A crise envolvendo a retirada das bancas do Centro de Campinas entrou em um novo estágio — e ele deixa ainda mais evidente que a decisão inicial foi mal calibrada. Após forte repercussão negativa, a Prefeitura recuou e suspendeu temporariamente a retirada das 52 estruturas instaladas em praças históricas da cidade.
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O movimento foi tão intenso que o próprio Dário Saadi precisou ir às redes sociais para tentar conter o desgaste, atribuindo a decisão ao Condepacc.
Mas a realidade, como sempre na política, é mais complexa.
Fontes ouvidas pela coluna, que participaram da reunião do Conselho em março, indicam que o tema não surgiu de forma espontânea. A pauta foi levada por secretarias da própria Prefeitura, especialmente Cultura e Urbanismo. E isso muda completamente o eixo da discussão.
O Condepacc não é um órgão isolado. Ele é formado por representantes do próprio governo, além de universidades, entidades e conselhos. E é presidido pela secretária de Cultura e Turismo, Alexandra Caprioli.
Ou seja, é difícil sustentar a narrativa de que a decisão foi externa à gestão municipal.
O que se desenha é outro cenário: a Prefeitura testou uma medida, possivelmente alinhada com interesses técnicos e até econômicos, mas subestimou a reação.
E ela veio em várias frentes.
Primeiro, dos permissionários, que ocuparam o plenário da Câmara Municipal de Campinas. Depois, dos vereadores — todos, sem exceção, da base à oposição, contra a retirada.
E, talvez mais decisivo, da opinião pública.
O episódio ganhou um componente ainda mais sensível quando setores empresariais se manifestaram favoráveis à retirada. Não é novidade que parte do comércio formal vê essas bancas como concorrência incômoda, especialmente em regiões como a Rua 13 de Maio e a Praça Rui Barbosa.
O que antes parecia uma discussão técnica virou um embate de interesses.
De um lado, a preservação do patrimônio e a reorganização urbana.
Do outro, trabalho, renda e a ocupação histórica do Centro.
Diante desse choque, a Prefeitura fez o que a política costuma fazer quando erra o cálculo: recuou.
Agora, entra em cena o conceito da vez: “modulação”.
Na prática, isso significa ajustar os efeitos da decisão — prazos, abrangência, impacto — sem necessariamente mudar o conteúdo principal. É uma saída intermediária. Nem mantém tudo como está, nem executa a decisão de forma abrupta.
A nova discussão será conduzida pelo próprio Condepacc, na reunião marcada para quinta-feira. E a expectativa é que dali saia um caminho mais “palatável”.
Mas o episódio já deixa algumas marcas importantes.
A primeira é política: a gestão claramente não esperava o tamanho da reação. Apostou que a resistência ficaria restrita aos permissionários. Errou.
A segunda é institucional: mais uma vez, fica evidente a dificuldade de alinhamento entre os próprios órgãos públicos.
E a terceira é estratégica: decisões desse tipo não podem ser tratadas como burocracia. Afetam diretamente a dinâmica urbana, a economia local e a percepção da população sobre o poder público.
Agora, Prefeitura e Condepacc falam em diálogo, grupo de trabalho e critérios técnicos.
Mas isso deveria ter vindo antes.
Porque, no fim, o que se viu foi um movimento clássico:
testa-se uma medida, mede-se a reação… e depois se corrige o rumo.
A questão é saber até onde vai essa correção.
Porque uma coisa já está clara: do jeito que estava, não vai ficar.
Prorrogação do atual sistema

Divulgação/PMC
A votação em regime de urgência, nesta quarta-feira, da prorrogação dos contratos do transporte coletivo em Campinas escancara mais um capítulo de uma novela que parece não ter fim — e, principalmente, expõe um erro clássico de condução: a informação chegou depois da crise.
A proposta da Prefeitura, enviada pelo governo de Dário Saadi à Câmara Municipal, tenta garantir a continuidade do serviço enquanto a nova concessão não entra em operação. Do ponto de vista técnico, há justificativas plausíveis. A própria Emdec aponta que a transição pode levar entre 11 e 14 meses, envolvendo análise documental, estruturação das empresas vencedoras e início da operação.
Mas o problema não está apenas no conteúdo. Está na forma.
A Prefeitura deixou o debate estourar primeiro. Só depois apresentou as explicações. E aí tentou remediar quando poderia ter prevenido. O velho ditado popular é didático sobre qual a melhor solução.
O resultado é um ambiente contaminado.
O Conselho Municipal de Mobilidade Urbana de Campinas se posicionou contra a proposta, especialmente pelo prazo de até três anos. Para a maioria dos integrantes, o período é excessivo e não dialoga com o próprio cronograma da nova licitação. O colegiado foi direto ao defender que um contrato emergencial de até um ano seria suficiente.
Ou seja, o que deveria ser uma solução técnica virou disputa de interpretação.
De um lado, a Emdec fala em “margem de segurança jurídica”. De outro, o Conselho vê exagero no prazo. No meio disso tudo, a Câmara é chamada a decidir em caráter de urgência — com o tema ainda quente e mal explicado para a população.
E o cenário ganha ainda mais tensão com o cancelamento da reunião da Frente Parlamentar que discutiria, nesta segunda-feira, justamente os detalhes dessa transição. Um encontro que poderia ajudar a esclarecer acabou não acontecendo às vésperas da votação.
Detalhe que o aviso do cancelamento foi emitida às 10h48 para uma reunião qu estava marcada para 13h.
Fica a sensação de improviso.
A verdade é que o debate sobre a prorrogação não começou agora. Ele deveria ter sido antecipado desde o momento do leilão. A transição entre contratos — ainda mais em um sistema bilionário e historicamente problemático — sempre exigiria algum tipo de extensão.
Mas isso precisava ter sido dito antes. Com clareza. Com didatismo.
Porque, para o passageiro, o que chega é simples: mais tempo com as mesmas empresas.
E isso, em Campinas, tem um peso enorme.
A cidade vive há anos um sistema desgastado, com frota envelhecida, falhas recorrentes e um serviço que se tornou símbolo de insatisfação. Qualquer sinal de prolongamento desse cenário — ainda que temporário — gera reação imediata.
E legítima.
Agora, a Câmara vota sob pressão. Entre argumentos técnicos e desgaste político. Entre a necessidade de garantir o serviço e a rejeição popular ao modelo atual.
No fim, a discussão sobre prazo virou secundária diante de um problema maior: a falta de comunicação transformou uma medida previsível em mais uma crise evitável.
E, mais uma vez, Campinas assiste ao mesmo roteiro: a decisão vem primeiro, a explicação depois — e a confiança fica pelo caminho.
Honraria em xeque

Divulgação/CMC
A retirada da pauta das homenagens a Padre Kelmon e ao deputado Ribamar Silva na Câmara Municipal de Campinas não é apenas um recuo pontual. É um sintoma.
E um sintoma preocupante.
Não se trata aqui de julgar o perfil dos homenageados. Isso, de fato, é subjetivo. O problema está em algo muito mais básico — e objetivo: qual é a relação dessas figuras com Campinas?
Porque a lógica da principal honraria do Legislativo, ao lado do título de cidadão emérito, deveria ser simples: reconhecer quem prestou serviços relevantes à cidade.
E, neste caso, essa conexão simplesmente não aparece.
A proposta do vereador Nelson Hossri (PSD) de conceder o título a Padre Kelmon, figura que ganhou notoriedade nacional nas eleições de 2022, esbarra justamente nessa ausência. Não há trajetória vinculada ao município. Não há atuação local consolidada. O elo mais evidente é político — e pessoal — com o autor da homenagem.
O mesmo vale para Ribamar Silva.
Aliás, a reação nos bastidores foi reveladora. Muita gente precisou recorrer ao Google para entender quem era o homenageado. Isso, por si só, já diz muito.
A retirada dos projetos evitou um desgaste maior. Evitou um embate em plenário. Evitou que o tema dominasse a sessão.
Mas não resolve o problema de fundo.
Porque a prática segue recorrente.
A concessão de honrarias, que deveria ser um instrumento de valorização institucional, vai se transformando, aos poucos, em moeda política, gesto de conveniência ou simples formalidade protocolar.
E aí o risco é evidente: banalização.
Quando tudo vira homenagem, nada é homenagem.
Quando qualquer nome pode receber o título, ele perde peso. Perde significado. Perde respeito.
E isso não é um detalhe.
O Legislativo deveria ser o guardião simbólico dessas distinções. Deveria zelar pelo critério. Pela relevância. Pela conexão real com a cidade.
Mas o que se vê, em muitos casos, é o contrário: propostas em regime de urgência, sem debate aprofundado, sem lastro local consistente.
Uma espécie de quermesse de títulos.
E o episódio desta semana escancarou isso.
O recuo foi necessário. Mas foi reativo.
A reflexão precisa ser mais profunda.
Porque, no fim das contas, a pergunta que fica é simples — e deveria orientar qualquer homenagem: o que essa pessoa fez por Campinas?
Se a resposta não for clara, talvez o problema não esteja no homenageado.
Mas na própria proposta.
Em Campinas

Divulgação/Governo de SP
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tem agenda prevista para Campinas na quinta-feira (9) e deve participar, a partir das 10h, da inauguração de um novo Centro de Educação Infantil.
A unidade, denominada CEI Marina Soares Queiroz, no Jardim Telesp, foi construída para atender 100 crianças de 3 a 5 anos em situação de vulnerabilidade social, dentro da proposta de ampliação da educação em tempo integral no município.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br.