POLÍTICA

Flávio Paradella: O antagônico estilo de Tak na vaga de Vini

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 11 min
Divulgação/CMC
Sucessor de Vini Oliveira estreia defendendo diálogo, construção de pontes, soma de forças e consenso; bastidores apontam aproximação com a base.
Sucessor de Vini Oliveira estreia defendendo diálogo, construção de pontes, soma de forças e consenso; bastidores apontam aproximação com a base.

A cadeira é a mesma. O partido é o mesmo. O discurso, porém, não poderia ter sido mais diferente. Tak Chung Wu (Cidadania) tomou posse nesta quarta-feira (16) para ocupar a vaga deixada por Vini Oliveira e utilizou seus primeiros minutos como vereador para apresentar não apenas as áreas nas quais pretende atuar, mas principalmente o método que parece disposto a adotar dentro da Câmara de Campinas. Depois de meses em que aquela cadeira esteve no centro de confrontos, exposições pelas redes sociais, brigas políticas e, finalmente, de uma cassação histórica, Tak escolheu palavras muito diferentes para sua estreia: “diálogo”, “construindo pontes”, “somar forças” e “consenso”.

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Não é necessário transformar os dois políticos em opostos absolutos nem imaginar que algumas frases pronunciadas na posse sejam garantia de como serão os próximos anos. Tak ainda não apresentou um projeto, não participou de uma grande votação e sequer teve tempo para enfrentar as inevitáveis contradições de um mandato. Discurso de posse é declaração de intenções. Mas, justamente por ser uma declaração de intenções, chama atenção o caminho que o novo vereador fez questão de anunciar aos agora colegas de plenário.

Diálogo e integração, construindo pontes, fortalecendo os laços culturais e institucionais que tornam nossa cidade um polo de diversidade e cooperação internacional”, afirmou ao apresentar um dos quatro eixos de atuação. Pouco depois, foi ainda mais explícito sobre como pretende se comportar politicamente: disse estar disposto a “somar forças com os pares nesse Legislativo, sempre buscando o consenso em prol do interesse público e do progresso de Campinas”.

Difícil imaginar contraste maior com o ambiente político deixado por Vini Oliveira. O vereador cassado construiu sua passagem pela Câmara praticamente no sentido inverso. Transformou o confronto em instrumento permanente de atuação, expôs colegas nas redes sociais, entrou em choque com adversários e aliados e acabou politicamente isolado justamente quando precisou impedir que 22 vereadores votassem pela perda de seu mandato. O estilo midiático e bélico ajudou Vini a construir uma identidade política muito forte fora da Câmara, mas também contribuiu para destruir pontes dentro dela. Tak chega dizendo, literalmente, que pretende construí-las.

Isso não significa que um estilo seja automaticamente sinônimo de bom mandato e o outro, de mandato ruim. Parlamentares também existem para fiscalizar, incomodar governos, apontar problemas e entrar em confronto quando necessário. Consenso não pode virar submissão, assim como independência não precisa significar guerra permanente. O que Tak sinalizou foi outra compreensão sobre a mecânica do Legislativo: pretende conversar, integrar-se e buscar aliados para transformar suas pautas em resultados.

E esse movimento já começa a aparecer nos bastidores. Entre vereadores e interlocutores da Câmara, é dado praticamente como certo que Tak deverá se integrar à base governista. A aproximação seria coerente com o perfil apresentado até agora e com sua própria trajetória de passagem pela administração municipal. Isso ainda precisará ser confirmado pela atuação concreta do novo parlamentar — sobretudo pelas primeiras votações e pela maneira como se posicionará diante do governo Dário Saadi —, mas a expectativa dentro da Casa é de uma relação muito menos conflituosa com o Executivo do que aquela mantida por seu antecessor.

Há, aliás, outro contraste curioso. Vini deixou a Câmara depois de receber 11.423 votos em 2024. Tak chegou ao plenário como primeiro suplente da Federação PSDB/Cidadania depois de obter 956 votos. São números muito diferentes, embora o sistema proporcional explique perfeitamente por que o primeiro suplente assume quando ocorre a vacância. Politicamente, entretanto, a diferença ajuda a dimensionar a peculiaridade dessa substituição: sai um vereador que fez do tamanho de sua votação uma das bases de sua força política e entra outro que parece apostar muito mais na articulação do que na exposição.

Tak também aproveitou a estreia para desenhar o território no qual pretende trabalhar. Apresentou quatro pilares. O primeiro é sustentabilidade e meio ambiente, com a defesa de “soluções urbanas inteligentes”, conciliando proteção ambiental e desenvolvimento sustentável. O segundo é inovação e desenvolvimento econômico, aproveitando, segundo ele, o potencial tecnológico e acadêmico de Campinas para “atrair investimentos e gerar oportunidade de emprego e renda”. Depois vieram inclusão social e fortalecimento das ONGs, com atenção às políticas voltadas aos mais vulneráveis, e finalmente diálogo e integração.

Essa combinação pode produzir situações politicamente interessantes muito rapidamente.

Campinas vive justamente uma grande discussão sobre como conciliar desenvolvimento econômico, tecnologia e proteção ambiental diante do projeto bilionário de um data center e toda a evolução do PIDS/HIDS em Barão Geraldo. Tak possui histórico ligado à inovação, relações internacionais e aproximação com instituições chinesas e chega dizendo que pretende defender simultaneamente sustentabilidade e atração de investimentos. Será interessante observar como transformará essas duas bandeiras em posições concretas quando elas aparentemente entrarem em tensão.

Sua trajetória também ajuda a compreender o discurso. Nascido em Hong Kong, naturalizado brasileiro e morador de Campinas há mais de quatro décadas, Tak passou pela administração municipal – Governo Jonas Donizette - e possui atuação ligada ao terceiro setor, relações internacionais e inovação. Mais recentemente, atua no Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Ibrachina/Ibrawork, instalado no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. Não surpreende, portanto, que cooperação internacional, tecnologia e terceiro setor apareçam entre as primeiras bandeiras apresentadas no plenário.

Mas talvez o trecho politicamente mais revelador de sua estreia não esteja naquilo que pretende defender. Está em como pretende fazer isso.

Tak poderia simplesmente ter agradecido pela posse e apresentado suas quatro áreas prioritárias. Preferiu acrescentar uma mensagem diretamente aos outros vereadores. Falou em somar forças com seus pares e buscar consenso. Depois de tudo o que aconteceu naquela cadeira nos últimos meses, essas palavras dificilmente passam despercebidas.

Vini construiu boa parte de sua atuação olhando para fora do plenário, especialmente para a audiência das redes sociais. Tak começou seu mandato olhando para os lados, para os outros 32 vereadores.

Ainda é cedo para saber qual será o resultado. Mas a primeira mensagem foi bastante clara. Tak herdou a cadeira de Vini. Pelo discurso de estreia, não pretende herdar seu método de fazer política.

Data center e discussão jurídica


Divulgação/Terranova

O debate sobre o gigantesco data center projetado para Barão Geraldo ganhou um componente que exige um pouco menos de torcida e muito mais atenção aos documentos. O empreendimento anunciado pela Prefeitura de Campinas como símbolo de uma nova etapa tecnológica da cidade, com R$ 5 bilhões de investimento inicial e possibilidade de chegar a R$ 20 bilhões, tornou-se alvo de crescente oposição de setores da esquerda e de movimentos de Barão Geraldo. Neste sábado, está prevista nova mobilização no Teatro do Barracão. Só que a discussão agora ultrapassou definitivamente o terreno das manifestações políticas. O Ministério Público entrou no jogo.

O Gaema, braço especializado do Ministério Público de São Paulo na defesa ambiental, instaurou inquérito civil para investigar potenciais impactos ambientais, urbanísticos e patrimoniais do chamado Campus Campinas, projetado para a Fazenda Pau D'Alho. O procedimento surgiu depois de representações e questionamentos que já vinham sendo apresentados por parlamentares e pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente. Entre os pontos colocados sob investigação estão consumo de água, demanda energética, patrimônio histórico, impactos urbanísticos e, principalmente, a maneira pela qual o processo de licenciamento vem sendo conduzido.

É importante estabelecer desde já uma fronteira. A abertura do procedimento não significa que o Ministério Público tenha concluído que o empreendimento seja ilegal, ambientalmente inviável ou que a Prefeitura tenha cometido alguma irregularidade. Trata-se justamente do instrumento utilizado para reunir documentos, solicitar informações, ouvir órgãos técnicos e determinar se existem elementos para alguma providência posterior. Neste momento, portanto, afirmar que o MP “barrou” ou “condenou” o data center seria simplesmente errado. Mas também seria errado minimizar o problema jurídico que apareceu.

O ponto mais delicado talvez esteja numa palavra que começa a aparecer repetidamente nos documentos: fracionamento. O projeto prevê uma infraestrutura energética gigantesca para permitir a futura operação do complexo. A Prefeitura, entretanto, esclarece que o data center propriamente dito ainda não está licenciado. As autorizações concedidas até agora dizem respeito exclusivamente à implantação de uma subestação elétrica. Segundo a administração, as demais etapas continuam sob análise das secretarias de Urbanismo, Planejamento e Desenvolvimento Urbano e de Clima, Meio Ambiente e Sustentabilidade.

É justamente essa separação que está sendo questionada. O Comdema sustenta que subestação, linhas de transmissão e módulos do data center deveriam ser considerados conjuntamente para a avaliação dos impactos do empreendimento. Em resolução publicada no Diário Oficial, o conselho afirmou que a licença ambiental e os alvarás referentes à subestação foram expedidos sem deliberação prévia de seu plenário e invocou competências estabelecidas pela Lei Municipal 10.841/2001 para análise de estudos ambientais e de impacto de vizinhança. O órgão pediu inclusive a suspensão administrativa da licença e o sobrestamento dos alvarás até que o complexo fosse analisado de maneira integrada.

A pergunta jurídica, portanto, é bastante objetiva: a subestação possui autonomia suficiente para ser licenciada separadamente ou ela é parte indissociável de um empreendimento muito maior, cujos impactos deveriam ser avaliados conjuntamente desde o início?

É exatamente uma das questões que os órgãos ambientais e agora o Ministério Público precisarão esclarecer. Mas ela está muito distante de ser apenas uma discussão ideológica entre quem gosta e quem não gosta de data centers.

Há outra controvérsia importante. O Comdema afirma possuir competência legal para deliberar previamente sobre determinados estudos ambientais e sobre o parecer do órgão ambiental municipal em empreendimentos de impacto local ou regional. O conselho sustenta que isso não ocorreu antes da emissão da licença da subestação. Se essa interpretação estiver correta, o problema deixa de ser apenas ambiental e passa a envolver a própria regularidade do rito administrativo adotado pela Prefeitura. Se a administração demonstrar que o procedimento utilizado estava juridicamente correto e que a manifestação do conselho não era necessária naquela etapa específica, parte importante da controvérsia perde força. É para isso que uma investigação séria serve.

Também existem perguntas ambientais que não podem ser tratadas como mero discurso político. Documentos que embasam os questionamentos ao projeto apontam uma possível demanda contingencial de até 3,24 milhões de litros de água tratada por dia em situações de estresse térmico, além de uma carga inicial de TI prevista em 216 MW e possibilidade de expansão para 386 MW. O próprio Comdema utilizou esses números para sustentar preocupações com segurança hídrica e impactos regionais. A dimensão dos números, por si só, justifica que sejam submetidos a escrutínio técnico rigoroso.

Mas aqui também é necessário cuidado. Potencial máximo não é sinônimo de consumo permanente. Cenário técnico não pode ser apresentado automaticamente como impacto consumado. Cabe ao empreendedor explicar tecnologia de resfriamento, origem da água, consumo médio e de pico, medidas de contingência, eficiência energética e mitigação. Cabe aos órgãos públicos verificar os dados. E cabe à sociedade ter acesso às informações necessárias para avaliar se as respostas são suficientes.

Existe ainda a Fazenda Pau D'Alho. A área possui patrimônio histórico protegido pelo Condepacc, o que adiciona outra camada ao processo. O Ministério Público requisitou informações também relacionadas aos possíveis efeitos do empreendimento sobre esse conjunto arquitetônico. Portanto, água, energia, ruído, urbanismo, patrimônio e procedimento administrativo estão agora reunidos em uma mesma investigação. Tudo isso torna o debate mais complexo do que a simples divisão entre “data center sim” e “data center não”.

Já escrevemos aqui sobre uma contradição política que continua existindo. Setores da esquerda que combatem duramente o empreendimento de Campinas precisam explicar como conciliam essa oposição com a política nacional de atração de data centers defendida pelo governo Lula e com projetos semelhantes incentivados por governos aliados. Essa cobrança de coerência permanece válida. Água, energia e impacto ambiental não mudam de natureza conforme o partido de quem governa. Mas o inverso também precisa valer.

O fato de o empreendimento representar bilhões de reais em investimentos, tecnologia e potencial desenvolvimento econômico não concede à Prefeitura um salvo-conduto para relativizar etapas ambientais ou urbanísticas. Se os questionamentos sobre o procedimento forem improcedentes, os documentos deverão demonstrar isso. Se houver falhas, deverão ser corrigidas antes que um projeto dessa dimensão avance. É justamente aí que a abertura do inquérito pode ser saudável.

Campinas não precisa escolher entre desenvolvimento e fiscalização. Precisa conseguir fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Um empreendimento capaz de mobilizar até R$ 20 bilhões não deveria ter medo de estudos ambientais rigorosos. Uma administração convencida da legalidade de seus atos não deveria ter dificuldade em submetê-los ao escrutínio dos órgãos de controle. E quem se opõe ao projeto também precisa aceitar que investigação ambiental não equivale antecipadamente à comprovação de irregularidade.

O pior caminho seria transformar novamente uma questão técnica complexa numa batalha em que cada lado escolhe primeiro sua conclusão e procura os argumentos depois.

O data center ainda não foi condenado. Tampouco está definitivamente autorizado. Está sendo analisado. E, diante de um empreendimento desse tamanho, talvez seja exatamente assim que deveria ser.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br

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