Há crises que começam pelo fato. Outras começam pela imagem. No caso de Vini Oliveira (Cidadania), o problema político nasceu justamente da força visual da cena: uma reunião reservada com personagens ligados ao transporte, uma caixa preta sobre a mesa, envelopes colocados no interior dela e o material saindo com o grupo do vereador. Até aqui, não há acusação formal de crime, nem prova pública de que havia dinheiro ou qualquer vantagem indevida. Mas a política, muitas vezes, é esmagada antes pela aparência do que pelo processo.
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A resposta de Vini, publicada quase 24 horas depois da reportagem da TH+ Record, não encerrou a crise. O vereador afirmou que os envelopes continham drives com dados e documentos sobre o sistema de transporte, disse que encaminhou o material ao Ministério Público e negou ter recebido dinheiro. O problema é que a explicação veio sem o grau de detalhamento que o episódio exigia. Ele deu uma versão, mas não apresentou elementos suficientes para matar a dúvida.
Nos bastidores da Câmara, vereadores e pessoas ligadas ao Legislativo ouvidas pela coluna avaliam que, neste momento, há ambiente muito favorável para a abertura de uma nova Comissão Processante contra o parlamentar. A leitura é simples: a imagem é forte demais para ser ignorada e o vereador precisa esclarecer, de forma mais contundente, o que recebeu, de quem recebeu, por qual motivo recebeu e qual foi o destino efetivo do material.
A demora também pesou. A reportagem foi exibida na noite de quarta-feira, e Vini levou quase um dia inteiro para reaparecer. Ainda assim, ultrapassou o horário que ele próprio havia anunciado para o pronunciamento. Para parlamentares da Casa, a impressão foi de que o vereador buscava uma estratégia mais robusta de defesa, mas acabou entregando um vídeo simples, insuficiente para encerrar o assunto. Em tempos de imediatismo, a dúvida não espera. Ela cresce.
Outro ponto que joga contra Vini é o ambiente político que ele próprio ajudou a construir. O vereador se notabilizou por ataques duros, confrontos, fiscalizações midiáticas e críticas constantes a colegas, empresas e integrantes do governo. Esse estilo lhe rendeu votos, seguidores e até uma base, mas também acumulou adversários em praticamente todos os campos. Vini é odiado pela esquerda e pouco querido por boa parte da situação. Em um momento de fragilidade, esse isolamento pesa.
É preciso repetir: ninguém provou que havia dinheiro nos envelopes. O conteúdo segue sem comprovação pública. Vini diz que eram mídias digitais com documentos sobre o transporte. Mas a versão ainda carece de detalhes. O parlamentar afirmou que seu sigilo bancário está à disposição, frase de efeito que soa forte nas redes, mas tem eficácia limitada: dinheiro em espécie só aparece em conta se for depositado. Para um político com sua experiência digital, Vini deveria saber que esse tipo de lacuna alimenta suspeitas.
O que também chama atenção é que parte das informações mais relevantes não veio do próprio vereador, mas da imprensa. Hoje se sabe, por causa de reportagem do jornal Correio Popular, que o encontro ocorreu na sede da Smile, às margens da Rodovia Zeferino Vaz, em Paulínia, e que o empresário com quem Vini conversou por cerca de duas horas era Emerson de Jesus, presidente do grupo Rhema. Rhema e Smile integram o Consórcio Grande Campinas, vencedor do Lote Norte da licitação do transporte coletivo de Campinas. A conversa teria envolvido, entre outros pontos, a prorrogação dos atuais contratos do transporte, tema em que Vini se posicionou de forma veemente contra.
Tudo isso poderia ter sido explicado espontaneamente pelo próprio parlamentar. Não foi. E esse é o ponto central. Vini tinha a chance de tentar esmontar a suspeita com precisão cirúrgica, dizendo onde estava, quem eram os interlocutores, qual era a pauta da reunião, quais documentos recebeu, o que havia nos drives e qual protocolo foi feito junto ao Ministério Público. Preferiu uma resposta mais genérica, sem expor vários elementos.
Há ainda um componente simbólico difícil de ignorar. Um vereador que se apresenta como defensor da moralidade pública escuta um representante de grupo vencedor de uma das licitações mais complexas da história de Campinas dizer frases como “não existe política sem finanças” e “não existe poder político sem poder econômico” — e isso, por si só, exigiria uma explicação ainda mais robusta.
Se Vini acredita que foi vítima de uma armação, como afirma, deveria dizer que realizou a arapuca. E, repito, talvez não devesse temer uma Comissão Processante. Uma CP poderia, inclusive, servir para convocar personagens, exigir documentos, expor contradições e trazer à luz seus supostos perseguidores.
Insisto. Não há condenação, não há acusação e não há prova pública de irregularidade. Mas há perguntas demais sem resposta suficiente. E, na política, quando o silêncio ou a explicação incompleta deixam espaço vazio, esse espaço é ocupado por corrosiva suspeita.
Uma estrada sinuosa

Divulgação/CMC
A segunda-feira promete ser decisiva para o futuro político do vereador Vini Oliveira (Cidadania). A Câmara Municipal de Campinas tem três pedidos de abertura de Comissão Processante (CP) contra o parlamentar e, caso a Procuradoria Jurídica da Casa considere que os requerimentos cumprem os requisitos legais, eles obrigatoriamente terão que ser apreciados pelo plenário logo no início da Ordem do Dia.
Muita gente imagina que os vereadores podem simplesmente ignorar os pedidos ou deixá-los na gaveta. Não é assim que funciona. Se a Procuradoria entender que os documentos atendem às exigências do Decreto-Lei 201/67, a leitura e votação passam a ser obrigatórias. E Comissão Processante tem prioridade na pauta, figurando entre os primeiros itens a serem apreciados pelos parlamentares.
Dos três pedidos protocolados, dois tratam exatamente do mesmo episódio: as imagens de Vini e sua caixa preta.
O primeiro pedido foi apresentado pela vereadora Mariana Conti (PSOL). O segundo foi protocolado por Adriano Novo. Como ambos tratam essencialmente dos mesmos fatos, a tendência é que apenas o primeiro protocolo siga para apreciação. Trata-se de um rito já consolidado. Quando duas denúncias possuem o mesmo objeto, prevalece aquela que chegou primeiro ao Legislativo.
Na prática, isso significa que o pedido de Mariana Conti deve absorver o debate principal sobre o episódio envolvendo os envelopes e a reunião em Paulínia. A vereadora não poderá votar no pedido protocolado por ela. Nessa votação, deverá ser convocado o suplente do partido.
Já o terceiro requerimento, protocolado por Aparecido José de Oliveira, segue outro caminho. A denúncia trata de suposta irregularidade envolvendo uma assessora parlamentar e aborda fatos distintos daqueles apresentados nos demais pedidos. Por isso, caso atenda aos requisitos formais, também poderá ser submetido à votação de forma independente.
Nos bastidores da Câmara, a avaliação predominante é que o pedido apresentado por Mariana Conti possui hoje chances reais de ser admitido pelo plenário.
A percepção entre parlamentares é que as imagens tiveram forte impacto político e que o pronunciamento feito por Vini ficou muito longe de encerrar as dúvidas surgidas após a divulgação da reportagem. Hoje, Vini enfrenta um ambiente político significativamente mais hostil do que enfrentaria em circunstâncias normais.
Ainda assim, é importante destacar que a eventual abertura de uma Comissão Processante não representa condenação nem cassação automática. A admissibilidade apenas abre uma fase de investigação política. A partir daí, uma comissão formada por vereadores sorteados passa a conduzir os trabalhos, garantindo direito de defesa, apresentação de provas e manifestação do parlamentar.
O que parece certo é que o vereador viverá um dos finais de semana mais longos de sua curta carreira política.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br