Há quem enxergue Campinas apenas pelos números. São mais de um milhão de habitantes, uma das maiores economias do Brasil, polo tecnológico, universitário, científico e logístico. Uma cidade que produz conhecimento, gera empregos, atrai investimentos e influencia muito além de seus limites geográficos.
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Mas quem vive Campinas sabe que ela nunca coube apenas nas estatísticas.
Campinas é uma cidade de contrastes. É capaz de reunir centros de pesquisa reconhecidos mundialmente e, ao mesmo tempo, conviver com bairros que ainda aguardam infraestrutura básica. É referência em saúde, mas enfrenta filas e superlotação. Exibe arranha-céus modernos enquanto carrega cicatrizes de um Centro Histórico que luta para permanecer vivo.
Talvez seja justamente essa mistura que faça dela uma cidade tão fascinante.
Como jornalista, tive o privilégio de percorrer praticamente todos os cantos deste município. Conheci histórias de sucesso e de superação, acompanhei grandes conquistas, cobri tragédias, denunciei problemas, fiscalizei governos e também testemunhei inúmeras iniciativas capazes de mudar vidas.
Campinas nunca foi uma cidade acomodada. Ela cresce, questiona, debate, erra, corrige, recomeça. Vive em permanente transformação.
É verdade que ainda há muito a fazer. A desigualdade continua desafiando qualquer gestão pública. A mobilidade exige soluções definitivas. A preservação do patrimônio histórico precisa sair do discurso e chegar à prática. A segurança, a saúde, a habitação e tantas outras áreas seguem cobrando respostas à altura de uma metrópole do tamanho que Campinas alcançou.
Mas também é verdade que poucas cidades conseguem reunir tantas oportunidades.
Foi aqui que milhares de pessoas encontraram emprego, construíram famílias, abriram empresas, estudaram, realizaram sonhos e escreveram suas próprias histórias. Campinas acolhe gente de todos os cantos do Brasil e do mundo. Talvez por isso seja tão difícil definir uma identidade única. Sua maior característica talvez seja justamente a diversidade.
Ao longo destes anos escrevendo sobre política, administração pública e os bastidores do poder, aprendi que amar uma cidade não significa fechar os olhos para seus problemas. Pelo contrário. Quem gosta de Campinas cobra, critica, aponta erros e exige melhorias justamente porque acredita no potencial que ela tem.
Celebrar seus 252 anos não é ignorar suas imperfeições. É reconhecer que elas existem e que precisam ser enfrentadas. É entender que uma cidade não se mede apenas pelas obras inauguradas ou pelos indicadores econômicos, mas principalmente pelas pessoas que caminham diariamente por suas ruas.
Campinas é, ao mesmo tempo, potência e desafio. Moderna e histórica. Rica e desigual. Acolhedora e, muitas vezes, dura com quem mais precisa.
Ainda assim, continua sendo a nossa casa.
E talvez seja exatamente por isso que tenhamos tanto orgulho dela. Não porque seja perfeita. Mas porque acreditamos, todos os dias, que ela pode ser melhor.
Parabéns, Campinas. Que seus próximos anos sejam de mais desenvolvimento, mais justiça, mais oportunidades e, principalmente, mais cuidado com quem faz desta cidade um lugar único para viver.
Dário mantém maratona
Divulgação/PMC
A estratégia adotada pela Prefeitura de Campinas para o mês de aniversário da cidade segue em ritmo acelerado. Depois de uma sequência de anúncios, ordens de serviço e lançamentos, o governo Dário Saadi (Republicanos) teve duas agendas de forte apelo administrativo. A primeira foi a abertura de novos leitos no Hospital São Leopoldo Mandic. A segunda, justamente no dia em que Campinas completa 252 anos, é a entrega da primeira fase da conversão da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Anhumas na futura Estação Produtora de Água de Reúso (EPAR), projeto que promete transformar o local no maior polo de água de reúso da América Latina.
É mais um capítulo da estratégia de reposicionar o governo pelo lado das entregas. Depois de um primeiro semestre consumido por crises políticas e administrativas, a gestão tenta recolocar obras, investimentos e serviços públicos no centro do debate. Não deixa de ser uma reação natural de qualquer governo que deseja recuperar protagonismo.
E é preciso reconhecer que os dois anúncios têm peso. A ampliação de leitos hospitalares dialoga diretamente com uma das maiores cobranças enfrentadas pela Prefeitura nos últimos anos, quando a superlotação da rede pública passou a ocupar diariamente o noticiário. Já a EPAR Anhumas representa um investimento estruturante, com impacto ambiental relevante e potencial para colocar Campinas como referência nacional em reúso de água.
O que causa certa estranheza não é a obra. É o simbolismo da cerimônia. Afinal, escolher justamente uma estação de tratamento de esgoto para celebrar o aniversário de uma cidade parece, no mínimo, uma decisão pouco inspirada do ponto de vista da comunicação.
É evidente que a importância da obra supera qualquer simbolismo. Trata-se de um projeto estratégico para a sustentabilidade hídrica de Campinas, com benefícios concretos para o futuro da cidade. Mas comunicação também trabalha com percepção, imagem e significado. E convenhamos: quando se pensa em uma celebração de aniversário, dificilmente a primeira imagem que vem à cabeça é uma estação de esgoto, por mais moderna e tecnológica que ela seja.
Isso é uma percepção - ou antipatia - minha. Mas uma coisa é certa: julho deixou de ser apenas o mês do aniversário de Campinas para se transformar também no mês em que a Prefeitura tenta escrever uma nova narrativa da gestão.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br