Campinas conseguiu transformar a tentativa de renovar o transporte coletivo em uma saga que parece não encontrar ponto final. Depois de meses de recursos, investigações, questionamentos sobre empresas, vídeos, operações policiais e crises políticas, o leilão realizado em março foi finalmente anulado pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. E o motivo talvez seja o aspecto mais constrangedor de toda essa história: a disputa não caiu por causa das suspeitas mais complexas que vinham sendo acompanhadas pela cidade, mas por falha técnica atribuída à própria condução do processo pela Prefeitura.
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O TCE entendeu que, depois da mudança da data de entrega das propostas, o município deveria ter restabelecido o prazo de 35 dias úteis previsto para essa etapa. Como isso não aconteceu, todo o resultado do leilão realizado na B3 foi derrubado. O edital, a modelagem e as regras gerais permanecem, mas a Prefeitura terá de reabrir a fase de propostas, atualizar valores e organizar uma nova disputa.
Além disso, o Tribunal de Contas apontou outros problemas relevantes. Entre eles a dificuldade no acesso a documentos por parte de interessados, o que pode ter afetado a competitividade do certame; e a demora na publicação de estudos de viabilidade financeira, essenciais para que empresas pudessem avaliar corretamente os riscos e custos da concessão.
É difícil tratar isso como um contratempo banal.
A licitação do transporte é uma das prioridades mais antigas e mais importantes da gestão Dário Saadi. O sistema atual é caro, envelhecido, superlotado e frequentemente exposto por quebras, atrasos e até incêndios. Durante anos, a administração apresentou a nova concessão como a saída para esse cenário degradado. Quando finalmente o leilão aconteceu, houve alívio dentro do governo e expectativa de que a novela estivesse perto do fim.
Não estava.
Desde março, Campinas passou a acompanhar uma sucessão de questionamentos sobre o certame. Documentações, endereços e composições societárias das empresas vencedoras entraram no radar de órgãos de controle e da Polícia Civil. A crise alcançou a Câmara Municipal, atingiu vereadores, derrubou dirigente da Emdec e alimentou uma investigação que ainda produz repercussões políticas.
Com todo esse ambiente obscuro ao redor da concorrência, talvez ninguém imaginasse que o golpe definitivo viria de uma tecnicalidade administrativa. Mas foi exatamente isso que aconteceu.
E aí a responsabilidade precisa ser cobrada.
A Prefeitura sabia o tamanho do processo. Sabia o histórico de fracassos anteriores. Sabia que qualquer detalhe seria submetido ao escrutínio de concorrentes, tribunais e órgãos de controle. Sabia, sobretudo, que não havia margem para improvisação.
Mesmo assim, o TCE concluiu que regras básicas do procedimento — como prazos legais, transparência documental e divulgação adequada de informações financeiras — não foram plenamente respeitadas.
Com todo respeito aos profissionais envolvidos, é difícil não enxergar nisso um atestado de falha grave de gestão. Em qualquer organização privada, um projeto estratégico que acumulasse tantos atrasos, erros, retrabalhos e riscos naturalmente colocaria seus responsáveis no olho da rua.
No poder público não deveria ser diferente. A decisão do TCE foi um atestado de incompetência.
Dário Saadi, a Emdec e a Secretaria de Transportes precisam explicar com clareza como um processo dessa complexidade conseguiu avançar com inconsistências em prazos, dificuldades de acesso a documentos e atrasos em informações essenciais como os estudos de viabilidade financeira. Não basta dizer que o edital não foi integralmente anulado ou que a disputa poderá ser refeita. O problema é justamente ter de refazer algo que custou tempo, dinheiro, energia administrativa e que interessa diretamente a centenas de milhares de passageiros.
Teve foto, vídeos, discurso com palavras fortes e nada daquilo valeu.
A decisão também abre espaço para toda espécie de teoria e ilação sobre a concorrência. E isso é consequência natural de um processo que perdeu credibilidade.
Mas é importante separar especulação de fato.
O fato objetivo é que o Tribunal de Contas apontou um erro no procedimento conduzido pela Prefeitura e determinou que a disputa seja repetida. É esse o ponto que precisa ser enfrentado de uma vez por todas pela administração.
Enquanto isso, o passageiro continuará no mesmo lugar. Dentro de ônibus envelhecidos, enfrentando intervalos ruins, veículos lotados e um caótico sistema que há anos aguarda renovação.
A nova licitação deveria representar um horizonte. Hoje, virou mais uma fonte de incerteza.
É vergonhoso que uma cidade do tamanho de Campinas continue incapaz de resolver um problema tão básico depois de tantos anos de tentativas. A crítica é dura porque o histórico também é.
Agora a Prefeitura terá de reorganizar a disputa, atualizar os valores e voltar à B3.
De novo.
O leilão caiu. A promessa de um novo transporte permanece. E o usuário, mais uma vez, continua esperando.
Carta na mesa

Divulgação/PMC
A anulação do leilão do transporte coletivo de Campinas não representa apenas uma derrota administrativa para a Prefeitura. Ela reabre completamente o tabuleiro entre vencedores e derrotados de março, e isso pode mudar bastante a dinâmica da nova disputa.
No certame realizado na B3, a Sancetur venceu o Lote Sul e o Consórcio Grande Campinas levou o Lote Norte. Do outro lado ficaram grupos de enorme peso no sistema campineiro. O Consórcio Mov Campinas, ligado ao Grupo Belarmino e à VB Transportes, saiu derrotado no Lote Norte. No Sul, perderam o Consórcio Andorinha e o Consórcio VCP Mobilidade, este último formado por empresas que já participam da operação atual da cidade, como Expresso Campibus, Onicamp e Itajaí Transportes.
Esses nomes não são meros coadjuvantes. Eles têm importância direta na história recente do transporte de Campinas e, por isso, a eventual volta deles à nova concorrência será um dos pontos centrais a observar.
Nada garante, porém, que todos estarão novamente na disputa.
O novo leilão será, de fato, uma nova concorrência. Isso significa que os vencedores de março precisarão vencer de novo, os derrotados precisarão decidir se vale a pena retornar e outros interessados poderão surgir. Também existe a possibilidade de algum grupo abandonar a disputa depois de acompanhar tudo o que aconteceu desde março.
Ainda assim, pelo tamanho do contrato e pelo nível de interesse demonstrado anteriormente, é razoável imaginar que boa parte dos mesmos protagonistas volte à B3.
E, se isso acontecer, teremos uma disputa completamente diferente da primeira.
Em março, a grande surpresa foi a agressividade dos vencedores. A Sancetur levou o Lote Sul com deságio de 14,9%, enquanto o Consórcio Grande Campinas venceu o Lote Norte com 19,3% de desconto sobre o valor de referência.
No caso do Lote Norte, a disputa foi especialmente simbólica porque o Consórcio Grande Campinas conseguiu superar o poderoso Grupo Belarmino, que há décadas possui presença dominante no transporte da cidade.
Esse resultado teve enorme peso político e empresarial. Belarmino entrou na disputa como um dos grupos mais conhecidos e mais experientes do sistema campineiro. Mesmo assim, foi surpreendido pela disposição do rival em baixar o preço e levar a concessão.
Agora, se - e vai - o Consórcio Mov Campinas voltar à disputa, já sabe exatamente até onde o adversário esteve disposto a ir.
O mesmo vale para o Lote Sul.
Sancetur, Consórcio Andorinha e VCP Mobilidade já se enfrentaram uma vez. Todos conhecem o comportamento dos concorrentes, o nível de agressividade das propostas e o quanto cada grupo conseguiu reduzir na primeira tentativa.
O elemento surpresa praticamente desapareceu.
É como repetir uma partida depois de assistir ao jogo inteiro em vídeo. O tabuleiro pode até ser o mesmo, mas ninguém entra mais sem conhecer os movimentos do outro.
E isso pode tornar a nova concorrência ainda mais agressiva.
Os grupos derrotados poderão recalcular seus custos e chegar à conclusão de que precisam baixar muito mais para vencer. Os vencedores, por outro lado, terão de decidir se conseguem repetir a estratégia anterior ou se o desconto apresentado em março já estava no limite do que consideravam economicamente viável.
A nova disputa pode virar uma verdadeira prova de força.
No caso do Grupo Belarmino, há ainda um componente extra. A derrota de março tinha simbolizado, ao menos naquele momento, a quebra de uma longa hegemonia no transporte campineiro. A anulação do leilão oferece uma segunda chance para quem parecia já estar fora do futuro sistema, mas sabemos que luta arduamente para ficar.
O VCP Mobilidade vive situação semelhante. Empresas que hoje já operam em Campinas também voltam a ter a possibilidade de permanecer na cidade por meio da nova concessão, caso decidam participar novamente.
Já Sancetur e Consórcio Grande Campinas terão de provar que conseguem repetir o desempenho que os colocou como vencedores.
Ou seja, quem ganhou precisa ganhar de novo. Quem perdeu recebeu uma chance de revanche.
Há ainda um elemento que muda tudo: o ambiente em torno da licitação hoje é muito mais pesado do que em março.
Desde o primeiro leilão, surgiram recursos, investigações policiais, questionamentos sobre documentos e empresas, crises políticas, vídeos, operações e até uma Comissão Processante na Câmara. Tudo isso será levado em conta pelos grupos antes de decidir se retornam à disputa.
Por isso, seria precipitado afirmar que teremos exatamente os mesmos cinco concorrentes. Pode haver menos interessados. Pode haver mais. Pode haver desistências. Pode haver novos grupos.
Mas, se os mesmos protagonistas retornarem, a revanche terá uma diferença fundamental. Em março, alguns foram surpreendidos. Desta vez, não serão. Sancetur, Consórcio Grande Campinas, Grupo Belarmino, VCP Mobilidade e Consórcio Andorinha já conhecem as cartas uns dos outros.
O primeiro leilão mostrou quem estava disposto a ser agressivo, quem tinha margem para reduzir e quem acabou ficando pelo caminho. Agora, com o placar zerado pelo TCE, o jogo recomeça.
Só que ninguém mais entra no escuro.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br