A negativa do Gaeco em compartilhar as provas da investigação com a Comissão Processante da Câmara de Campinas representa muito mais do que um simples entrave processual. Ela atinge justamente o coração da apuração. Se havia um elemento capaz de dar maior consistência técnica aos trabalhos do colegiado, era o acesso às gravações completas que motivaram toda essa crise política.
- Clique aqui para fazer parte da comunidade da Sampi Campinas no WhatsApp e receber notícias em primeira mão.
O Ministério Público agiu dentro daquilo que a legislação permite. A investigação está sob sigilo absoluto, e o promotor Rafael Saldezas Arbach apenas comunicou que o compartilhamento das provas só poderá ocorrer após eventual levantamento desse sigilo. Não há qualquer irregularidade na decisão.
O problema está do lado da Câmara. A Comissão Processante passa a trabalhar praticamente às cegas em relação ao principal elemento da denúncia.
Até aqui, todo o material que veio a público é composto por vídeos editados, com cortes evidentes, mudanças de enquadramento e trechos desfocados. Não é preciso ser perito para perceber isso. Evidentemente, uma edição não significa manipulação do conteúdo, mas retira contexto, elimina passagens intermediárias e impede compreender exatamente o que aconteceu antes, durante e depois das cenas exibidas.
É justamente esse contexto que a CP precisava analisar. A íntegra poderia confirmar a narrativa da denúncia, fortalecer a versão da defesa ou até produzir uma terceira interpretação dos fatos. Sem ela, sobra muito espaço para conjecturas.
Outro aspecto preocupa. A comissão já enfrenta enorme dificuldade para produzir prova testemunhal. Ela própria reconheceu que não possui poder para determinar condução coercitiva. Caberá às partes convencerem suas testemunhas a comparecer.
Na prática, é difícil imaginar que empresários e pessoas ligadas ao grupo investigado compareçam espontaneamente para prestar depoimento em um processo político. Já a defesa deve conseguir apresentar seus assessores e o próprio vereador sem maiores dificuldades. O desequilíbrio probatório começa a aparecer.
Agora, a esperança da CP parece migrar para outros caminhos jurídicos, como eventual autorização do Judiciário para acesso ao material ou a obtenção das gravações por outro meio legalmente válido. Mas nenhum desses caminhos é simples, tampouco rápido.
Enquanto isso, o relógio continua correndo. A comissão tem prazo para concluir seus trabalhos e precisará elaborar um relatório baseado nas provas que conseguir reunir.
Isso não significa que a investigação esteja condenada ao fracasso. Há outros documentos, depoimentos e elementos que ainda poderão ser produzidos. Mas é inegável que a negativa do Ministério Público representa um revés importante.
No fim, a CP passa a enfrentar um desafio delicado: construir um julgamento político sem acesso ao principal material que originou toda a investigação. E isso naturalmente fragiliza qualquer conclusão, seja ela pela absolvição ou por uma eventual recomendação de cassação.
Porque, em um processo com consequências tão graves, quanto mais completas forem as provas, maior será a legitimidade do resultado. Hoje, essa missão ficou bem mais difícil.
Ainda ontem chorei de saudade

Reprodução/TH+
Se alguém resolvesse escrever uma série sobre o transporte coletivo de Campinas, provavelmente seria acusado de exagerar no roteiro. Mas a realidade insiste em superar qualquer ficção. Quando parece que já vimos de tudo, surge mais um episódio improvável para engrossar uma coleção de problemas que parece não ter fim.
Desta vez, um ex-motorista teria furtado um ônibus porque estava com saudades de dirigir. Sim, é isso mesmo. Enquanto o motorista fazia sua pausa para jantar e ir ao banheiro no Terminal Padre Anchieta, o coletivo simplesmente desapareceu. Pouco tempo depois, foi localizado seguindo viagem em direção a Hortolândia, conduzido por um homem que, segundo informações, teria trabalhado anteriormente na função.
É claro que o episódio desperta até um certo humor pela justificativa apresentada.
Mas é impossível não lembrar, mais uma vez, a sucessão de situações inusitadas que transformaram o transporte coletivo campineiro em um permanente gerador de crises. Não bastam as constantes quebras de veículos, a superlotação, a frota envelhecida, os incêndios em ônibus, as discussões intermináveis sobre a licitação bilionária e os escândalos políticos que hoje ocupam a Câmara, a Polícia Civil e o Ministério Público. Agora, entra para a lista o ônibus levado por um ex-motorista movido pela nostalgia.
O veículo foi levado justamente em horário de pico. Bastava um erro, um acidente ou qualquer perda de controle para que o desfecho fosse muito diferente. Felizmente, ninguém ficou ferido.
O episódio também levanta uma pergunta inevitável: como alguém consegue simplesmente entrar em um ônibus estacionado em um terminal e sair dirigindo? Evidentemente, essa resposta caberá à investigação policial, mas ela também interessa às empresas e ao próprio sistema de transporte.
O que chama a atenção é que extraordinário virou rotina. A cada semana surge um novo fato capaz de surpreender até quem acompanha diariamente o setor. Agora, até a saudade virou ocorrência policial.
Se existe algo que o transporte coletivo de Campinas definitivamente não enfrenta é monotonia. O problema é que os passageiros certamente prefeririam trocar toda essa criatividade involuntária por ônibus funcionando, horários cumpridos e viagens tranquilas. Convenhamos, seria um roteiro bem menos emocionante — e muito mais útil para quem depende dele todos os dias.
169 anos do Cultura

Flávio Paradella
Hoje é um dia especial para Campinas. O Clube Cultura completa 169 anos nesta quinta-feira, 16 de julho, carregando uma história que se confunde com a própria trajetória da cidade.
Ao longo de quase dois séculos, o Cultura recebeu nomes ilustres, participou da formação da sociedade campineira e se consolidou como um espaço de convivência, tradição, amizade e pertencimento.
Tenho muito orgulho de fazer parte da atual diretoria deste clube tão importante, que também é, para mim e para minha família, um lugar de refúgio, lazer, encontros e boas memórias.
Parabéns, Clube Cultura. Que essa história continue sendo escrita com o mesmo compromisso, carinho e grandeza que marcaram seus 169 anos.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br