POLÍTICA

Flávio Paradella: Protesto ultrapassa limite do razoável

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 8 min
Divulgação/STU
Manifestação bloqueou acessos estratégicos do distrito e afeta hospitais, consultas, trabalhadores e pacientes em Campinas.
Manifestação bloqueou acessos estratégicos do distrito e afeta hospitais, consultas, trabalhadores e pacientes em Campinas.

O direito à greve e à manifestação é legítimo, democrático e precisa ser respeitado. Trabalhadores e estudantes têm todo o direito de protestar, reivindicar melhorias e pressionar por negociações. O problema é quando o ato deixa de atingir o poder público e passa a penalizar justamente a população que nada tem a ver com o impasse. E foi exatamente isso que aconteceu na manhã desta terça-feira em Campinas.

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A manifestação de estudantes e trabalhadores da Unicamp bloqueou dois dos principais acessos ao distrito de Barão Geraldo: a região da Avenida Guilherme Campos, próxima à Rodovia Dom Pedro I, e também a entrada pela Rodovia Zeferino Vaz, no trecho conhecido como Tapetão. O resultado foi um cenário de caos, congestionamentos quilométricos e milhares de pessoas impedidas de seguir suas rotinas.

E não estamos falando apenas de atraso para trabalho ou compromisso cotidiano — o que já seria grave. O protesto comprometeu acessos fundamentais para a área da saúde. Ficaram prejudicadas rotas para a Sobrapar, para o Centro Infantil Boldrini, referência nacional no tratamento de câncer infantil, além do Hospital de Clínicas da Unicamp, do Hemocentro e de outras unidades médicas da região.

É aí que o protesto deixa de ser apenas um ato político e passa a entrar em uma zona extremamente perigosa. Porque impedir ou dificultar o acesso de pacientes a hospitais, consultas, exames e tratamentos beira a irresponsabilidade absoluta. Em casos médicos, minutos fazem diferença. Há pessoas em tratamento oncológico, pacientes fragilizados, famílias aflitas e situações de urgência que simplesmente não podem ficar reféns de um bloqueio viário.


Manifestação na Unicamp também afetou trânsito no Tapetão e no Trevo de Barão Geraldo (Rota das Bandeiras)

Os manifestantes argumentam que é preciso chamar atenção da sociedade para aquilo que consideram descaso da universidade e do governo em relação às reivindicações. Mas a estratégia adotada produz exatamente o efeito contrário. Em vez de gerar empatia, desperta indignação. Em vez de aproximar a população da pauta, cria revolta. Quem ficou preso no trânsito hoje não saiu defendendo os grevistas. Saiu irritado por perder consulta, atendimento, compromisso profissional ou horas do próprio dia.

As reivindicações podem até ser legítimas. Trabalhadores questionam o reajuste salarial de 3,47% apresentado pelo Cruesp e estudantes levantam pautas importantes sobre moradia, estrutura universitária e assistência. Tudo isso faz parte do debate democrático. Mas quando o método escolhido atinge de forma brutal terceiros que nada têm a ver com a negociação, a pauta acaba maculada pela própria condução do movimento.

É preciso também refletir sobre proporcionalidade. Um pequeno grupo não pode simplesmente sequestrar o direito de ir e vir de toda uma região estratégica da cidade. Barão Geraldo abriga universidades, centros médicos, laboratórios, empresas e serviços essenciais. Bloquear seus acessos significa atingir milhares de pessoas simultaneamente.

No fim, o protesto desta terça-feira reforça uma velha máxima dos movimentos sociais: a forma como se protesta pode ser tão importante quanto a pauta defendida. E hoje, em Campinas, a estratégia adotada parece ter afastado muito mais apoio do que conquistado solidariedade.

Um crime brutal


Divulgação/CMC

O bárbaro feminicídio registrado no último final de semana em Campinas inevitavelmente chegou ao plenário da Câmara Municipal. E não poderia ser diferente. O caso é grave demais, doloroso demais e simbólico demais para passar distante do debate público, ainda mais porque o autor do crime é um agente da Guarda Municipal, justamente uma corporação criada para proteger vidas.

Mas, diante de uma tragédia dessa dimensão, há um detalhe importante que merece registro: governo e oposição tiveram maturidade para evitar transformar o caso em um palanque político. E isso, convenhamos, já é algo raro em tempos de hiperpolarização.

A vereadora Guida Calixto (PT) havia protocolado um requerimento de convocação do secretário municipal de Segurança Pública, Christiano Biggi Dias, para prestar esclarecimentos sobre o episódio envolvendo o guarda municipal Daniel Barbosa Marinho, acusado de matar a esposa, Nájylla Duenas Nascimento, durante a própria festa de casamento, no DIC IV.

O movimento ganhou apoio das vereadoras Paolla Miguel (também do PT), Fernanda Souto e Mariana Conti (ambas do PSOL). A preocupação apresentada pelas parlamentares é legítima: discutir se existem falhas estruturais, de acompanhamento psicológico, treinamento e prevenção dentro da corporação.

Mas o ponto mais relevante foi justamente o desfecho político inicial da situação. Após diálogo com o líder do governo, Paulo Haddad (PSD), houve um acordo para que o secretário compareça à Câmara sem necessidade de uma convocação formal. O requerimento acabou retirado e o ambiente, ao menos por enquanto, saiu da lógica do confronto político para entrar em um campo mais responsável de discussão institucional.

E isso é fundamental. Porque a linha entre cobrar explicações e politizar uma tragédia humana é extremamente tênue. Transformar um feminicídio em guerra ideológica seria algo deplorável e desrespeitoso com a vítima, com a família e com a própria gravidade do problema.

O episódio mostra novamente uma discussão que o Brasil insiste em fazer apenas depois das tragédias: saúde mental, treinamento emocional e mecanismos preventivos dentro das forças de segurança. Não se trata de generalizar corporações ou criar caça às bruxas contra guardas municipais e policiais. Trata-se de entender que profissionais armados, submetidos diariamente a ambientes de tensão, violência e pressão psicológica, também precisam de acompanhamento constante.

E há outro ponto impossível de ignorar: vivemos uma sociedade brutalmente violenta contra as mulheres. Os números de feminicídio crescem ano após ano e os casos chocam justamente pela crueldade cada vez mais frequente. O assassinato de Nájylla durante uma festa que deveria simbolizar celebração e começo de uma nova etapa da vida demonstra essa realidade de maneira ainda mais perturbadora.

Segundo o boletim de ocorrência, a confraternização terminou em discussão, agressões e disparos. Testemunhas relataram que o guarda municipal deixou o local após os primeiros tiros e retornou minutos depois para efetuar novos disparos contra a esposa. Uma cena absolutamente devastadora.

A Corregedoria da Guarda Municipal instaurou procedimento administrativo disciplinar contra Daniel Barbosa Marinho e determinou seu afastamento preventivo por 90 dias. A Justiça também converteu a prisão em flagrante em preventiva. O processo pode resultar na expulsão definitiva do servidor da corporação.

Agora, mais do que discursos inflamados ou disputas políticas, Campinas precisa aproveitar esse episódio doloroso para discutir políticas concretas de prevenção. Porque feminicídio não se combate apenas depois da tragédia consumada. Se combate antes, com acolhimento, prevenção, fiscalização, acompanhamento psicológico e uma mudança profunda de comportamento social.

E talvez esse seja o principal desafio: conseguir debater um tema tão grave sem transformar dor em espetáculo político.

Silêncio no plenário


Divulgação/CMC

Como já era amplamente esperado, o avanço da investigação contra o vereador Edison Ribeiro simplesmente passou em branco na sessão desta segunda-feira da Câmara Municipal de Campinas. Nenhum discurso inflamado, nenhuma cobrança pública, nenhuma fala mais contundente. Apenas o silêncio. E, em política, há silêncios que falam mais do que qualquer pronunciamento.

A sessão transcorreu normalmente, como se a decisão judicial que autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do parlamentar e de seu filho fosse apenas um detalhe periférico da vida pública campineira. Não é. Trata-se de uma investigação séria sobre suspeita de rachadinha e possível uso indevido de maquinário público — temas extremamente delicados para qualquer Legislativo.

Mas talvez justamente aí esteja a explicação para o constrangedor mutismo do plenário. O tema é sensível demais dentro de uma Câmara que, historicamente, já conviveu com episódios semelhantes envolvendo gabinetes, assessores e estruturas políticas locais. Mexer nesse vespeiro significa abrir uma discussão que muitos preferem manter abafada.

Edison Ribeiro, no entanto, esteve presente na sessão e fez uso da palavra. Citou o caso rapidamente, quase de passagem, sem aprofundar o assunto, mas deixou uma frase que chamou atenção no plenário: “não temo”. Em outro momento, em tom mais político e até provocativo, disparou que “ninguém chuta cachorro morto”.

A fala pareceu carregar um recado claro: Edison tenta demonstrar força política e transmitir a ideia de que segue vivo eleitoralmente e poderoso dentro de sua base histórica no Satélite Íris e na região do Campo Grande. É um estilo já conhecido do vereador, figura considerada quase folclórica na política campineira, mas que mantém capital eleitoral consolidado há décadas.

Ainda assim, o cenário é delicado. Porque a investigação conduzida pelo Ministério Público entrou em outro patamar a partir do momento em que a Justiça autorizou o acesso às movimentações financeiras e fiscais dos investigados. Isso eleva a profundidade da apuração e aumenta naturalmente o desgaste político.

A defesa nega irregularidades e afirma que tudo será esclarecido durante a instrução processual. E isso precisa ser respeitado. Há direito à ampla defesa, contraditório e presunção de inocência. O processo ainda está longe de uma conclusão definitiva.

Mas politicamente o dano já existe. E talvez o aspecto mais preocupante de tudo isso seja justamente a naturalização. Campinas vive uma sequência tão intensa de denúncias, pedidos de CPs, investigações e crises envolvendo vereadores que episódios graves começam a ser tratados quase como rotina burocrática do Legislativo.

Esse talvez seja o maior problema institucional. Porque quando um caso dessa magnitude não gera praticamente nenhuma reação pública dentro do plenário, fica a sensação de anestesia política. Como se o escândalo permanente tivesse virado paisagem.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br.

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