POLÍTICA

Flávio Paradella: Justiça trava cargos e expõe desgaste da Câmara

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 7 min
Divulgação/CMC
Decisão liminar suspende assessores extras e reforça leitura de que ampliação careceu de justificativa e transparência.
Decisão liminar suspende assessores extras e reforça leitura de que ampliação careceu de justificativa e transparência.

O novo capítulo da novela dos cargos comissionados na Câmara de Campinas seguiu o roteiro que já era amplamente esperado. A Justiça decidiu, em caráter liminar, suspender a criação de novos cargos nos gabinetes dos vereadores, atendendo ao pedido do Ministério Público e determinando o retorno ao limite de cinco assessores por gabinete.

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A decisão do juiz Mauro Fukumoto, da 1ª Vara da Fazenda Pública, atinge diretamente o coração da proposta aprovada no fim do ano passado. Dos 105 cargos criados, 99 são justamente para os gabinetes, ou seja, o núcleo político da estrutura legislativa. Até fevereiro, cerca de 70 já haviam sido preenchidos — agora, todos ficam sob risco de exoneração.

Embora provisória, a decisão já dá sinais claros de qual deve ser o entendimento do Judiciário. O magistrado foi direto ao apontar que não houve comprovação concreta de aumento da demanda legislativa que justificasse a ampliação da estrutura. Nem mesmo o estudo da Fundação Instituto de Administração, utilizado como base pela Câmara, foi suficiente. Segundo ele, o material não demonstrou crescimento relevante na produção legislativa, número de CPIs ou audiências públicas.

E aqui entra um ponto central da análise política. A Câmara sustenta que se trata de um novo projeto, baseado em um novo estudo, e não vinculado à decisão anterior que limitou os assessores. Já o Ministério Público enxerga o movimento como continuidade de uma tentativa já barrada anteriormente. Até aqui, a Justiça parece caminhar mais próxima da leitura da promotoria.

Convenhamos: o desfecho não surpreende. Desde a origem, o projeto carregava sinais claros de desgaste. Foi apresentado de forma discreta, avançou com rapidez e praticamente sem debate público, justamente em um tema sensível — aumento de cargos e de gastos com dinheiro público. O resultado é previsível: falta de sustentação política e jurídica.

A Câmara argumenta que precisa de mais estrutura para dar conta da complexidade de uma cidade como Campinas. Diz que tem menos assessores por vereador do que cidades menores e cita exemplos como Osasco, São Bernardo e Santo André. Também defende que os gabinetes precisam de equipes mais qualificadas para atuar em políticas públicas, fiscalização e produção legislativa.

O problema é que esse discurso esbarra em dois pontos fundamentais. Primeiro, a falta de credibilidade do próprio Legislativo diante da população. Segundo, a incoerência prática. Fala-se em aumento de demanda, mas a produção legislativa não acompanha — e, como bem se observa nos bastidores, a abertura de CPIs na Câmara de Campinas é raríssima, o que enfraquece ainda mais o argumento de necessidade estrutural.

No fundo, a decisão judicial acaba sendo também uma resposta política. A Câmara paga o preço por ter conduzido o processo sem transparência e sem enfrentar o debate público. Optou por aprovar rapidamente, evitando o desgaste, e agora enfrenta justamente esse desgaste em outro campo — o judicial.

É possível, claro, que o Legislativo apresente novos argumentos e tente reverter a decisão ao longo do processo. A própria liminar abre espaço para manifestação da Casa. Mas o recado já foi dado: não basta criar cargos, é preciso justificar com dados concretos — e, principalmente, convencer a sociedade.

Porque, no fim das contas, fica uma pergunta inevitável: quantos eleitores escolheram seus vereadores pensando na necessidade de mais assessores?

A resposta, ao que tudo indica, ajuda a explicar por que esse capítulo terminou — ao menos por enquanto — com um freio imposto pela Justiça.

Caos na saúde e pressão por leitos


Divulgação/PMC

A saúde pública de Campinas volta a viver mais um capítulo de pressão extrema — e, desta vez, com todos os ingredientes de uma crise anunciada. Hospitais superlotados, leitos insuficientes e agora o impacto direto da bactéria KPC, que levou ao fechamento da UTI do Hospital Mário Gatti, principal unidade municipal. O cenário, que já era crítico, entrou em uma espiral ainda mais preocupante.

O problema não começou agora. A superlotação é crônica e recorrente, mas ganha contornos ainda mais graves diante de eventos simultâneos. A presença da superbactéria escancarou a fragilidade da rede em momentos de estresse. E tudo isso acontece justamente às vésperas do período mais delicado do ano, com a chegada da sazonalidade das doenças respiratórias, que historicamente pressiona o sistema de saúde, tanto no atendimento adulto quanto pediátrico.

Nos últimos dias, o tema dominou a reunião do Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Campinas. A pauta principal foi clara: falta de leitos e necessidade urgente de expansão da rede SUS. Há uma promessa concreta na mesa — a abertura de até 100 novos leitos na cidade, com operação prevista na Casa de Saúde de Campinas.

Mas, novamente, a resposta esbarra no mesmo obstáculo de sempre: o tempo da burocracia. O edital para viabilizar esses leitos ainda não foi publicado. A previsão? “Nos próximos dias”. Sem data definida. Sem garantia. Sem efeito imediato.

E aí está o ponto central do problema. A urgência do paciente não segue o ritmo da máquina pública. Enquanto se aguarda publicação, trâmite e implementação, o sistema segue operando no limite — ou além dele.

O próprio prefeito Dário Saadi reconheceu a gravidade da situação e cobrou avanço nas medidas. Também voltou a apontar um problema estrutural: o financiamento da saúde. Segundo ele, há um desequilíbrio no custeio do sistema e a Região Metropolitana deve pressionar por ampliação do chamado teto MAC, que define os recursos federais para média e alta complexidade.

Além disso, foram citados outros projetos que poderiam aliviar a pressão, como o Hospital Metropolitano de Campinas — novamente presente no discurso, novamente sem prazo concreto — e a ampliação de leitos em cidades da região, como Pedreira.

O problema é que tudo isso está no campo das promessas ou do médio prazo. A crise é agora.

E ela não é inédita. Todos os anos, com a chegada do outono e do inverno, o sistema entra em colapso parcial. Filas aumentam, unidades ficam lotadas, profissionais trabalham no limite e pacientes enfrentam espera prolongada. É um ciclo conhecido, previsível — e, ainda assim, recorrente.

A diferença, neste momento, é o acúmulo de fatores. A KPC não é apenas um episódio isolado. Ela se soma a um sistema já pressionado e evidencia o que há anos se arrasta: falta de estrutura para absorver picos de demanda.

Campinas, que é referência regional em saúde, acaba absorvendo pacientes de dezenas de cidades do entorno. Isso amplia ainda mais a pressão sobre hospitais como o Mário Gatti, que operam como linha de frente do atendimento público.

No fim das contas, o cenário é de alerta máximo. Promessas existem, projetos estão no papel, reuniões acontecem — mas o paciente segue enfrentando filas, superlotação e incerteza.

E, com a chegada do período mais crítico do ano, a pergunta deixa de ser se o sistema vai entrar em colapso.

A pergunta é: até onde ele aguenta antes disso acontecer.

Câmara debate Trem Intercidades


Divulgação/CMC

A Câmara de Campinas realiza na terça-feira (24), às 14h, um debate público para discutir o avanço do projeto do Trem Intercidades. O encontro será no Plenário José Maria Matosinho, na região da Ponte Preta.

A iniciativa é da Frente Parlamentar que acompanha a implantação do modal ferroviário, coordenada pelo vereador Nick Schneider (PL).

Participam do encontro representantes da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (ARTESP) e da TIC Trens, responsável pelos projetos do Trem Intercidades (TIC) e do Trem Intermetropolitano (TIM). Durante a reunião, será feita uma apresentação técnica com atualizações do empreendimento.

Entre os temas previstos estão o andamento das obras, cronograma, desapropriações, início da infraestrutura e funcionamento do sistema ferroviário, além da política tarifária. Também serão detalhados o modelo de concessão, com duração estimada em 30 anos, o volume de investimentos e a estrutura operacional do projeto.

Outro ponto da apresentação será a divulgação da identidade visual oficial do Trem Intercidades, com imagens dos trens e dos equipamentos de manutenção importados da China, além de explicações sobre a integração com a Linha 7–Rubi.

“Este debate público é fundamental para garantir transparência e permitir que a população de Campinas acompanhe de perto um dos mais importantes projetos de mobilidade da nossa região. Queremos esclarecer dúvidas, apresentar avanços e ouvir a sociedade”, afirmou o vereador.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br.

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