Torcidas propõem jogo-teste e fim gradual da torcida única em SP
A Anatorg (Associação Nacional das Torcidas Organizadas) prepara uma proposta formal para o fim da torcida única nas partidas envolvendo Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo, Guarani e Ponte Preta. O modelo prevê uma retomada gradual, controlada e experimental da presença de visitantes nos estádios.
A restrição foi imposta em abril de 2016 pela Secretaria da Segurança Pública com anuência de outros órgãos, após uma série de confrontos antes e depois do jogo entre Palmeiras e Corinthians pelo Campeonato Paulista.
O documento foi elaborado pelo advogado da entidade, Renan Bohus da Costa, e será encaminhado à Polícia Militar, ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e à Federação Paulista de Futebol. A reportagem teve acesso ao texto, entregue nesta segunda-feira (23) ao delegado Cesar Saad, da Drade (Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva), da Polícia Civil.
Entre as sugestões está a realização de um jogo-teste com participação controlada de torcida visitante, sob acompanhamento dos órgãos competentes. Pela proposta, até 10% da capacidade do estádio seria destinada ao setor visitante -percentual dotado no estado antes do veto e compatível com padrões internacionais de segurança, segundo a Anatorg. Nessa fase inicial, o estádio não seria dividido igualmente entre as torcidas.
A venda de ingressos seria rastreável e priorizaria torcedores associados oficialmente ao clube visitante e membros cadastrados de torcidas organizadas formalmente reconhecidas, com identificação prévia, respeitadas as exigências da Lei Geral do Esporte. A medida visa garantir controle individual de acesso e responsabilização em caso de incidentes. A proposta também não descarta, em um primeiro momento, a venda exclusiva de ingressos para idosos, crianças e pessoas com deficiência.
O deslocamento dos visitantes até o estádio partiria de um ponto de encontro definido em conjunto com o 2º Batalhão de Polícia de Choque, responsável pelo planejamento, escolta e policiamento em dias de jogos na capital paulista.
Para o advogado Renan Bohus Costa, a proposta representa uma atualização da política pública, não uma reversão dela. "O que estamos propondo não é um retorno irresponsável ao passado, mas uma atualização da política pública à luz da tecnologia e da responsabilidade individual. A torcida única foi uma resposta emergencial em determinado contexto", afirmou.
"Hoje, com sistemas de reconhecimento facial, videomonitoramento inteligente e integração de dados, é possível identificar e punir quem comete ilícitos sem penalizar coletivamente milhares de torcedores", acrescentou.
O delegado Cesar Saad confirmou a reunião e a classificou como institucional. "O projeto trata da revisão do modelo atual e propõe uma retomada gradual da torcida visitante nos estádios, dentro de critérios técnicos e operacionais que precisam ser analisados com responsabilidade", disse.
Saad destacou ainda que a Drade considera o diálogo com torcidas organizadas fundamental para o amadurecimento do debate público e reafirmou a disposição da delegacia para contribuir dentro de suas atribuições legais.