Viajar pelo mundo é o sonho de muitas pessoas, principalmente quando se é jovem. Alguns querem a aventura de explorar lugares desconhecidos. Outros desejam experimentar novas culturas. Há ainda aqueles que vão pela vontade de conhecer pessoas. Independente da motivação, a maioria se depara com uma dura realidade: viajar é algo extremamente caro.
Essa era a realidade da advogada Nádia Taffarello Soares, há mais de 40 anos. Prestes a completar 60 anos, a defensora pública aposentada, que atualmente advoga junto à filha, conta que descobriu, na adolescência, uma forma de conhecer o mundo, mesmo sem ter muito dinheiro. “Quando eu era jovem, minha família não tinha posses, mas minha mãe sempre fez questão que estudássemos em escola particular. Com 7 anos, comecei a estudar inglês e, aos 15, me formei. Depois de formada, comecei a dar aula na Yázigi e ali descobri um clube de cartas por adesão em que seu nome circulava no mundo inteiro, em diversos países”, explica Nádia.
O clube em questão é o International Pen Friends, um clube fundado em 1967, em Dublin, na Irlanda. O objetivo era permitir que pessoas do mundo inteiro se correspondessem por meio de cartas. Para isso, era preciso preencher um questionário com informações pessoais, hobbies e interesses e o próprio clube seleciona uma lista de pessoas da mesma faixa etária para que se correspondam durante o período de associação, que dura um ano.
Nádia ainda guarda as cartas daquela época, todas em seus respectivos envelopes, com os presentes que vieram junto delas. Entre fotos das pessoas, cartões postais, adesivos e apoios de copo de bares locais, a advogada encontrou até um panfleto. “Esse aqui, por exemplo, é da China e ele me mandou um folheto com o mapa da cidade. E nele, ele marcou vários lugares, marcou onde morava e onde ficava a escola que ele estudava durante o ensino médio.”

As cartas, para ela, eram uma forma de praticar o inglês, mas também uma maneira de conhecer pessoas e culturas. Segunda ela, quando chegava uma carta nova, ela ia ver no Atlas onde o país ficava e informações sobre ele. “Eu me correspondi com gente da China, Dinamarca, Estados Unidos, Libéria, Argélia, Bélgica, Austrália, eram lugares inacessíveis para minha época. [...] As pessoas compartilhavam coisas sobre a própria vida e isso abriu muito meus horizontes e minha cabeça. Entendi que o mundo é grande, com culturas, pessoas e costumes diferentes.”
Entre as dezenas de cartas, datas como 1983, 1985 e 1986 apareceram. Ao fazer as contas e perceber a passagem do tempo, Nádia se emocionou com a nostalgia de viajar para um lugar diferente: o passado. “Foi bem nostálgico me remeter a como as coisas eram quando eu era jovem. Sinto falta de algumas coisas dessa época. O atual é bom, mas a gente perdeu muitas coisas que ficaram para trás e eu acho que deveriam ser retomadas”, confessa Nádia.

Para ela, a modernidade fez com que perdêssemos a qualidade dos vínculos. “As pessoas não se vinculam mais umas com as outras, você percebe uma rapidez em tudo. Elas se comunicam por meio do Whatsapp e, quando a pessoa te liga, é um sinal de intimidade”, explica. Nádia lembra com carinho do processo que era escrever a carta, enviar pelo correio e esperar, às vezes, meses para a resposta chegar. “Era um costume gostoso. É afeto.”
O International Pen Friends ainda existe. Os preços variam de acordo com a faixa etária e o tipo de inscrição, mas giram em torno de $25 a $45 dólares. Nádia, que encontrou apenas uma das pessoas com quem se correspondeu quando tinha 20 anos, hoje não tem mais notícias dos antigos amigos. “Não tenho contato com mais nenhuma dessas pessoas, mas fiquei com vontade de procurá-los no Instagram, Facebook ou LindkedIn e saber como estão hoje em dia”.
Nádia deixa um conselho: “Vocês jovens têm que aproveitar as oportunidades, porque depois você cria raízes e âncoras, como emprego, relacionamento, família. Vivam enquanto são jovens! Agora, perto dos 60, é que estou começando a viajar de verdade… Antes, viajava pelas cartas, agora vou viajar mesmo. Não esperem tanto quanto eu”.