POLÍTICA

Flávio Paradella: Vini entra em zona de risco real de cassação

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 8 min
Divulgação/CMC
Aprovação unânime da Comissão Processante expõe isolamento político e descontentamento com o vereador dentro da Câmara de Campinas.
Aprovação unânime da Comissão Processante expõe isolamento político e descontentamento com o vereador dentro da Câmara de Campinas.

O resultado já era esperado nos bastidores, mas a forma como aconteceu chamou atenção. A Comissão Processante contra Vini Oliveira foi aprovada de lavada, sem resistência significativa do plenário e sem qualquer demonstração de que o vereador possua uma base política minimamente organizada dentro da Câmara de Campinas.

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Mais do que as imagens exibidas pela televisão ou as dúvidas que ainda cercam o encontro em Paulínia, a votação revelou algo talvez ainda mais preocupante para o parlamentar: seu profundo isolamento político dentro do Legislativo.

A abertura de uma Comissão Processante não significa culpa, muito menos cassação automática. Mas seria ingenuidade ignorar o tamanho do recado dado pelos vereadores. Quando 29 parlamentares votam pela abertura de uma investigação e ninguém se dispõe a defender publicamente o colega, o problema deixa de ser apenas jurídico ou administrativo. Ele passa a ser essencialmente político.

E política, goste-se ou não, é feita de relações.

Vini construiu sua trajetória enfrentando colegas, atacando vereadores, expondo supostas contradições e denunciando situações que considerava irregulares. Essa estratégia lhe trouxe enorme popularidade nas redes sociais e o transformou em um fenômeno eleitoral. Mas também produziu um efeito colateral previsível: a destruição quase completa de pontes dentro da própria Câmara.

O vereador acumulou adversários na esquerda, na direita, na base governista e até entre parlamentares que em algum momento mantiveram relação minimamente cordial com ele. Vini não apenas confrontou adversários políticos, mas também expôs situações pessoais e privadas de colegas que antes mantinham algum grau de proximidade.

Na política, poucas coisas custam tão caro quanto transformar aliados em desafetos.

E a votação desta segunda-feira parece ter sido o retrato mais claro disso.

É importante registrar que o caso segue cercado de nuances. Não existe até aqui acusação formal de recebimento de dinheiro. Não existe prova pública de propina. Não existe denúncia criminal relacionada ao conteúdo dos envelopes.

Mas também é verdade que as imagens são extremamente ruins para alguém que construiu sua imagem pública justamente como fiscal implacável da política tradicional. O antissistema.

A situação se agravou ainda mais porque o pronunciamento do vereador não conseguiu encerrar as dúvidas centrais do episódio. Pelo contrário. Para muitos vereadores, as explicações foram insuficientes diante da gravidade política da situação.

Também pesaram as informações que surgiram posteriormente sobre o encontro com representantes ligados ao grupo vencedor do Lote Norte da licitação do transporte coletivo. A revelação de que a conversa envolveu personagens diretamente ligados ao setor e abordou temas relacionados ao sistema de transporte tornou o ambiente ainda mais delicado.

Há ainda um dado simbólico que chama atenção nessa crise: a ausência de mobilização em torno do vereador. Eleito com mais de 11 mil votos e dono de uma rede que ultrapassa 281 mil seguidores apenas no Instagram, Vini não conseguiu converter esse capital digital em presença física na Câmara. Diferentemente de outros parlamentares, da direita e da esquerda, que em momentos de ameaça política costumam lotar galerias com apoiadores, o vereador enfrentou a abertura da Comissão Processante sem demonstração de apoio.

O mundo virtual que ajudou a elegê-lo não apareceu no momento mais delicado de sua curta carreira política. E isso revela uma fragilidade importante. Curtidas, compartilhamentos e visualizações geram alcance e influência, mas nem sempre se transformam em sustentação política real quando a crise sai das redes sociais e desembarca no plenário. A impressão deixada é a de uma base extremamente engajada no ambiente digital, mas insípida no mundo concreto.

Hoje, a avaliação predominante nos corredores da Câmara é dura e direta: se a votação da cassação acontecesse agora, Vini perderia o mandato.

Isso não significa que esse será necessariamente o desfecho.

Processos de cassação costumam ser longos. Testemunhas serão ouvidas. Documentos serão analisados. Novos fatos podem surgir. A defesa terá espaço para se manifestar. O próprio ambiente político pode mudar ao longo dos próximos meses.

Mas, olhando exclusivamente para o cenário atual, o prognóstico é extremamente desfavorável.

O sorteio da Comissão Processante também não produziu exatamente uma configuração confortável para o vereador. O grupo será comandado por Paulo Haddad (PSD), terá como relator Otto Alejandro (PL), que já mandou recado a Vini ao ser escolhido, e contará ainda com Dr. Yanko (PP) como membro.

Independentemente da atuação futura dos três parlamentares, a composição reforça a percepção de que Vini terá uma caminhada difícil pela frente.

Outro elemento chama atenção. Durante meses, o vereador utilizou a narrativa de perseguição política para fortalecer sua imagem junto aos seguidores. Em diversas ocasiões, essa estratégia funcionou. Mas a situação atual parece diferente.

Desta vez, a crise não nasceu de uma denúncia abstrata, de uma divergência ideológica ou de uma disputa política convencional. Ela nasceu de imagens concretas que produziram forte impacto na opinião pública e dentro da própria Câmara.

Por isso, o discurso de perseguição encontra mais resistência do que em episódios anteriores.

O que se vê hoje no Legislativo é uma combinação perigosa para qualquer parlamentar: imagens ruins, explicações consideradas insuficientes, ausência total de aliados dispostos a comprar sua defesa e uma base digital que, até aqui, não se traduziu em mobilização efetiva.

Nada disso representa uma sentença antecipada.

Mas representa algo que talvez seja quase tão grave quanto.

Representa a percepção crescente, dentro da Câmara, de que Vini Oliveira entrou em um processo autodestrutivo cuja tendência, neste momento, aponta muito mais para o desfecho traumático do que para a absolvição.

Uma outra lógica


Divulgação/CMC

A sessão desta segunda-feira (1º) foi uma aula prática sobre o funcionamento da política dentro da Câmara de Campinas. E não necessariamente sobre moralidade, ética ou lisura administrativa. A principal comparação da noite surgiu justamente da sequência dos fatos.

Primeiro, o plenário aprovou por ampla maioria a abertura da Comissão Processante contra o vereador Vini Oliveira (Cidadania). Pouco depois, analisou o pedido de CP contra Edison Ribeiro (União Brasil) e decidiu arquivá-lo por 26 votos a 3.

A proximidade entre as duas votações tornou inevitável a comparação. E talvez ela diga mais sobre o ambiente político da Câmara do que sobre os próprios processos.

É importante deixar claro que os casos são diferentes. Mas há um detalhe que chama atenção. O pedido contra Edison Ribeiro estava fundamentado em uma investigação já em andamento do Ministério Público. A ação civil pública apura suspeitas de rachadinha, prática em que assessores devolveriam parte dos salários recebidos, além do suposto uso irregular de máquinas públicas da Administração Regional 13 em benefício de um evento ligado ao parlamentar.

A investigação avançou a ponto de a Justiça autorizar a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Edison Ribeiro e de seu filho, André Cristhiano Cayres Ribeiro. O Ministério Público também pede ressarcimento aos cofres públicos, perda do mandato e suspensão dos direitos políticos.

Naturalmente, nada disso significa condenação. Edison tem direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Caberá à Justiça analisar os fatos e decidir sobre o mérito das acusações.

Mas o resultado político foi cristalino.

Enquanto Vini Oliveira viu prosperar uma Comissão Processante por 29 votos favoráveis, Edison Ribeiro assistiu ao arquivamento de sua representação sem grandes dificuldades. Apenas Mariana Conti e Fernanda Souto, do PSOL, e Débora Palermo, do PL, votaram pela abertura da investigação política.

O episódio reforça uma constatação conhecida nos bastidores do Legislativo: Comissões Processantes são instrumentos jurídicos, mas profundamente políticos. A admissibilidade de uma denúncia depende do voto dos vereadores e, nesse momento, entram em cena fatores que vão muito além do conteúdo da acusação.

Há ainda outra diferença relevante entre os dois casos. O episódio envolvendo Vini Oliveira chegou ao plenário carregado por imagens que causaram forte repercussão pública e desgaste imediato ao vereador. Já o caso Edison está concentrado em investigações, documentos, depoimentos e decisões judiciais. Possui gravidade evidente, mas não produz o mesmo impacto visual que costuma mobilizar rapidamente a opinião pública.

Outro detalhe chamou atenção durante a sessão. Praticamente ninguém quis falar sobre Edison Ribeiro.

Assim como já havia acontecido quando veio à tona a quebra dos sigilos bancário e fiscal do parlamentar, o assunto passou quase em silêncio pelo plenário. Não houve discursos inflamados, mobilizações ou manifestações mais contundentes sobre o mérito das acusações.

Um silêncio que fala por si só.

E talvez isso também tenha explicação política. Afinal, denúncias envolvendo gabinetes, assessores e estruturas de poder costumam ser temas sensíveis em qualquer Legislativo. Muitos preferem manter distância prudente desse tipo de debate.

No fim das contas, a rejeição da Comissão Processante não altera absolutamente nada no campo judicial. A ação do Ministério Público continua tramitando. As investigações seguem em andamento. A quebra de sigilos permanece válida. E as acusações continuarão sendo analisadas pela Justiça.

O que a Câmara decidiu foi outra coisa.

Decidiu que, neste momento, não pretende transformar o caso Edison Ribeiro em uma crise política dentro do Legislativo.

E a mensagem ficou ainda mais evidente porque essa decisão ocorreu poucos minutos depois da abertura da Comissão Processante contra Vini Oliveira.

Dois vereadores. Duas denúncias. Dois tratamentos completamente diferentes.

A política, às vezes, consegue ser mais reveladora do que qualquer discurso.

Feriadão

Aos leitores da coluna, um excelente feriadão prolongado de Corpus Christi. Aproveitem as festas juninas. Eu vou curtir com a família e tiro uma pequena folga. Na próxima terça-feira, voltaremos a nos encontrar.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br

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