A escolha da Unicamp para sediar uma das primeiras agendas de pré-campanha de Fernando Haddad (PT) em Campinas dificilmente surpreende. Pelo contrário. O roteiro segue exatamente uma estratégia já testada e aprovada pelo partido. Em 2022, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva também escolheu a universidade para realizar a chamada "aula magna", que, na prática, acabou funcionando como um grande ato político naquela pré-campanha presidencial. Na verdade, foi um comício mesmo.
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Quatro anos depois, o cenário se repete. Haddad volta ao mesmo ambiente, agora com objetivo oficial de discutir economia, desenvolvimento e justiça social diante de um público formado por docentes, estudantes, servidores e simpatizantes de um campo político historicamente mais próximo da esquerda. É uma plateia receptiva, acolhedora e previsível.
Do ponto de vista da mobilização partidária, faz todo sentido. A Unicamp possui tradição de intenso debate político e costuma reunir segmentos importantes da base eleitoral petista. O problema é que Fernando Haddad não disputa apenas a manutenção desse eleitorado. Se pretende enfrentar um governador bem avaliado como Tarcísio de Freitas, precisará conquistar justamente quem hoje não está naturalmente ao seu lado.
E é aí que surge o desafio da estratégia.
Quem busca ampliar votos precisa, antes de tudo, ampliar os ambientes onde aparece. Falar para quem já concorda pode fortalecer militância, produzir boas imagens para as redes sociais e gerar repercussão positiva entre aliados. Mas dificilmente altera o comportamento do eleitor moderado, daquele que decide eleições estaduais e costuma estar distante tanto dos atos partidários quanto das universidades.
A própria composição anunciada da chapa demonstra essa preocupação. Haddad terá Márcio França (PSB) como vice e nomes como Marina Silva e Simone Tebet disputando vagas ao Senado, numa clara tentativa de construir uma frente mais ampla e dialogar além da base tradicional do PT.
Mas ampliar alianças não significa, necessariamente, ampliar o alcance da mensagem.
A política mudou profundamente nos últimos anos. Foi-se o tempo em que carros de som, grandes comícios em praças públicas ou auditórios lotados bastavam para criar capilaridade eleitoral. Hoje, campanhas são disputadas simultaneamente nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens e em ambientes onde o candidato encontra justamente quem pensa diferente dele.
Nesse contexto, repetir o modelo de 2022 era esperado. Mas repetir o mesmo palco talvez não seja suficiente.
Se Haddad pretende conquistar o eleitor moderado paulista, precisará sair da zona de conforto. Porque campanhas não são vencidas apenas consolidando a própria base. Elas são decididas justamente quando um candidato consegue romper a bolha e convencer quem, até então, não pretendia votar nele.
Talvez, o ato desta quinta seja para apresentar o time. Em tempos de Copa do Mundo, Haddad precisa mostrar que tem elenco forte. Sem dúvida, a equipe tem nomes conhecidos. No futebol, o pessoal chama de “medalhões”. A dúvida é se ainda são eficientes na atual conjuntura.
A aula magna pode fortalecer a militância. O desafio eleitoral, porém, continua sendo muito maior do que lotar um auditório simpático às suas ideias.
Unicamp restringe atos

Divulgação/Unicamp
Falando em atos na Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas publicou um conjunto de orientações para disciplinar visitas institucionais de parlamentares e autoridades às dependências da instituição durante o período eleitoral de 2026. As medidas foram oficializadas por meio do Ofício Circular GR nº 01/2026, assinado pelo reitor em exercício, Fernando Antonio Santos Coelho.
Segundo a Reitoria, o objetivo é garantir o cumprimento da legislação eleitoral, preservar a neutralidade institucional e evitar que atividades acadêmicas ou administrativas sejam interpretadas como promoção pessoal de agentes públicos ou favorecimento eleitoral. O documento ressalta que visitas técnicas e reuniões de trabalho continuam sendo legítimas, desde que observadas as regras previstas na Lei das Eleições e nas resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
As orientações passam a valer a partir de sábado, 4 de julho, marco estabelecido pelo calendário eleitoral para a incidência das chamadas condutas vedadas aos agentes públicos. Entre as principais restrições está a proibição da participação de candidatos em inaugurações de obras públicas e cerimônias de entrega de bens, serviços ou equipamentos promovidas pela Universidade.
O ofício também determina que os canais oficiais da Unicamp deixem de divulgar nomes, imagens, slogans ou símbolos que possam identificar autoridades cujos cargos estejam em disputa nas eleições, além de vedar qualquer utilização da estrutura, dos bens ou dos serviços da instituição para promoção eleitoral.
Para as visitas institucionais já previstas, a Reitoria estabeleceu uma série de medidas preventivas. As agendas deverão ter caráter estritamente técnico, restritas preferencialmente a reuniões de trabalho, visitas a laboratórios ou projetos de pesquisa, sem organização de cerimônias públicas ou eventos que possam adquirir conotação político-eleitoral. Também ficará proibido o uso de camisetas, bandeiras, slogans, materiais de campanha ou qualquer outro elemento de propaganda nas dependências da Universidade.
Outra orientação é que a Unicamp evite divulgar, antes ou depois, visitas de autoridades que sejam potenciais candidatas. O documento ainda prevê que, sempre que possível, a Administração Central poderá reprogramar agendas com potencial repercussão político-eleitoral para depois do período das eleições.
Na circular, a Reitoria afirma que as medidas buscam preservar a missão institucional da universidade como espaço de produção do conhecimento, pluralidade de ideias e respeito aos princípios da legalidade, transparência e impessoalidade durante o processo eleitoral. As orientações têm como fundamento a Lei nº 9.504/1997 e resoluções do Tribunal Superior Eleitoral que disciplinam as condutas vedadas aos agentes públicos em ano de eleição.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br