POLÍTICA

Flávio Paradella: MP suspende cortes na Praça do Coco

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação/PMC
Ministério Público mandou suspender novas intervenções e pediu contralaudo técnico sobre árvores em Barão Geraldo.
Ministério Público mandou suspender novas intervenções e pediu contralaudo técnico sobre árvores em Barão Geraldo.

O Ministério Público de São Paulo determinou a suspensão imediata de qualquer nova intervenção na Praça do Coco, em Barão Geraldo, após a polêmica envolvendo cortes e podas de árvores no local. A decisão foi tomada nesta quarta-feira, 13 de maio, pela promotora de Justiça Luciana Ribeiro Guimarães Viegas de Carvalho.

  • Clique aqui para fazer parte da comunidade da Sampi Campinas no WhatsApp e receber notícias em primeira mão.

A promotora expediu ofício à Secretaria Municipal de Serviços Públicos de Campinas para que a Prefeitura interrompa a extração do exemplar arbóreo remanescente e não realize novas ações na praça até nova deliberação.

O Ministério Público também determinou que a administração municipal apresente um contralaudo técnico, feito por profissionais habilitados, com vistoria presencial e metodologia adequada. O objetivo é esclarecer a divergência entre os pareceres já apresentados sobre o estado das árvores.

A decisão atende a uma manifestação encaminhada ao MP pela Associação Movimento Resgate o Cambuí e pelo Comdema, o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente. No despacho, a promotora reconheceu a validade do laudo técnico apresentado pelo conselho, que apontou falhas graves na intervenção realizada no início do mês.

O episódio ganhou repercussão depois que a Prefeitura promoveu cortes e podas consideradas radicais por moradores, ambientalistas e integrantes do Comdema. A ação gerou protestos na praça, críticas nas redes sociais e uma disputa técnica sobre a real condição das árvores.

De um lado, a Prefeitura apresentou parecer externo assinado pelo professor Demóstenes Ferreira da Silva Filho, da Esalq-USP. O documento sustentou que duas árvores extraídas estavam em “péssimo estado geral” e representavam risco aos frequentadores da praça.

De outro, o laudo apresentado pelo Comdema, relatado pelo engenheiro florestal e agrônomo José Hamilton de Aguirre Júnior, afirmou que as intervenções incluíram “supressão e podas consideradas tecnicamente injustificadas”. Segundo essa análise, parte das árvores afetadas estava saudável e não apresentava risco que justificasse remoção ou medidas drásticas.

Com a nova manifestação do Ministério Público, a controvérsia passa a depender de uma nova avaliação técnica antes de qualquer continuidade nas intervenções. Até lá, a Prefeitura deve manter suspensas ações de corte, poda ou extração na Praça do Coco.

Nota da Prefeitura

A extração da árvore restante já foi suspensa e a Prefeitura já está providenciando o contra laudo técnico, conforme solicitou o Ministério Público.

Sob sombra da crise bolsonarista

O lançamento da pré-candidatura de Guilherme Derrite ao Senado, marcado para esta sexta-feira em Campinas, deveria ser um grande ato político de demonstração de força da direita paulista rumo às eleições de 2026. Mas o evento chega cercado por uma turbulência inesperada — e altamente desconfortável — para o bolsonarismo.

A bomba da vez veio com a divulgação do áudio do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, pedindo ajuda financeira ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O problema é que Vorcaro virou um dos personagens centrais do escândalo envolvendo o banco Master, hoje tratado como um dos mais explosivos casos recentes do mercado financeiro nacional.

E isso inevitavelmente muda o ambiente político do encontro em Campinas. O evento no Royal Palm Plaza vinha sendo vendido como uma demonstração de unidade e força do grupo ligado a Tarcísio de Freitas, Derrite e Bolsonaro. Agora, nos bastidores, já existe dúvida real sobre a presença de Flávio Bolsonaro no palco campineiro, dependendo da repercussão política e do desgaste ao longo desta quinta e sexta. Porque política também é termômetro. E ninguém gosta de posar para fotografia no epicentro de uma crise.

O curioso é que o evento tinha justamente a intenção oposta: consolidar Guilherme Derrite como um dos principais nomes do bolsonarismo paulista para o Senado e reforçar a musculatura eleitoral do grupo para 2026. Campinas foi escolhida de forma estratégica. Segundo o próprio Derrite, a ideia replica o modelo utilizado na largada da campanha de Tarcísio de Freitas ao governo em 2022. Não é coincidência: Campinas e a Região Metropolitana seguem sendo áreas extremamente relevantes para a direita paulista, tanto eleitoralmente quanto simbolicamente.

Derrite tenta ocupar um espaço muito claro dentro desse tabuleiro: o da segurança pública como bandeira principal. Ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, ele aposta no discurso de endurecimento penal, combate ao crime organizado e redução da maioridade penal para consolidar sua identidade eleitoral. Durante entrevista à Jovem Pan News Campinas, concedida antes da explosão contra Flávio, voltou a defender penas mais duras, classificação de facções como organizações terroristas e ampliação do rigor contra o crime organizado. É um discurso que conversa diretamente com uma parcela significativa do eleitorado conservador paulista.

Mas o problema é que a política raramente permite controle total de narrativa. E o escândalo envolvendo o áudio de Flávio Bolsonaro joga uma sombra incômoda justamente no momento em que a direita paulista tentava construir uma imagem de organização e preparação para 2026. Além disso, o episódio traz um componente delicado para o bolsonarismo: a aproximação e intimidade com personagens ligados a suspeitas e investigações. Isso desmonta, de novo, aquela velha retórica de “nova política” e “combate ao sistema” que ajudou a impulsionar o grupo em 2018.

O evento desta sexta-feira, portanto, continua relevante. Mas já não será apenas um lançamento de pré-candidatura. Será também um teste de temperatura política para medir o tamanho do desgaste provocado pela nova crise que atingiu o núcleo bolsonarista.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br.

Comentários

Comentários