POLÍTICA

Flávio Paradella: Alerta tardio e falhas afetam credibilidade

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 7 min
Tecnologia avança, mas imprecisão nos avisos e velhos pontos de alagamento colocam em xeque a eficácia do sistema preventivo em Campinas e no estado.
Tecnologia avança, mas imprecisão nos avisos e velhos pontos de alagamento colocam em xeque a eficácia do sistema preventivo em Campinas e no estado.

Os sistemas de alerta meteorológico evoluíram. O Instituto Nacional de Meteorologia emite avisos quase em tempo real. A Defesa Civil utiliza radares modernos. O Cell Broadcast dispara mensagens para todos os celulares 4G e 5G em área de risco. Equipamentos milionários foram instalados no estado.

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Mas a pergunta que ecoa depois do Carnaval é simples: por que continuamos sendo pegos de surpresa?

Em Campinas, dois temporais marcaram a folia. Na segunda-feira, uma pancada forte e inesperada. Na terça, um evento que já estava no radar das previsões. Ainda assim, na terça-feira, o alerta via celular chegou quase uma hora depois do início da tempestade, quando os alagamentos já estavam formados e os estragos em curso.

Na segunda, quando não havia previsão expressiva, surge outra dúvida: nenhum órgão monitorou a formação daquela célula de tempestade? Não houve sinal prévio? Nenhum indício nos radares?

Sou defensor dos sistemas de alerta. São investimentos silenciosos que salvam vidas. Mas alerta que chega tarde vira registro histórico, não prevenção.

A situação ficou ainda mais contraditória quando, na quarta-feira, com base em aviso do INMET, a Defesa Civil Estadual colocou a região de Campinas em grau de perigo entre 10h da manhã de quarta e 10h da manhã de quinta, com possibilidade de acumulados de até 100 mm devido à passagem de uma frente fria pelo litoral paulista. Durante praticamente todo esse período, o céu permaneceu limpo, aberto, quase “de brigadeiro”. A nebulosidade só aumentou depois do encerramento oficial do alerta.

E aqui surge outro problema: credibilidade.

A Defesa Civil pede que a população não duvide dos avisos. Concordo. Mas a confiança se constrói com precisão. Quando alertas severos se tornam frequentes e não se concretizam, ou chegam atrasados, a reação natural é o descrédito. A imprensa divulga o aviso com responsabilidade, mas também acaba ironizada por leitores e ouvintes quando “não cai uma gota”.

Não é episódio isolado. Tem sido recorrente.

Enquanto isso, em Campinas, os velhos problemas crônicos seguem intactos. Na terça-feira, mesmo com previsão de temporais localizados, alagamentos surgiram nos mesmos pontos de sempre. Algumas áreas têm obras em andamento, como na Princesa D’Oeste e na Orosimbo Maia, com os piscinões. Outras seguem em estudo, como o entorno do Kartódromo da Lagoa do Taquaral.

Foi ali que 21 carros ficaram submersos com a subida rápida da água. O relevo explica: é o ponto mais baixo da região. Toda a enxurrada converge para lá. Surge uma pergunta incômoda: não seria possível impedir o estacionamento em dias de alerta para chuva forte? Talvez seja complexo operacionalmente. Talvez gere resistência. Mas pode ser uma medida paliativa enquanto a solução estrutural não chega.

Outro ponto que chama atenção são os fechamentos preventivos, como na General Marcondes Salgado, ao lado do Bosque dos Jequitibás, e a faixa revertida na Coronel Quirino. A interdição ocorre, geralmente, no dia seguinte às tempestades. A lógica é clara: solo encharcado aumenta risco de queda de árvores — tragédia que já aconteceu ali.

Mas a dúvida persiste: se há risco no dia seguinte, não há durante e imediatamente após o temporal? E mais: se a Marcondes Salgado é fechada por risco de queda de árvores do Bosque, por que a Rua Uruguaiana, do outro lado do mesmo parque, não recebe o mesmo tratamento?

Na Uruguaiana, aliás, outro fator entrou na equação: o asfaltamento sobre paralelepípedos, aumentando a impermeabilização. Moradores relatam sensação de maior volume e velocidade da enxurrada. Toda essa água escoa mais rápido para onde? Para o já problemático córrego da Princesa D’Oeste.


Flávio Paradella

O desafio é sistêmico. Envolve previsão meteorológica, comunicação de risco, engenharia urbana e planejamento ambiental.

Não se trata de desacreditar os alertas. Trata-se de aprimorá-los. Precisão é tão importante quanto tecnologia. Caso contrário, o sistema corre o risco de virar ruído — e ruído, em situações de emergência, pode custar caro.

Campinas é apenas um recorte. A discussão vale para todo o estado de São Paulo. Investimento houve. Estrutura existe. Falta ajustar o elo mais sensível da cadeia: o tempo certo do alerta e a coerência das medidas preventivas.

Sem isso, o céu pode até estar azul — mas a confiança segue nublada.

Clima ameno


Divulgação/CMC

Depois de semanas marcadas por turbulência, pedidos de Comissão Processante e sessões incendiadas, a Câmara Municipal de Campinas viveu nesta quarta-feira de Cinzas um raro momento de normalidade.

A quinta Reunião Ordinária de 2026 foi curta — menos de duas horas — e sem novos pedidos de CP protocolados. As antigas já foram resolvidas, a temperatura baixou e, embora não tenham faltado as tradicionais cutucadas ideológicas para alimentar cortes entre esquerda e direita, o clima ficou dentro do esperado.

Todos os itens da pauta foram apreciados e aprovados.

Entre eles, dois projetos de lei que tratam de proteção animal e defesa do consumidor.

O Projeto de Lei nº 34/25, de autoria do vereador Hebert Ganem (Podemos), altera o Estatuto de Proteção, Defesa e Controle das Populações de Animais Domésticos de Campinas (Lei nº 15.449/2017) para proibir o confinamento de animais em condições inadequadas.

Segundo o texto, será considerado confinamento proibido qualquer situação que não assegure o pleno atendimento às necessidades físicas, mentais e naturais dos animais, especialmente quando houver aprisionamento em gaiolas que restrinjam mobilidade ou causem lesões e estresse.

A proposta determina que os espaços devem permitir comportamento natural da espécie, respeitando necessidades anatômicas, fisiológicas e biológicas. As penalidades previstas incluem multas entre 1.500 e 3.800 UFICs, apreensão dos animais e cassação de alvará no caso de pessoas jurídicas. Em caso de reincidência, os valores dobram.

O texto deixa claro que o transporte em caixa apropriada não será considerado confinamento irregular.

Já o Projeto de Lei nº 136/25, de autoria do vereador Luis Yabiku (Republicanos), regulamenta o agendamento de atendimentos domiciliares por empresas de telefonia, internet e TV por assinatura.

A proposta estabelece que os serviços devem ser realizados com hora marcada escolhida pelo cliente, proibindo o modelo por turno (manhã, tarde ou noite).

O texto exige antecedência mínima de 24 horas, oferta de ao menos três horários ao longo do dia e tolerância máxima de 30 minutos de atraso. Também prevê sistema de rastreamento em tempo real do técnico.

Caso o horário não seja cumprido, a empresa deverá avisar com duas horas de antecedência e conceder desconto de 10% na fatura seguinte.

As multas podem chegar a 10 mil UFICs, com valores destinados ao Fundo Municipal de Proteção e Defesa dos Direitos do Consumidor.

A sessão desta quarta-feira foi, acima de tudo, um respiro. Sem novos protocolos explosivos, sem votações dramáticas, sem tensão elevada.

Depois de um fevereiro marcado por CPs em série e disputas acirradas, o Legislativo experimentou algo raro: uma reunião um pouco mais produtiva, técnica e sem incêndios políticos para apagar.

Pode parecer pouco. Mas, no contexto recente da Casa, já é bastante.

Paulo Haddad no FPX Cast


Divulgação

Tem episódio novo do FPX Cast nesta quinta-feira, às 19h, no YouTube. O podcast, apresentado por este colunista, segue em sua nova fase, agora integrado ao PodConecta, da Rede Conecta de Rádios, ampliando o debate público sobre os temas que impactam a política e o futuro da região.

O convidado é o vereador Paulo Haddad (PSD), líder de governo do prefeito Dário Saadi na Câmara Municipal de Campinas.

Em um momento de tensão no Legislativo, marcado por sucessivos pedidos de Comissões Processantes e articulações de bastidor, Haddad ocupa posição estratégica na Casa. No episódio, ele comenta o cenário político atual, a discussão sobre a banalização do instrumento mais grave do Parlamento municipal e o clima de acirramento que já projeta o debate para as eleições de 2026.

O vereador também analisa o ambiente cada vez mais polarizado no plenário e os desafios da articulação política em meio às disputas internas.

O episódio vai ao ar às 19h no YouTube: youtube.com/@fpxcast.

O FPX Cast integra a Rede Conecta de Rádios, que também está na plataforma em youtube.com/@conectafmoficial.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br.

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