OPINIÃO

Aposentadoria, a conta que não fecha


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A expectativa de vida da população aumentou significativamente nas últimas décadas. Os idosos estão cada vez mais longevos graças aos avanços da medicina, da vacinação e das condições de vida. Essa é uma grande conquista social, mas também traz um desafio urgente: garantir que as pessoas possam envelhecer com dignidade.

Tenho falado com muitas pessoas em diferentes cidades da Região Metropolitana de Jundiaí e existe uma preocupação que aparece em praticamente todas as conversas: a dificuldade de manter a qualidade de vida depois da aposentadoria.

Segundo dados oficiais do INSS referentes a dezembro de 2024, cerca de 70% dos benefícios pagos são de até um salário mínimo. Isso significa que milhões de aposentados vivem com uma renda extremamente limitada diante do aumento constante das despesas básicas.

De acordo com o IBGE, o grupo Saúde e Cuidados Pessoais acumulou alta de cerca de 6% nos últimos 12 meses, pressionado principalmente pelo aumento dos medicamentos e dos planos de saúde. O grupo Alimentação e Bebidas registraram inflação próxima de 7%, afetando diretamente o orçamento das famílias. Já os planos de saúde individuais tiveram reajuste autorizado pela ANS de até 6,06% em 2025. São percentuais que pesam muito mais para quem vive com renda fixa.

Para os idosos, a situação é ainda mais delicada. Afinal, além das despesas comuns a qualquer família, existem gastos permanentes com consultas médicas, exames, tratamentos e medicamentos. O resultado é que muitos aposentados precisam fazer escolhas difíceis. Alguns reduzem despesas essenciais. Outros retornam ao mercado de trabalho para complementar a renda. Há ainda aqueles que passam a depender da ajuda dos filhos e familiares para conseguir fechar as contas no final do mês.

Essa realidade merece uma reflexão profunda. Quando falamos de aposentadoria, não estamos discutindo apenas números ou índices econômicos. Estamos falando de dignidade. Estamos falando de pessoas que dedicaram uma vida inteira ao trabalho e que merecem envelhecer com respeito, autonomia e qualidade de vida.

É verdade que o sistema previdenciário brasileiro enfrenta um déficit que precisa ser enfrentado com responsabilidade. O envelhecimento da população, a queda na proporção de trabalhadores ativos e o aumento do número de beneficiários exigem reformas, planejamento e equilíbrio fiscal. Ignorar esse problema seria um erro.

Mas reconhecer o déficit não pode significar sacrificar os aposentados. Não é justo transferir todo o peso do ajuste para quem já contribuiu durante toda a vida. A solução precisa combinar responsabilidade fiscal com proteção social, preservando o poder de compra dos benefícios e garantindo condições mínimas de dignidade.

Também é fundamental pensar nas cidades. Transporte acessível, calçadas seguras, unidades de saúde próximas e espaços públicos adequados fazem diferença no dia a dia da população idosa. Qualidade de vida não depende apenas da renda; depende das condições que oferecemos para que as pessoas possam viver bem.

Sempre acreditei que o desenvolvimento de uma região deve ser medido não apenas pelos indicadores econômicos, mas também pela forma como ela trata seus idosos. Uma sociedade verdadeiramente desenvolvida é aquela que valoriza sua história, respeita quem ajudou a construí-la e oferece oportunidades para todas as gerações.

Miguel Haddad é ex-deputado federal e ex-prefeito de Jundiaí

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