POLÍTICA

Flávio Paradella: Mariana cobra CPI e vídeos da crise dos ônibus

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 9 min
Reprodução/FPX Cast
Vereadora do PSOL cobra acesso integral às gravações da Smile e defende CPI para investigar a licitação dos ônibus.
Vereadora do PSOL cobra acesso integral às gravações da Smile e defende CPI para investigar a licitação dos ônibus.

A vereadora Mariana Conti (PSOL) afirmou que a crise envolvendo a licitação do transporte público de Campinas vai além dos vídeos divulgados nas últimas semanas e expõe, segundo ela, um modelo de relação entre poder público, vereadores e empresas do setor que precisa ser investigado até o fim. A parlamentar foi a entrevistada do FPX Cast PodConecta e teve como tema central a sequência de denúncias, gravações e desdobramentos políticos envolvendo a Smile Transportes, a Emdec, a Prefeitura e a Câmara.

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Mariana é autora do pedido que levou à abertura da Comissão Processante contra o vereador Vini Oliveira (Cidadania), após imagens mostrarem o parlamentar em uma reunião em uma empresa ligada ao transporte, em Paulínia, e deixando o local com uma caixa preta e envelopes. A vereadora também apresentou um requerimento de CPI para investigar de forma mais ampla a licitação dos ônibus e suas ramificações políticas.

Para Mariana, a crise tem três frentes principais: a qualidade do transporte, o custo do sistema e a relação entre agentes públicos e empresas. “O que está claro é que é uma crise que não é de hoje. Para mim, essa crise tem três componentes. A primeira é o transporte público terrível”, afirmou. Ela citou ônibus quebrados, veículos com problemas, linhas longas, demora nos pontos e impacto direto na rotina de quem depende do serviço para trabalhar, estudar e se deslocar pela cidade.

A segunda frente, segundo a vereadora, é o peso financeiro do sistema para o usuário e para o orçamento público. Mariana criticou o valor da tarifa, hoje em R$ 6 no Bilhete Único e R$ 6,50 no Vale-Transporte, e relacionou o aumento da passagem ao crescimento dos subsídios pagos pela Prefeitura às empresas. “A gente paga a tarifa para usar cada passagem e, além de tudo, paga via dinheiro público que vai para o subsídio. Então a gente paga duas vezes”, disse.

O ponto mais duro da entrevista, porém, foi a avaliação sobre os encontros e conversas revelados na crise. Mariana chamou de “relação espúria” a aproximação entre representantes do poder público e empresas do transporte. Ela citou o caso de Vini Oliveira, as gravações atribuídas ao vereador Higor Diego (Republicanos) e a reunião do secretário de Transportes, Fernando de Caires, com um representante da Smile pouco mais de um mês antes do leilão da concessão.

Na reunião da Frente Parlamentar de Acompanhamento da Licitação do Transporte, realizada na terça-feira (16), Caires admitiu ter recebido um representante da Smile em janeiro, mas afirmou que não via problema no encontro por se tratar de uma agenda oficial e por receber diferentes interessados na condição de secretário. Mariana discordou. “Eu acho que não é normal. Uma empresa que está participando de um processo de licitação não tem que fazer reunião extra, fora do processo”, afirmou.

A vereadora também criticou a justificativa apresentada pelo secretário. “Por que a empresa precisa procurar o secretário de Transporte para dizer: olha, eu vou participar do processo da licitação? O argumento não é que foi na B3 para ter transparência e lisura? Então faz parte do processo da transparência não fazer reunião antecedente a um mês do processo de licitação com empresa nenhuma”, disse.

Na avaliação de Mariana, a Prefeitura não pode atuar como intermediária de interesses privados. “A Prefeitura de Campinas não é um agente de negócios. O principal sentido da Prefeitura é fazer a gestão pública para garantir o serviço público. E essa relação entre o público e o privado está contaminada nesse governo”, afirmou.

A parlamentar também voltou a cobrar que a Câmara tenha acesso ao conteúdo completo das gravações feitas na sede da Smile. Segundo ela, os vídeos já divulgados mostram apenas trechos e não permitem compreender todo o contexto das conversas. “A Câmara precisa pegar essa gravação. Independentemente do processo, do tempo da comissão, a Câmara precisa ter isso. Porque não é segredo de Justiça, até a mídia já tem”, disse.

Mariana afirmou que a Comissão Processante contra Vini não pode avançar sem considerar o material que motivou a abertura do processo. A CP é presidida por Paulo Haddad (PSD), líder do governo na Câmara, tem Otto Alejandro (PL) como relator e Dr. Yanko (PP) como integrante. “Os vídeos já existem. Já estão sob o poder da mídia. Não é um conteúdo de uma prova adicional que vai vir depois. É algo que já existe, que motivou a abertura da comissão processante”, afirmou.

Sobre Vini Oliveira, Mariana avaliou que a situação política do vereador pode ter mudado depois do surgimento de gravações envolvendo atores da base do governo. Após ser notificado da CP, Vini negou irregularidades e elogiou a base governista por rejeitar pedidos de Comissão Processante contra o prefeito Dário Saadi (Republicanos) e contra Higor Diego. Para Mariana, a fala funciona como um recado político. “Vai ser o álibi dele, o principal álibi, para tentar pressionar a comissão e os vereadores a enterrarem a CP”, afirmou.

A parlamentar também defendeu que a crise não seja limitada a um único vereador. Para ela, o surgimento de citações ao prefeito, a secretários, a dirigentes da Emdec e a parlamentares amplia o alcance da apuração. “Quando isso escalonou envolvendo o governo, a gente não está falando mais apenas de um vereador. Estamos falando de governo, de secretário. Nesse cenário, para mim, o instrumento ideal é a CPI”, disse.

O requerimento de CPI apresentado por Mariana ainda não tem as 11 assinaturas necessárias para ser instalado. Até agora, reúne seis apoios. A vereadora afirmou que pretende convidar o próprio Vini a assinar o pedido. “Eu espero até que o Vini assine a CPI, porque quem não deve não teme. Se ele quer mesmo que tudo venha à tona, que seja investigado, então assina a CPI”, afirmou.

Durante a entrevista, Mariana também voltou a defender uma discussão sobre o modelo do transporte público em Campinas. Segundo ela, o sistema atual se arrasta desde 2005, com baixa qualidade, tarifas elevadas e dependência crescente de subsídios. A vereadora criticou o fato de a Prefeitura ter recusado financiamento do BNDES para renovação da frota e defendeu que o município volte a discutir maior controle público sobre o sistema.

“A gente está nesse atoleiro desde 2005. Já completou maioridade. Como é que a gente sai desse atoleiro? Tem que rever modelo. Não funciona”, afirmou. Em outro trecho, Mariana disse que Campinas precisa debater alternativas como frota própria e tarifa zero, mas reconheceu que isso exige estudo técnico e planejamento. “Não é do dia para a noite, mas precisamos municipalizar, que a Prefeitura tenha o controle desse processo”, disse.

Para a vereadora, a licitação atual não resolve o problema se apenas substituir grupos empresariais sem alterar a lógica de funcionamento do sistema. “A gente precisa mudar. Agora, não dá para mudar e colocar corruptos. Não dá para trocar seis por meia dúzia”, afirmou.

Mariana encerrou a análise defendendo que a publicidade dos fatos será decisiva para impedir que a crise perca força dentro da Câmara. “As coisas têm que ser muito públicas. A única forma de a gente lidar com isso é com a publicidade desse processo. E a mídia cumpre um papel fundamental”, declarou.

Agendas públicas


Divulgação/CMC

A confirmação de que o secretário de Transportes de Campinas, Fernando de Caires, recebeu um representante da Smile Transportes pouco mais de um mês antes do leilão da nova concessão do transporte coletivo abriu uma nova frente política na Câmara. A vereadora Débora Palermo (PL) protocolou um projeto de lei para obrigar a divulgação pública das agendas do prefeito, secretários municipais e dirigentes de órgãos da administração direta e indireta.

A proposta aparece quando a Prefeitura é pressionada a explicar encontros, tratativas e decisões envolvendo a licitação do transporte. A Smile está no centro da crise que atingiu o processo, depois da divulgação de vídeos gravados na sede da empresa, em Paulínia, envolvendo vereadores, empresários do setor e um então diretor da Emdec.

Na terça-feira (16), durante reunião da Frente Parlamentar de Acompanhamento da Licitação do Transporte Público Municipal, Caires admitiu ter recebido um representante da Smile em janeiro de 2026. O secretário afirmou que o encontro tratou de uma manifestação de interesse da empresa pelo certame e disse não ver irregularidade na reunião, por receber diferentes públicos na condição de gestor da pasta.

“Eu imagino que por ser uma licitação grande, um processo complexo, eu não vi problema nenhum. Até porque, repito, recebi ele como recebo diversas outras pessoas, desde empresários grandes até munícipe para falar sobre lombada, sinalização, então eu acho que faz parte do processo”, afirmou Caires na Câmara.

O ponto levantado é que, embora o secretário tenha dito que a reunião foi oficial, constava em sua agenda e ocorreu dentro da estrutura da Emdec, as agendas do prefeito e dos secretários municipais não são publicadas em Campinas. O projeto de Débora Palermo tenta justamente criar essa obrigação, com atualização diária, preferencialmente nos sites eletrônicos dos respectivos órgãos.

Além da divulgação dos compromissos oficiais, o texto estabelece uma regra específica para reuniões com empresas que já tenham contrato com o poder público municipal ou que estejam interessadas em contratar com a Prefeitura. Nesses casos, os encontros deverão contar obrigatoriamente com a presença de um servidor efetivo.

A medida busca ampliar o controle sobre a relação entre agentes públicos e representantes do setor privado. Na prática, a proposta pretende evitar que tratativas envolvendo empresas ocorram sem registro público, sem acompanhamento formal e sem a possibilidade de fiscalização posterior pela sociedade.

Na justificativa, Débora cita o princípio da publicidade, previsto no artigo 37 da Constituição Federal, como fundamento da proposta. “Todos os atos praticados pelos administradores públicos devem ser transparentes, visto que, como representantes da população, devem prestar contas de seus atos, que sempre devem estar voltados ao interesse público”, afirmou a vereadora.

A parlamentar também argumenta que a presença de servidor efetivo em reuniões com empresas ajudaria a reforçar a lisura dos encontros e o caráter institucional das decisões administrativas. Para ela, a transparência precisa ser tratada como regra, especialmente em processos que envolvem contratos públicos, concessões e serviços essenciais.

Débora afirma que a proposta segue uma prática já adotada na própria Câmara Municipal. Em 2022, quando presidiu o Legislativo, ela implantou a divulgação das agendas da presidência da Casa. “Com essa iniciativa, os cidadãos campineiros passam a ter mais instrumentos para acompanhar e fiscalizar os atos de seus representantes”, declarou.

O projeto ainda precisa passar pelos trâmites internos da Câmara antes de ser levado à votação em plenário. Se aprovado, o Executivo municipal terá de estruturar a publicação das agendas e adequar a rotina de reuniões com empresas contratadas ou interessadas em contratos com a administração.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br

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