POLÍTICA

Flávio Paradella: Urnas põem à prova forças políticas de Campinas

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 13 min
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Jonas, Sampaio, Tourinho, Rafa, Mariana, Vini e Higor chegam às urnas colocando em jogo mandatos, projetos políticos e espaço no tabuleiro de 2028.
Jonas, Sampaio, Tourinho, Rafa, Mariana, Vini e Higor chegam às urnas colocando em jogo mandatos, projetos políticos e espaço no tabuleiro de 2028.

Campinas chegará às urnas em 4 de outubro com muito mais em jogo do que simplesmente descobrir quantos deputados federais e estaduais ligados à cidade serão eleitos. A eleição de 2026 funcionará também como um grande teste do atual tamanho eleitoral de alguns dos personagens que dominam, disputam ou pretendem disputar a política campineira. Há veteranos tentando demonstrar que continuam eleitoralmente relevantes, candidatos que precisam transformar projeção municipal em votação estadual e outros que chegam carregando acontecimentos recentes capazes de alterar completamente a trajetória que imaginavam há poucos meses.

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Em Brasília, dois personagens ajudam a contar praticamente um quarto de século da política de Campinas. Jonas Donizette (PSB) e Carlos Sampaio (PSD) estão novamente na urna buscando a reeleição para deputado federal. Os dois atravessaram diferentes momentos políticos, trocaram aliados, enfrentaram eleições municipais, ocuparam espaços de enorme protagonismo e continuam influentes na cidade. Mas 2022 já deixou uma advertência: nome conhecido e longa trajetória não significam automaticamente as votações de outros tempos.

Jonas foi eleito naquele ano com 84.044 votos no Estado, dos quais 34.633 vieram de Campinas. Carlos Sampaio recebeu 98.102 votos e também conquistou uma cadeira. Os números precisam ser interpretados dentro do sistema proporcional — no qual não basta comparar votos individualmente para determinar quem se elege —, mas ajudam a mostrar como a disputa por uma vaga em São Paulo permanece difícil mesmo para políticos com décadas de exposição.

Quatro anos depois, os dois chegam por caminhos bastante diferentes.

Jonas continua sendo um dos principais articuladores da política campineira. Ex-prefeito por dois mandatos e deputado federal, atravessou os últimos quatro anos integrado a um PSB que participa da base do governo Lula. Seu pragmatismo político, uma característica presente em praticamente toda sua trajetória, permitiu que mantivesse interlocução com diferentes campos. A campanha deste ano também evidencia sua capacidade de articulação local: no lançamento da candidatura, recebeu apoio público do prefeito Dário Saadi e reuniu vereadores de diferentes partidos.

Carlos Sampaio percorreu outra estrada. Permaneceu identificado com a oposição a Lula e ao PT, mas chega desta vez com uma mudança histórica estampada na urna. Depois de construir toda sua trajetória nacional pelo PSDB, concorre agora pelo PSD. A Câmara registra Sampaio como deputado desde 2003, e a eleição de 2026 pode levá-lo a um sétimo mandato consecutivo.

Para Jonas e Sampaio, portanto, a eleição mede mais do que permanência em Brasília. Ela oferece um retrato atualizado do peso eleitoral de grupos que influenciam Campinas desde o começo deste século. E esse retrato inevitavelmente será observado com atenção quando começarem a ser movimentadas, de maneira mais aberta, as peças da sucessão municipal de 2028.

Só que existe um terceiro personagem tentando entrar definitivamente nesse clube de protagonistas.

Pedro Tourinho (PT) chega talvez ao teste mais importante de sua trajetória eleitoral até aqui. Em 2022, recebeu expressivos 74.729 votos para deputado federal, sendo 48.786 somente em Campinas, mas ficou como suplente em razão das regras do sistema proporcional. Em 2024, chegou temporariamente à Câmara dos Deputados na vaga de Rui Falcão e utilizou aquele período também como vitrine para a eleição municipal. Disputou a Prefeitura e terminou em segundo lugar, com 123.500 votos, ou 23,18% dos válidos.

Agora vem uma nova tentativa de transformar esse patrimônio eleitoral em mandato efetivo em Brasília. Uma eleição reforçaria objetivamente sua presença institucional para os próximos quatro anos; uma nova suplência manteria aberta a discussão sobre a capacidade de converter sua votação municipal e regional em cadeira própria no Congresso. É por isso que 2026 tem importância particular para Tourinho. Depois de bater na trave em 2022 e disputar a Prefeitura dois anos depois, chega a uma eleição que oferecerá uma medida bastante concreta de sua capacidade de expansão política para além da votação já consolidada em Campinas.

Se Brasília apresenta três testes importantes, a disputa pela Assembleia Legislativa oferece um tabuleiro ainda mais movimentado.

Comecemos por Rafa Zimbaldi (União Brasil). Ele já conhece a Alesp e busca permanecer nela, mas chega à eleição depois de um resultado municipal que alterou sua posição no cenário campineiro. Na eleição para prefeito de 2024, Rafa recebeu 42.557 votos, ou 7,99% dos válidos, ficando em terceiro lugar, muito distante dos 123.500 de Pedro Tourinho e dos 355.800 de Dário Saadi. Agora concorre pelo União Brasil, depois de ter sido eleito deputado estadual pelo PSB em 2018 e pelo Cidadania em 2022.

A sucessão de mudanças partidárias e, principalmente, o desempenho de 2024 fazem desta eleição uma nova aferição de sua base eleitoral. Rafa terá nas urnas uma medida atualizada da dimensão de seu espaço político, depois de uma disputa municipal na qual sua votação ficou muito abaixo daquela alcançada pelos dois principais concorrentes.

E então chegamos ao trio que produziu uma das fotografias mais interessantes da eleição municipal de 2024.

Mariana Conti (PSOL), Vini Oliveira (Cidadania) e Higor Diego (Republicanos) foram, nesta ordem, os três vereadores mais votados de Campinas. Mariana recebeu 14.356 votos; Vini, 11.423; e Higor, 11.391 — apenas 32 votos separaram segundo e terceiro lugares. Menos de dois anos depois, os três colocam essa força municipal diante de uma urna muito maior: a eleição para deputado estadual.

Mariana tenta novamente chegar à Assembleia, mas desta vez desenvolveu uma estratégia bastante visível de regionalização de sua candidatura. A parceria eleitoral com a deputada federal Sâmia Bomfim levou as duas a agendas fora de Campinas, numa tentativa de ampliar territorialmente uma candidatura que já demonstrou grande força dentro da cidade. É um movimento lógico diante do desafio que sempre acompanha um vereador que tenta subir de esfera: votação municipal forte é ponto de partida, mas eleição estadual exige território muito maior.

Mariana ganhou ainda projeção muito além das fronteiras campineiras com sua participação na Global Sumud Flotilla, missão relacionada à Faixa de Gaza, episódio que ampliou consideravelmente sua exposição pública e que depois continuou presente em atividades políticas. A eleição permitirá medir até que ponto essa visibilidade, somada à articulação regional e à força construída em Campinas, conseguiu ampliar territorialmente sua candidatura.

Vini Oliveira chega à mesma eleição em circunstâncias que ninguém poderia imaginar quando ele saiu das urnas de 2024 com 11.423 votos. Naquele momento, era o jovem estreante que havia conquistado a segunda maior votação para vereador da cidade. Agora disputa uma cadeira na Assembleia depois de se tornar o primeiro vereador efetivamente cassado pelo plenário da Câmara de Campinas.

A cassação acrescentou inclusive uma variável jurídica à eleição. O diretório municipal do Republicanos levou ao TRE-SP um pedido para que a perda do mandato por quebra de decoro produzisse efeitos sobre sua candidatura. A Justiça Eleitoral rejeitou aquele requerimento porque entendeu que o instrumento utilizado não permitia cancelar um registro já deferido daquela maneira. Isso não equivale a uma decisão definitiva de mérito afirmando que a cassação jamais poderá produzir consequência eleitoral. A discussão jurídica poderá reaparecer por outras vias, especialmente se houver resultado eleitoral que torne a questão concreta.

Antes mesmo dessa questão, porém, existe a urna.

Será a primeira oportunidade de medir o impacto eleitoral da cassação sobre Vini. A Comissão Processante, as imagens relacionadas à Smile, os meses de confrontos, o julgamento e os 23 votos que encerraram seu mandato. A eleição estadual mostrará se o efeito. Qualquer conclusão antecipada seria apenas especulação.

O terceiro integrante daquele trio, Higor Diego (Republicanos), chega à disputa por um caminho bastante diferente. Reeleito com 11.391 votos, apenas 32 a menos que Vini, tem uma base eleitoral particularmente forte no distrito do Campo Grande. Mas talvez o aspecto politicamente mais relevante de sua candidatura esteja além do próprio eleitorado: Higor conseguiu reunir em torno de seu nome uma parcela expressiva da base que sustenta o governo Dário Saadi.

O vereador pertence ao Republicanos, partido do prefeito, mas sua articulação não ficou restrita à legenda. Nos bastidores, sua candidatura à Assembleia recebeu adesões de nomes ligados também a outros partidos da base, especialmente PSB e União Brasil, formando uma rede de apoios que lhe permite entrar na campanha respaldado por um grupo político amplo dentro da Câmara e do entorno do Paço. É uma construção importante porque eleição para deputado estadual exige justamente aquilo que uma disputa para vereador não exige na mesma proporção: capilaridade, estrutura e lideranças dispostas a trabalhar pelo candidato fora de seu território eleitoral original.

Há ainda uma conexão particularmente interessante nessa montagem. Higor vinha construindo uma relação próxima com Carlos Sampaio, um dos nomes mais tradicionais da política campineira e candidato novamente a deputado federal. Os dois já apareceram juntos em articulações relacionadas à obtenção de recursos para instituições da cidade. Assim, Higor não chega à disputa apenas como o terceiro vereador mais votado de Campinas em 2024. Chega amparado por uma articulação que reúne setores importantes do grupo político predominante hoje na cidade.

Isso não determina resultado eleitoral — especialmente numa eleição proporcional estadual —, mas ajuda a compreender a estrutura política que sustenta sua candidatura. O desempenho de Higor funcionará também como uma medida da capacidade de mobilização eleitoral dessa parcela da base governista campineira. Dário não estará na urna, mas vereadores e lideranças que orbitam seu governo estarão trabalhando por uma candidatura que pretende levar à Assembleia um representante politicamente próximo da atual administração municipal.

Existe, entretanto, um ruído recente nessa trajetória. Higor também apareceu nas gravações relacionadas à Smile Transportes, conversando por telefone com o mesmo empresário ligado ao episódio que posteriormente resultou na cassação de Vini Oliveira. O caso produziu um pedido de Comissão Processante contra Higor, mas a Câmara não autorizou a abertura do procedimento. São situações institucionais diferentes e não cabe transportar automaticamente para Higor as conclusões do processo que cassou Vini. Eleitoralmente, porém, permanece uma questão objetiva a ser observada depois da apuração: se aquela exposição produziu algum baque perceptível sobre sua votação.

Esse conjunto deixa sua candidatura particularmente interessante. De um lado, Higor chega com uma das estruturas políticas municipais mais articuladas entre os candidatos campineiros à Alesp; de outro, enfrenta pela primeira vez o desafio de transformar uma força construída essencialmente dentro de Campinas numa votação de dimensão estadual, carregando ainda a exposição provocada pelo caso Smile.

É por isso que a eleição de 4 de outubro merece ser observada em Campinas muito além da simples lista de eleitos e não eleitos.

Jonas e Sampaio testam a permanência eleitoral de duas das trajetórias mais longevas da política campineira. Tourinho tenta transformar novamente uma votação expressiva em mandato próprio em Brasília. Rafa terá uma nova medida de sua força depois do resultado municipal de 2024. Mariana tenta demonstrar que conseguiu regionalizar uma liderança já consolidada dentro de Campinas. Vini enfrenta a primeira urna depois da cassação. E Higor tenta converter a terceira maior votação para vereador de 2024, uma base forte no Campo Grande e o apoio de parcela expressiva do grupo governista em uma candidatura competitiva à Assembleia Legislativa.

Nenhum desses resultados, isoladamente, definirá 2028. Política muda rapidamente demais para esse tipo de determinismo. Mas todos eles entregarão informações preciosas sobre 2028.

A quantidade de votos em Campinas, a capacidade de buscar eleitorado fora da cidade, o desempenho dos partidos e federações e a eleição ou não de cada candidatura ajudarão a mostrar como estará distribuída a força institucional dos diferentes grupos para a segunda metade do mandato de Dário Saadi e para as articulações que antecederão a próxima eleição municipal.

Em eleição proporcional, naturalmente, há uma ressalva indispensável: não basta olhar para a votação nominal. O desempenho de partidos e federações, os quocientes e a distribuição das cadeiras também determinam quem entra. Pedro Tourinho é provavelmente o melhor exemplo disso: em 2022 teve 74.729 votos e ficou suplente enquanto candidatos de outras legendas foram eleitos com votações nominais menores.

Por isso, a noite de 4 de outubro terá duas apurações para Campinas. Uma será oficial e dirá quem conquistou cadeira na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa.

A outra começará imediatamente depois, nos bastidores. Será a contagem de como as urnas redesenharam o espaço ocupado por cada uma dessas forças no tabuleiro político de Campinas que já começa a olhar para 2028.

Sindicância arquivada


Reprodução

A Emdec arquivou a sindicância aberta para investigar a visita do então diretor Administrativo e Financeiro Ricardo Ferraro Geciauskas à sede da Smile Transportes, empresa ligada ao consórcio que venceu um dos lotes da licitação bilionária do transporte coletivo de Campinas. A comissão concluiu que não foram encontrados elementos objetivos que relacionassem o encontro às atribuições do ex-dirigente ou ao processo de concessão dos ônibus.

O encontro ocorreu em maio e ganhou repercussão depois da divulgação de imagens mostrando Geciauskas nas dependências da empresa, em Paulínia. A visita não constava na agenda institucional da Emdec e, quando o episódio veio a público em junho, a companhia exonerou o diretor e abriu uma investigação interna. A própria Emdec informou na ocasião que ele não integrava a comissão responsável pela licitação.

O episódio ganhou peso porque a Smile participava do consórcio vencedor do Lote Norte da concessão. Além disso, gravações divulgadas naquele período mostravam o empresário Emerson de Jesus discutindo o andamento da concorrência e mencionando a possibilidade de buscar um “jeitinho” ou recorrer à Justiça. A presença de Geciauskas na sede da empresa ocorreu em outro encontro, com duração aproximada de uma hora.

Instalada em junho, a comissão ouviu seis testemunhas e o próprio Geciauskas durante a apuração. Os depoimentos indicaram, segundo o relatório, que a Diretoria Administrativa e Financeira não participou da condução da concorrência do transporte coletivo.

Uma assessora que trabalhava diretamente com o ex-diretor afirmou que a visita à Smile não fazia parte da agenda institucional e que tomou conhecimento do episódio pela imprensa. Ela também relatou que Geciauskas e o empresário mantinham uma relação pessoal anterior, inclusive em razão da convivência entre os filhos das duas famílias.

A gerente de compras e presidente da Comissão Permanente de Licitação da Emdec também afirmou não ter conhecimento de tratativas envolvendo Geciauskas e a concorrência do transporte. A comissão informou ter analisado as informações reunidas ao longo da sindicância antes de recomendar o encerramento do procedimento.

Em depoimento prestado em agosto, Geciauskas sustentou que foi à empresa tratar de “assunto pessoal” e que sua relação com Emerson de Jesus era antiga. Segundo ele, os filhos estudaram juntos no Colégio Imaculada, posteriormente ingressaram no curso de Direito da PUC-Campinas e também praticaram jiu-jitsu na mesma academia.

Para sustentar a versão, o ex-diretor apresentou à comissão documentos referentes à grade curricular dos dois estudantes e se colocou à disposição para que fossem realizadas diligências no colégio e na academia. Geciauskas também negou ter tido acesso ou participação em qualquer etapa da licitação.

O relatório reconheceu que a presença do ex-diretor na sede da Smile efetivamente ocorreu, mas registrou que a investigação não conseguiu determinar objetivamente qual assunto foi tratado durante a reunião. Segundo a conclusão apresentada, não foram localizados documentos, registros ou depoimentos capazes de estabelecer vínculo institucional entre o encontro e a concorrência do transporte.

A apuração administrativa sobre Geciauskas é independente dos demais desdobramentos envolvendo a concessão dos ônibus. O processo licitatório que teve consórcios ligados à Smile entre os vencedores acabou posteriormente anulado após decisão do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) por uma irregularidade relacionada ao prazo concedido para apresentação das propostas após alteração do edital. A Prefeitura pretende refazer essa etapa, com republicação do edital e novo leilão. 

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br

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