A cidade de Morungaba, na Região Metropolitana de Campinas, tenta transformar bons indicadores ambientais em crescimento econômico e geração de renda para a população. Com cerca de 14 mil habitantes e uma economia fortemente concentrada na indústria — setor responsável por quase metade do Produto Interno Bruto local — o município ainda convive com renda média e número de empregos formais abaixo da média regional.
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Em entrevista ao Jornal da Manhã Regional, da Rádio Jovem Pan Campinas, o prefeito Luis Fernando Miguel, o Fernandão (União Brasil), afirmou que a prioridade da gestão é investir na qualificação profissional para atender às demandas do parque industrial já instalado na cidade.
“A economia de Morungaba, ela tem uma sustentabilidade muito forte e o que a gente precisa sempre pensar em investir é na qualificação dos nossos profissionais para atender de melhor qualidade ainda a todas as nossas indústrias, valorizando realmente as indústrias que nós temos”, disse o prefeito.
Segundo Fernandão, a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada é um dos principais gargalos enfrentados atualmente pelas empresas locais.
“As indústrias hoje têm uma grande dificuldade da mão de obra. Nós sabemos que Morungaba hoje tem uma deficiência de mão de obra. Então, eu acho que isso é uma coisa que vem a trazer no nosso propósito melhorar a qualificação das pessoas e trazer mais pessoas para o município para poder atender as necessidades das nossas indústrias”, afirmou.
Além da indústria, a administração municipal pretende diversificar a base econômica com foco no turismo, aproveitando o título de instância turística e o perfil ambiental da cidade.
“Essa diversificação da economia do município vem também a somar com o turismo. Hoje o turismo nós sabemos que é uma das maiores fontes de venda que tem no país, então nós queremos fomentar também a parte turística”, destacou Fernandão.
O prefeito ressaltou que a estratégia passa por atrair investimentos privados, melhorar a estrutura de visitação e estimular a permanência dos turistas no município.
“O turista permanecer no município é muito importante, na parte comercial, na parte da estrutura de visitação, em todos os setores que envolvem essa grande conotação que é o maior desenvolvimento que tem hoje no Estado, que é o turismo”, afirmou.
Eleito para o mandato 2025–2028, Fernandão assumiu com o discurso de continuidade administrativa, mantendo políticas que deram visibilidade positiva a Morungaba, mas prometendo ajustes para acelerar o desenvolvimento. Segundo ele, o desafio é crescer sem renunciar às conquistas ambientais.
“Quando eu assumi o mandato, com esse discurso de sustentabilidade, principalmente, que hoje a gente tem que ser mantida nas melhores partes, principalmente no setor econômico, mas sem perder os avanços ambientais”, explicou.
Nesse contexto, a prefeitura pretende incentivar novos empreendimentos habitacionais e condomínios, desde que respeitem critérios ambientais.
“Nós somos instância turística, nós precisamos investir muito no turismo, onde as pessoas têm qualidade de vida e vêm morar para a cidade com uma qualidade superior”, disse. “Por isso que nós preservamos sempre a qualidade do meio ambiente, sempre seguindo as regras e as normas do meio ambiente”, completou.
Morungaba aparece com frequência em rankings de sustentabilidade, com destaque para saneamento, serviços públicos e políticas ambientais. Para o prefeito, esses indicadores precisam se refletir diretamente no cotidiano dos moradores.
“Como o Morungaba é posicionado forte na sustentabilidade, na qualidade de vida e no crescimento econômico da nossa população, esse crescimento vem com as melhorias”, afirmou.
Ele citou ações nos bairros, manutenção da arborização urbana e parcerias para manejo adequado das árvores como parte desse esforço.
“Temos grandes problemas, como toda cidade tem, de árvores, de galhos, que isso vem a ocasionar um desconforto às vezes para o morador, mas estamos aqui para resolver”, disse. “Temos a participação também da CPFL, que ajuda nas podas de árvore, mas podas conscientes. Agora a gente também tem sempre os plantios de árvores, através da Secretaria do Meio Ambiente”, acrescentou.
A expectativa da administração é que, nos próximos anos, Morungaba consiga equilibrar crescimento econômico, preservação ambiental e geração de oportunidades, aproveitando sua posição estratégica dentro da Região Metropolitana de Campinas e consolidando um modelo de desenvolvimento baseado em qualidade de vida.
Quando a escravidão resiste

Divulgação/Ministério do Trabalho
Há dados que não chocam mais porque já se tornaram uma infeliz rotina — e isso, por si só, é o mais assustador. O balanço divulgado pelo Ministério Público do Trabalho da 15ª Região sobre o combate ao trabalho escravo no biênio 2024-2025 revela exatamente isso: a prática persiste, se adapta e resiste, mesmo diante de estruturas institucionais mais fortes, fiscalização mais organizada e canais de denúncia mais acessíveis.
Não se trata de um problema residual. São 240 denúncias em 2024 e 238 em 2025. Números praticamente idênticos. Estáveis. Constantes. Como se o crime tivesse encontrado um patamar confortável de existência dentro do sistema. Nem cresce de forma explosiva, nem recua de forma estrutural. Permanece.
A resposta institucional também se mantém. Termos de Ajuste de Conduta, ações civis públicas, forças-tarefa, articulação entre órgãos. Tudo funciona. Tudo opera. Mas não rompe o ciclo. A engrenagem gira, mas o problema não desaparece. Isso não é fracasso técnico. É limite estrutural.
Quando a coordenadora regional da CONAETE afirma que a estabilidade dos números reflete tanto a maturidade da rede de enfrentamento quanto a persistência da prática criminosa, ela descreve um paradoxo incômodo: o sistema funciona melhor, mas o crime também se mantém organizado. É o retrato de um país em que o ilícito não é exceção — é parte da lógica econômica de setores.
O recorte regional torna tudo ainda mais simbólico. Campinas, sede do MPT-15, saltou de 68 para 83 denúncias em um ano. Ao mesmo tempo, os TACs cresceram de 2 para 23, indicando maior adesão à regularização. Mas regularizar não é erradicar. É conter dano, não eliminar causa.
Ribeirão Preto, Sorocaba, Bauru. O mapa se espalha. Não há concentração isolada. Há capilaridade. O trabalho escravo não está restrito a bolsões atrasados — ele atravessa polos agrícolas, industriais e urbanos. Isso desmonta a narrativa confortável de que se trata de resquício arcaico. Não é atraso. É modelo.
E há algo ainda mais perturbador nisso tudo: a normalização social. O país se acostumou a ler esses números como estatística. A sociedade consome esses relatórios como informação técnica, não como tragédia moral. A escravidão contemporânea virou dado.
O caso ganha ainda mais peso simbólico quando lembramos o significado do Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, marcado pelo assassinato de servidores públicos na Chacina de Unaí. Gente morta por cumprir o dever. Gente executada por enfrentar estruturas que movimentam dinheiro, poder e influência. A violência não é apenas contra trabalhadores explorados — é contra o próprio Estado.
Há um fio que conecta tudo isso: impunidade, conchavo e conflito de interesses. O mesmo ambiente que permite exploração em condições análogas à escravidão é aquele onde contratos são tratados como troféus, fiscalização como ameaça e direitos humanos como entrave ao lucro. É um sistema. Não um desvio.
A atuação do MPT é essencial. Sem ela, o cenário seria ainda mais brutal. Mas o próprio balanço mostra que estamos lidando com algo mais profundo que capacidade institucional. Estamos lidando com uma cultura econômica que naturaliza a exploração como custo operacional.
O relatório não é apenas um balanço. É um espelho. E o que ele reflete é um Brasil que ainda convive, sem ruptura real, com formas ‘modernas’ de escravidão — um país que avançou na lei, mas não rompeu na estrutura.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br.