POLÍTICA

Flávio Paradella: As novas rotas da Educação em Campinas

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 8 min
Reprodução/FPX Cast
Em entrevista ao FPX Cast/PodConecta, Patrícia Adolf Lutz diz que “correção de rotas” passa por currículo unificado, avaliação e formação docente; sobre escola cívico-militar, afirma que é cedo para c
Em entrevista ao FPX Cast/PodConecta, Patrícia Adolf Lutz diz que “correção de rotas” passa por currículo unificado, avaliação e formação docente; sobre escola cívico-militar, afirma que é cedo para c

A Educação de Campinas concentra, em 2026, a maior fatia do orçamento municipal, com quase R$ 2,7 bilhões, e atende quase 60 mil alunos na rede. Mesmo com o peso financeiro da pasta, os indicadores de alfabetização acenderam um alerta: 41% das crianças estão alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental, segundo o Inep. Foi a partir desse cenário que a secretária municipal de Educação, Patrícia Adolf Lutz, afirmou que a rede precisa “corrigir rotas” e detalhou, em entrevista ao FPX Cast/PodConecta, quais decisões pretende priorizar para reorganizar a condução pedagógica, sustentar metas de evolução e melhorar o aprendizado nos anos iniciais. Oriunda da rede estadual de educação, Patrícia Adolf Lutz assumiu a pasta em outubro do ano passado no lugar de José Tadeu Jorge, ex-reitor da Unicamp, que ocupava o cargo desde o primeiro mandato de Dário Saadi (Republicanos).

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Ao explicar o que quis dizer com “correção de rotas”, a nova secretária defendeu que a expressão não representa ruptura com o que já foi construído, mas a necessidade de alinhamento de toda a rede para um mesmo destino. “Quando a gente fala em correção de rotas, talvez seja porque nós precisamos ir para o mesmo ponto”, afirmou. Para ela, o tema estruturante de 2026 é a equidade, entendida como a oferta de ferramentas que permitam atender especificidades sem abrir mão de expectativas comuns de aprendizagem. Nesse contexto, Patrícia apontou como eixo central a atualização das diretrizes curriculares. “A correção da rota é trazer a atualização dessas diretrizes, o que é preciso desenvolver nos alunos”, disse, ao explicar que currículo significa a expectativa do que deve ser aprendido em cada ano escolar. Para tornar isso operacional no cotidiano das unidades, ela afirmou que a Secretaria está “entregando uma “bússola”” para professores e gestores, com um norte comum. “Tem um norte, a gente precisa chegar lá, a gente precisa desenvolver no aluno aquilo”, declarou, destacando que metodologias podem variar de acordo com cada realidade, desde que o objetivo seja compartilhado.

Lutz afirmou que a rede municipal é bem formada e que um dos desafios, diante do tamanho do sistema, é a comunicação e a padronização do “ponto de chegada” da sala de aula. “O desafio é esse, é a comunicação… daquilo que se é dito e aquilo que se é entendido”, afirmou. Como base para isso, citou a adesão da Secretaria, em agosto de 2025, ao Pacto pela Recomposição das Aprendizagens, do MEC, voltado a recuperar habilidades e organizar objetivos por etapa. Na entrevista, ela detalhou que o programa oferece uma matriz com metas por trimestre e por série. “Está prontinho numa matriz, numa tabela para o professor, porque ele sabe que ele tem que chegar”, disse, sustentando que a metodologia é escolha do professor, mas a ferramenta define com clareza o que precisa ser alcançado.

Ao tratar dos números de alfabetização, a secretária detalhou a origem do indicador e justificou por que considera o percentual um sinal de risco. “Esse é um dado preocupante, porque quando a gente fala em 41% no nível avançado, é um alerta”, afirmou, explicando que o ICA é um indicador do MEC, construído com base no SAEB e correlacionado, em São Paulo, ao Saresp no nível “avançado”. Ela também mencionou metas e expectativas oficiais para a evolução do índice. “Até 2030, a gente precisa chegar em 80% dessas crianças alfabetizadas”, afirmou, e citou a projeção associada a 2025: “Qual seria a nossa meta 2025? 53,9, estipulado também pelo INEP”. No mesmo bloco, a secretária trouxe um segundo indicador voltado aos anos iniciais: a fluência leitora. Ao falar sobre a avaliação aplicada em novembro, disse que Campinas fechou 2025 com 70% dos alunos do 2º ano com fluência, diante de uma meta de 90% estabelecida no regime de colaboração do programa Alfabetiza Juntos.

Na estratégia que ela apresentou para dar sustentação à “correção de rotas”, Patrícia Adolf Lutz defendeu que três frentes precisam caminhar juntas. “Eu vou trazer aqui três conceitos que são indissociáveis, que é o currículo, a avaliação e a formação de docentes”, afirmou. E reforçou que avaliação deve ser diagnóstica e orientativa, não punitiva. “A avaliação, ela tem que ser diagnóstica, ela tem que ser orientativa”, disse, comparando a leitura dos números a uma balança que indica se o plano está ou não no caminho certo. A partir desse diagnóstico, segundo ela, entra a formação e o apoio ao professor, com acompanhamento e suporte para estratégias e metodologias que levem ao aprendizado esperado.

Dentro das diretrizes, a secretária afirmou que a rede pretende reforçar princípios associados à equidade, com ênfase em temas sociais considerados urgentes. “A questão da equidade”, disse, ao apontar que o documento final dá destaque a “três assuntos urgentes na nossa sociedade”: “o combate à violência contra a mulher, o meio ambiente e a educação antirracista”. Para ela, esses conteúdos podem ser trabalhados junto de habilidades estruturantes, desde que o objetivo pedagógico esteja claro. “Vou te dar um exemplo muito concreto… reconhecer o assunto de um texto ouvido. (…) Eu trago um texto que fala de valorização da mulher”, afirmou, defendendo que são práticas simples que conectam competência leitora e discussões sociais sem perder o foco do aprendizado.

Questionada na entrevista sobre o modelo escola cívico-militar, Patrícia adotou cautela e afirmou que a implementação ainda é recente para conclusões definitivas. “Acho que seria muito imprudente da minha parte dizer, ah, funciona ou não funciona. Porque ela está acontecendo agora, então eu penso que é preciso analisar, avaliar e ver o impacto disso lá na escola”, afirmou.  Duas unidades estaduais em Campinas adotaram o novo modelo a partir deste início de ano letivo: a Escola Estadual Reverendo Eliseu Narciso, na região do DIC III, e a Escola Estadual Professor Messias Gonçalves Teixeira, no Jardim Nova Aparecida. O modelo implantado pelo governo estadual combina a atuação de militares (responsáveis pela disciplina, segurança, acolhimento e atividades extracurriculares) e profissionais da educação (responsáveis pelo conteúdo pedagógico).

A secretária relatou que acompanhou o início da construção do modelo no período em que atuava na rede estadual e disse que o desenho envolve consulta à comunidade. “Quando o governo propõe esse modelo de Escola Cívico-Militar, ele deixa a escola muito à vontade para construir isso com a comunidade. Quer, não quer, houve, teve votação pelo sistema escolar digital”, afirmou. Ela também citou que, no caso mencionado, o processo resultou em duas escolas adotando o formato. “As duas escolas que hoje estão aí com o modelo, a comunidade quis e, enfim, agora está lá acontecendo”, disse, acrescentando que a orientação, por ora, é acompanhar o desenvolvimento “na prática”. Ao ser perguntada se é favorável ou se pensa em política municipal sobre o tema, a secretária repetiu a mesma linha de prudência. “Também seria imprudente da minha parte se sim ou se não. Porque é preciso avaliar, ver como isso de fato vai acontecer. (…) pode ser que a teoria esteja muito longe da prática. Então, acho que vamos observar”, afirmou.

Sobre a principal promessa do prefeito Dário Saadi para o segundo mandato, a ampliação do tempo integral, Lutz afirmou que acredita no modelo, mas destacou limitações estruturais e logística como condicionantes. “Qual é o desafio? É a gente conseguir ter infraestrutura para abrigar todos esses alunos”, disse, indicando que a Secretaria avalia caminhos para avançar, especialmente na educação infantil, e ressaltando que educação integral não se reduz ao aumento do tempo de permanência, mas ao desenvolvimento amplo do aluno.

Fisioterapeuta no parto


Divulgação/CMC

A Câmara de Campinas analisa, em primeiro turno, na oitava Reunião Ordinária desta segunda-feira (2), o Projeto de Lei Ordinária nº 163/2024, que assegura às gestantes o direito de contar com acompanhamento de fisioterapeuta durante o trabalho de parto, o parto e o pós-parto imediato em unidades públicas e privadas da cidade.

A proposta é de autoria da vereadora Debora Palermo e estabelece que a presença do profissional ocorrerá conforme o desejo da parturiente, abrangendo maternidades, casas de parto e demais estabelecimentos congêneres. O texto deixa explícito que a medida trata exclusivamente do direito de acesso do fisioterapeuta ao ambiente hospitalar e não autoriza a realização de procedimentos médicos, clínicos ou de enfermagem, como diagnóstico, monitoramento fetal ou administração de medicamentos.

Pelo projeto, a contratação e a remuneração do fisioterapeuta serão de responsabilidade da própria gestante. Também fica vedado aos hospitais ou unidades de saúde cobrar qualquer valor adicional em razão da presença do profissional durante a internação.

Na justificativa, a autora argumenta que a atuação especializada pode contribuir para a evolução do parto. “A atuação do Fisioterapeuta no trabalho de parto é essencial, uma vez que contribui para redução do tempo de trabalho de parto, menos complicações e disfunções do assoalho pélvico, além da redução do tempo de internação e dos custos hospitalares”, sustenta Debora Palermo no texto do projeto.

A proposta também diferencia o fisioterapeuta do acompanhante previsto na Lei Federal nº 11.108, conhecida como Lei do Acompanhante, que garante à gestante o direito de escolher uma pessoa para estar ao seu lado durante o parto. Segundo o projeto municipal, a presença do fisioterapeuta não substitui nem se confunde com esse direito já assegurado em âmbito federal.

Para atuar, o profissional deverá ter registro ativo no conselho de classe, título de especialista em saúde da mulher reconhecido pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito) e realizar cadastro prévio junto à instituição de saúde, respeitando as normas internas. O texto também autoriza procedimentos previstos na Resolução Coffito nº 401, de 2011, que regulamenta a atuação da fisioterapia na saúde da mulher.

Além disso, o projeto determina que os estabelecimentos garantam condições adequadas e seguras de trabalho, vedando a utilização do fisioterapeuta para executar funções próprias das equipes hospitalares, salvo se houver interesse e autorização expressa da gestante.

A Reunião Ordinária está marcada para as 18h, no Plenário da Câmara.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br.

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