Há dias em que a política não entrega solução, mas entrega um sinal. E, para Campinas, esta quarta-feira foi exatamente isso: um sinal de que a licitação do transporte coletivo pode, enfim, sair do limbo. Depois de anos de adiamentos, correções, impugnações e frustrações, o certame recebeu seis propostas apresentadas por cinco grupos econômicos na B3, em São Paulo. O número foi surpreendente — para este colunista e, segundo fontes, para a própria Prefeitura. Uma delas resumiu o sentimento com a palavra “alívio”. Outra preferiu “esperança” e a expressão mais honesta de todas: “tirar um fardo das costas”. O que há por trás dessas frases é mais do que bastidor; é a fotografia de um governo que sabe que o transporte público é o principal calcanhar de Aquiles da gestão Dário Saadi (Republicanos), talvez até mais corrosivo do que as crises episódicas que passam e somem do noticiário.
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A contextualização é inevitável, porque esse capítulo não nasce hoje. O contrato atual é herança do fim dos anos 2000, do período de Hélio de Oliveira Santos, e desde então Campinas vive uma espécie de interminável administração do provisório, com um sistema que envelheceu, perdeu confiabilidade e se sustentou, por tempo demais, em remendos. Jonas Donizette (PSB) atravessou oito anos sem conseguir concluir esse processo. Dário também foi derrotado no primeiro mandato — e a última tentativa, em 2023, virou o constrangimento máximo: licitação deserta, ausência de interessados, apesar de estarem no local do certame, e a sensação de que a cidade tinha um problema grande demais. Enquanto isso, o passageiro foi ficando com a parte mais cruel da história: frota caquética, quebras constantes, intervalos longos, lotação e até incêndios, como se o serviço precisasse, diariamente, provar o quanto está no limite. Para a administração pública, é novela. Para o usuário, é rotina.
Por isso, a entrada de interessados importa tanto. Não é o fim do problema, mas é o começo do fim do impasse. Entraram na disputa o Consórcio Andorinha, o Consórcio Grande Campinas, o Consórcio Mov Campinas, o Consórcio VCP Mobilidade e a Sancetur; um dos grupos apresentou proposta para os dois lotes, o que elevou o total para seis ofertas. Três nomes chamam atenção por serem velhos conhecidos — e isso diz muito sobre como Campinas ainda é, em parte, um mercado de “casas já vistas”, mas vale destacar que as empresas têm total direito de participarem e, eventualmente, levarem a disputa. O Consórcio Mov Campinas é liderado pelo grupo Belarmino, figura tradicional na cidade. O Consórcio VCP Mobilidade reúne Expresso Campibus e Itajaí Transportes Coletivos, também presentes no atual contrato. E a Sancetur, ligada a Marco Antonio Abi Chedid, ex-presidente da Câmara no início dos anos 1990, é um player que já opera em Valinhos, Indaiatuba, Americana e outras cidades da região — era esperado que mirasse Campinas, porque Campinas é vitrine, volume, receita e poder político. Quando se disputa ônibus, disputa-se também narrativa de gestão.
O desenho do edital, por sua vez, tenta responder ao que sempre travou o processo: complexidade e risco. A concessão está dividida em dois lotes — Norte e Sul —, com disputa separada e três propostas em cada bloco. É uma tentativa de tornar o negócio “engolível” para o mercado, reduzindo concentração e permitindo competição por partes. O contrato previsto é de 15 anos, prorrogáveis, com valor estimado em R$ 11 bilhões, e inclui não só a operação convencional, mas também PAI-Serviço, terminais, estações do BRT, bilhetagem e tecnologia embarcada. Há previsão de R$ 1,7 bilhão para renovação de frota e R$ 1,9 bilhão para tecnologia e infraestrutura. Números grandes, que alimentam discurso, mas que só terão sentido se virarem ônibus na rua, frequência, conforto e previsibilidade para quem depende do sistema.
A análise em camadas começa exatamente aqui: o que foi entregue nesta quarta não foi “o novo transporte”, e sim a prova de que alguém está disposto a disputar o direito de operá-lo. O jogo de ida foi vencido por existir jogo. Agora vem o jogo da volta, onde mora o risco real: abertura das propostas comerciais no dia 5 de março, habilitação, planilhas, recursos, questionamentos e — no Brasil — a sempre possível judicialização que paralisa tudo e devolve a cidade ao ciclo vicioso da espera. O Tribunal de Contas já obrigou correções no Fator de Utilização; desta vez, o governo optou por corrigir antes de prosseguir, e isso pode ter salvado o processo de um colapso mais adiante. Ainda assim, prudência é a palavra que deve guiar o Paço: a licitação só termina quando termina. O resto é torcida.
No pano de fundo, porém, há um elemento histórico e comportamental que Campinas conhece bem: a cidade aprendeu a desconfiar de anúncios. O campineiro ouviu promessas demais e viu entregas de menos, especialmente quando o tema é mobilidade. O BRT, por exemplo, virou símbolo de obra que se esticou no tempo, com aqueles “percentuais finais” que pareciam eternos. Por isso, o que está em jogo aqui é mais do que concessão: é credibilidade de governo. Se Dário conseguir concluir o processo e colocar o sistema em transição real, ele não resolve apenas um serviço; ele desmonta um fantasma político que assombra prefeitos há uma década e meia. Se der errado de novo, o desgaste vira marca, porque o passageiro já não tem paciência para mais um capítulo.
Por ora, há um fato objetivo e raro: Campinas finalmente recebeu propostas. É cedo para comemorar, mas é tarde demais para minimizar. O transporte “respirou” no papel; falta respirar na vida real. E, no fim, é isso que importa: tirar o usuário de um sistema decrépito e devolver a ele o mínimo de dignidade no deslocamento diário — sem romantização, sem propaganda de borboletas, sem promessas que evaporam. Agora, a novela parece perto do fim. Que o último capítulo, desta vez, não seja mais um adiamento.
Quem são os grupos na licitação
A concorrência que vai definir o futuro do transporte coletivo de Campinas reúne empresas que já operam em diversas cidades do Estado e até fora dele, conforme a Ata da Sessão Pública que o Portal Sampi Campinas teve acesso.
São seis propostas apresentadas. Uma das empresas disputa os dois lotes. Em outros casos, há companhias que aparecem em consórcios diferentes, com estruturas societárias interligadas.
SANCETUR: INTERIOR, LITORAL E RIO DE JANEIRO
A Sancetur – Santa Cecília Turismo Ltda. concorre nos dois lotes. Ligada à família Chedid, atua em mais de 20 cidades do interior e do litoral paulista, operando sob a marca “SOU”.
Além do interior de São Paulo, também participa de sistemas em outros estados, como no município do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, ganhou espaço em contratos emergenciais e licitações municipais.
GRUPO BELARMINO: CAMPINAS E CAPITAL
O Consórcio Mov Campinas, que disputa o Lote Norte, está ligado ao Grupo Belarmino. O conglomerado já opera em Campinas por meio da VB Transportes.
Fora da cidade, o grupo atua na capital paulista com a Sambaíba Transportes Urbanos, uma das maiores frotas de São Paulo. Também mantém operações em municípios como Sumaré, Paulínia, Vinhedo, Nova Odessa, Monte Mor, Itu, Avaré, Boituva e São João da Boa Vista, entre outros.
CONSÓRCIO GRANDE CAMPINAS: INTERIOR E GRANDE SP
O Consórcio Grande Campinas reúne empresas com atuação pulverizada:
- Nova Via: opera o transporte urbano em Santa Bárbara d’Oeste.
- Smile Turismo (ligada ao mesmo grupo): tem sede em Paulínia e atuação em Campinas, Sumaré, Fernandópolis e Marília.
- Transporte Coletivo Grande Marília: atua em Marília.
- Auto Viação Suzano: opera em Suzano, Santa Isabel, Catanduva e Balneário Camboriú (SC).
- Rhema Mobilidade: trabalha principalmente com fretamento e transporte escolar em Paulínia.
- WMW Locação: tem sede na Grande São Paulo e atua no segmento de fretamento.
Parte dessas empresas já enfrentou questionamentos administrativos em outros municípios, todos contestados pelos operadores.
CONSÓRCIO ANDORINHA: MESMOS NOMES, OUTRO LOTE
No Lote Sul, o Consórcio Andorinha reúne Rhema Mobilidade, New Hope e WMW — duas delas também integrantes do Consórcio Grande Campinas.
A New Hope atua no setor de transporte e terceirização, com registros empresariais na Grande São Paulo e interior.
CONSÓRCIO VCP MOBILIDADE: JÁ PRESENTE NA CIDADE
O Consórcio VCP Mobilidade envolve empresas que já operam em Campinas, como Expresso Campibus, Onicamp e Itajaí Transportes.
Essas companhias já prestam serviços no sistema municipal e mantêm atuação também em outras cidades da região. A estrutura societária inclui holdings sediadas em Ribeirão Preto e empresas com base no Espírito Santo.
Amparo destitui conselheiras tutelares

Divulgação/PMA
A Prefeitura de Amparo concluiu um Processo Administrativo Disciplinar que resultou na destituição de duas Conselheiras Tutelares e na suspensão de outra integrante por cinco dias.
O procedimento apurou fatos ocorridos em novembro de 2025 por suposta omissão em um caso envolvendo violência sexual infantil e, segundo a administração municipal, foi conduzido com observância aos princípios do contraditório e da ampla defesa.
De acordo com o relatório final da Comissão Processante, as duas conselheiras foram responsabilizadas por falta gravíssima, o que motivou a aplicação da penalidade máxima administrativa: a perda do mandato eletivo.
Outra integrante do colegiado recebeu penalidade de suspensão temporária.
A Prefeitura informou ainda que o processo foi encaminhado ao Ministério Público do Estado de São Paulo para análise de eventual responsabilidade na esfera criminal.
Em nota, o Executivo municipal reafirmou o compromisso com a proteção integral da criança e do adolescente e com a transparência na condução de atos administrativos.
Educação no FPX Cast

Reprodução/FPX Cast
A educação de Campinas está no centro do debate do episódio 60 do FPX Cast, podcast apresentado por este colunista.
A cidade destina quase R$ 2,7 bilhões do orçamento para a área — a maior fatia entre todas as secretarias municipais. Ainda assim, os indicadores mostram que apenas 41% das crianças estão alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental, segundo dados do Inep.
Diante desse cenário, a Secretaria Municipal de Educação apresentou um novo plano de medidas para 2026. A própria secretária, Patrícia Adolf Lutz, afirmou que o objetivo é “corrigir rotas”. Lutz assumiu a pasta em outubro do ano passado.
Mas que rotas precisam ser corrigidas? O que falhou nos últimos anos? E quais são as novas metas para elevar os índices de aprendizagem?
Essas questões foram discutidas em entrevista especial no FPX Cast, agora integrado ao PodConecta, da Rede Conecta de Rádios.
Na conversa, a secretária detalha o novo plano pedagógico, fala sobre a ampliação do ensino em tempo integral, promessa do prefeito Dário Saadi, analisa o impacto da pandemia nos resultados e comenta os desafios de comandar a maior pasta da Prefeitura.
A entrevista completa vai ao ar hoje, às 19h, no canal do FPX Cast no YouTube: youtube.com/@fpxcast.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br.