Há casos que ultrapassam o noticiário policial e entram no território do horror institucional. O assassinato de dois médicos em Barueri, investigado como possível consequência de disputa por contratos de licitação na área da saúde, é um desses episódios que obrigam o país a parar — não para se chocar apenas, mas para refletir sobre o estado das coisas que normalizamos.
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O crime ocorreu na última sexta-feira, em um restaurante no bairro Alphaville Plus, em Barueri. As imagens de segurança são perturbadoras pela frieza: o suspeito entra, cumprimenta as vítimas, discute, agride — e depois executa. Não se trata de um rompante aleatório. Há método, há contexto, há histórico.
A Polícia Civil trabalha com a hipótese de que a motivação central foi a rivalidade profissional por contratos públicos. O principal suspeito, Carlos Alberto Azevedo Silva Filho, mantinha relação direta com uma das vítimas, Luís Roberto Pellegrini Gomes, ambos atuando no mesmo nicho de gestão hospitalar e fornecimento de serviços ao poder público. A segunda vítima, Vinicius dos Santos Oliveira, trabalhava em conjunto com Luís Roberto.
O detalhe que torna o caso ainda mais sensível para Campinas é que a empresa ligada ao suspeito, a Cirmed Brasil, mantém contrato com a Rede Mário Gatti, ligada à Prefeitura de Campinas, para fornecimento de profissionais de saúde. O acordo chegou a ser barrado por liminar, mas depois foi liberado pela Justiça.
É fundamental deixar claro: o caso não tem ligação com a cidade e nem a prefeitura tem como avaliar condutas de dirigentes, o que seria um processo de adivinhação.
Só que é profundamente perturbador que áreas públicas estratégicas sejam atravessadas por personagens capazes de transformar disputa contratual em execução a tiros.
A Cirmed Brasil divulgou nota afirmando que o crime não tem relação com contratos ou atividades institucionais, tratando o episódio como ato de natureza pessoal. A investigação, porém, segue outro caminho. O delegado responsável pelo caso afirmou que a rivalidade profissional ligada a contratos públicos é, até aqui, a principal linha de apuração.
Se confirmada, a motivação revela algo ainda mais assustador: o ambiente de negócios envolvendo o Estado se tornou, em certos setores, um território onde vale tudo. Onde interesses se misturam, conchavos se naturalizam, e a impunidade funciona como combustível. Quando esse caldo encontra vaidade, dinheiro público e ausência de limites, o resultado pode ser trágico.
É terrível pensar que gente desse tipo esteja orbitando — ou conduzindo — áreas tão sensíveis quanto a saúde pública. Setores que lidam com vida, com urgência, com vulnerabilidade extrema. Não é apenas um crime empresarial. É o retrato de um país que perdeu os freios éticos.
O caso expõe, de forma brutal, o colapso moral de um sistema onde licitação virou campo de batalha, onde o Estado é visto como prêmio, e onde a Justiça chega sempre depois — quando chega, por muitas vezes ajuda essa condição. É o Brasil da impunidade recorrente, do conflito de interesses institucionalizado, do silêncio cúmplice.
Quando contratos públicos passam a ser disputados com violência extrema, não estamos diante de um desvio isolado. Estamos diante de um sintoma. Um sintoma de que algo está profundamente errado — não apenas com indivíduos, mas com o ambiente que os permite prosperar.
A investigação precisa ser rigorosa, transparente e exemplar. Não apenas para punir um crime bárbaro, mas para deixar claro que o Estado não pode ser terreno fértil para esse tipo de degeneração.
Porque quando a licitação termina em sangue, o problema já deixou de ser jurídico ou administrativo. Passou a ser civilizatório.
Contas e contradições

Gemini
A Prefeitura de Campinas decidiu apertar o cinto. Ou, ao menos, aparentar fazê-lo. Os decretos publicados no Diário Oficial inauguram um pacote de ajuste fiscal que mira lanches, café, cursos, eventos e até o descanso em pontos facultativos. A iniciativa, em tese, é válida. O problema é o contexto. Quando confrontada com decisões recentes da gestão, a economia anunciada soa estranha, seletiva e, sobretudo, simbólica demais para um desafio estrutural.
Os decretos 24.240 e 24.241 atingem diretamente a rotina de cerca de 16,2 mil servidores. Impõem compensação obrigatória de folgas, restringem despesas administrativas e submetem novas licitações, convênios e aditivos ao crivo prévio de um comitê gestor. O discurso oficial é de prudência: mesmo com orçamento recorde acima de R$ 11 bilhões em 2026 — crescimento de 8,5% —, a administração opta por medidas preventivas para preservar o equilíbrio fiscal.
Até aqui, o enredo parece responsável. Mas a memória recente cobra coerência.
É o mesmo governo Dário Saadi que criou uma secretaria no ano passado para acomodar o PL — a Secretaria da Mulher. É o mesmo governo que “inventou” a separação entre os cargos de Secretário de Habitação e Presidente da COHAB, antes ocupados por uma única pessoa, para abrir espaço a um aliado do Podemos. E é, também, a gestão que aprovou a equiparação dos salários de presidentes de autarquias e fundações aos de secretários, elevando vencimentos para R$ 37 mil.
Diante disso, cortar café e lanchinho vira gesto pequeno — quase performático.
O ajuste atinge a base da pirâmide administrativa, enquanto as decisões que ampliaram o topo seguem intocadas. Cursos e capacitações são limitados, embora sejam instrumentos de qualificação do serviço público. Eventos são podados, ainda que muitas vezes necessários para atualização técnica. O servidor paga a conta do ajuste miúdo, enquanto as escolhas políticas estruturais permanecem protegidas.
Há mais. A reposição de servidores desligados nos últimos 12 meses passa a exigir justificativa e parecer técnico das secretarias de Finanças e de Gestão de Pessoas. É controle? Sim. Mas também é freio em áreas já pressionadas, num município que convive com gargalos históricos de pessoal. Já o calendário administrativo fixa 14 feriados sem expediente e oito pontos facultativos com compensação obrigatória, inclusive segunda-feira de Carnaval e 31 de dezembro. A conta do descanso vira hora extra diluída ao longo de até 90 dias.
O ajuste precisa ser crível. Economia que começa pelo café e ignora decisões de alto impacto perde força política e legitimidade social. O servidor percebe. A cidade percebe. E o discurso de austeridade fica desalinhado com a prática recente.
Austeridade não é lista de proibições. É coerência. Sem ela, o ajuste vira gesto simbólico, o desgaste recai sobre quem menos decide — e a conta política chega do mesmo jeito.
PCdoB inaugura nova sede

Divulgação/CMC
O PCdoB Campinas inaugura na próxima sexta-feira (23) sua nova sede partidária na região do Botafogo, em Campinas. No mesmo endereço, será apresentada oficialmente a Casa Augusto Buonicore, espaço voltado a atividades culturais, debates políticos e ações formativas abertas à cidade.
A casa leva o nome de Augusto Buonicore, historiador, pesquisador e escritor campineiro, militante do PCdoB, que morreu em 2020. A proposta é que o local funcione como um ambiente permanente de encontro do campo progressista, com programação cultural, rodas de conversa, debates públicos e, futuramente, aulas e sessões de cineclube.
Segundo o presidente do PCdoB Campinas, Carlão Siqueira, a iniciativa vai além da organização interna do partido. “A Casa Augusto Buonicore nasce com a proposta de ser um espaço aberto, que dialogue com a esquerda e com setores progressistas da cidade, ampliando o debate político e cultural em Campinas”, afirmou.
O imóvel passou por reforma recente e recebeu ambientação temática, com referências a lideranças históricas e políticas, além de espaços pensados para convivência e atividades culturais. O local também abriga uma biblioteca colaborativa, formada por doações, com títulos ligados à história do pensamento crítico, político e social.
A inauguração acontece a partir das 18h, e contará com atividade cultural, roda de samba, bar e estandes com livros e produtos relacionados à cultura política. O evento terá a presença do vereador Gustavo Petta e de lideranças do PCdoB da Região Metropolitana de Campinas e do Estado de São Paulo.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br