadores do Republicanos lamentava e repudiava as declarações dirigidas a Marcos Pereira e Aderval, mas não mencionava nominalmente Edison Ribeiro. Pode parecer detalhe. Em política, muitas vezes não é. A bancada cumpriu o papel de defender o presidente nacional do partido e o chefe de Gabinete, mas evitou personalizar ainda mais o confronto. A percepção nos bastidores é que havia gente suficientemente constrangida com uma briga que ninguém parecia muito interessado em comprar.
E o desconforto, segundo apuração desta coluna, não ficou restrito ao Legislativo. Parte do próprio núcleo político do Executivo também não digeriu bem a decisão de transformar o episódio em confronto público com um integrante da base governista. Isso não significa uma posição formal do governo contra a representação, muito menos rompimento interno. Significa que integrantes do entorno do Executivo questionam se a reação teve dimensão adequada ao problema.
Esse é um ponto especialmente relevante porque Aderval ocupa uma das posições políticas mais importantes da Prefeitura. Como secretário-chefe de Gabinete, sua função passa também pela interlocução e pela administração de conflitos em torno do prefeito. Quando o chefe de Gabinete entra pessoalmente numa disputa pública com um vereador da própria base, o problema inevitavelmente respinga no governo.
É aí que entra uma regra básica da política: nem toda provocação exige resposta máxima. Isso não significa tolerar qualquer ofensa. Aderval e Marcos Pereira possuem todo o direito de considerar as declarações ofensivas e utilizar os instrumentos institucionais disponíveis. Mas política também é cálculo de consequências. Antes da representação, havia um discurso agressivo de Edison. Depois dela, vieram representação formal, carta do Republicanos, mobilização da bancada, novo pronunciamento, novas acusações e uma crise exposta dentro da base.
É a rara situação em que uma tentativa de apagar um incêndio funcionou como combustível.
Edison também poderia ter utilizado o segundo discurso para explicar as críticas, separar divergência política de ataque pessoal ou simplesmente reduzir a temperatura. Preferiu dobrar a aposta: “Eu não peço desculpa para ninguém”. É seu direito sustentar politicamente o que disse e caberá à Corregedoria avaliar eventuais consequências institucionais. Mas um governo precisa raciocinar de maneira diferente de um vereador explosivo. Edison pode fazer do confronto uma característica de sua atuação. O Executivo depende de maioria, articulação e estabilidade.
E há bastante mandato pela frente. Dário Saadi permanece prefeito até o fim de 2028 e precisará da Câmara para aprovar projetos, administrar crises e conduzir a segunda metade de sua gestão. Criar conflitos evitáveis com integrantes da própria base pode produzir custos políticos que vão muito além de uma discussão na tribuna.
A Corregedoria agora fará seu trabalho e analisará se Edison ultrapassou a fronteira ética estabelecida pelas regras da Casa. A discussão política, entretanto, já permite uma constatação mais simples: antes da representação, quase ninguém estava falando sobre aquilo que Edison havia dito. Agora, o assunto virou uma crise dentro da própria base.
Às vezes, o ego exige uma resposta. A boa política exige perguntar primeiro se vale a pena dá-la.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br